Etiópia, a única ou Dos quebra-cabeças africanos

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            Saímos cedinho de Turmi, vilarejo no sul da Etiópia, quase fronteira com Quênia e Sudão. Era necessário, pois tínhamos muito chão a percorrer até chegar ao nosso já conhecido hotel em Arba Minch. Além da distância, tínhamos um ritmo lento por conta dos longos trechos em estradas de terra, do congestionamento causado pelas boiadas que interrompiam o tráfego e das frequentes paradas para tirar fotos ou comprar frutas. Considerando que o dia seguinte também seria inteiro de estrada, tínhamos tempo mais que suficiente para assimilar os nossos últimos dias.

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            Tempo para relembrar, se maravilhar, não acreditar, se questionar. Não são poucas as perguntas, incertas as respostas. Tínhamos passado quase uma semana rodando pela região e tivemos consciência do privilégio de sermos um dos pouquíssimos turistas a conhecer a riqueza humana desse pedaço do mundo. Conforme seguíamos rumo sul, desde Addis Ababa, testemunhávamos uma jornada não apenas geográfica, mas temporal: gradualmente passávamos de etnias já integradas à vida urbana, como os Gurage, Hadiya e Walaita, para as tribos das terras altas, com estilos de vida, arquitetura e cultivo elaborados, mas ainda completamente rurais, como Konso e os Dorze. E quando descemos pelos paredões do vale do Rift até as planícies áridas e quentes do Vale do Rio Omo, viajamos não só pelo espaço, mas pelo tempo.

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(Rio Omo)

            O Omo é um pedaço do mundo onde ainda se vive como nos primórdios da humanidade. Os povos que ali vivem ainda dependem do pastoreio e do cultivo básico, vivem em aldeias e têm como casas cabanas onde seres humanos dividem o espaço com os animais. Vivem comunitariamente, mantém rituais animistas e festas de celebração de maturidade onde mulheres recebem chibatadas de vontade própria, enquanto homens nus saltam sobre gado.

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(Totens dos antepassados no pátio de uma casa konso.)

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(Celebração do Evangadi, dança noturna pré-casamento, ritual hamer.)

            São povos com uma percepção muito particular de beleza: as mulheres hamer torneiam seus cabelos cacheados com ocre e manteiga…

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            …os karo pintam seus corpos com as pintas brancas que evocam as galinhas d’angola…

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            …as mulheres casadas mursi recortam seus lábios inferiores para que encaixar discos do tamanho de pratos de sobremesa…

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            …e, em comum a todos, a prática de escarificação, considerada sensual tanto para homens como para mulheres. Com a variedade de povos vem um número enorme de línguas, porém nenhuma possui forma escrita.

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            Para moradores do chamado mundo civilizado, esse primitivismo suscita as reações mais diversas, sendo a primeira talvez a incredulidade em testemunhar como se vive sem a possibilidade de qualquer conforto e serviços essenciais como assistência médica. E não só viver, mas viver com dignidade, com direito não só a alimentação e um teto, mas com experiência real de comunidade, de lazer nas festas, de diversão para as crianças. Com um pouco de esforço podem ter acesso a algumas experiências da vida do outro lado do espelho nos vilarejos do Vale, mas preferem manter seu estilo de vida tradicional. Como podem preferir viver com tão pouco? É um tapa na cara de todos nós que estamos ali como voyeurs, acostumados que estamos com nossa dimensão acelerada, individualista e consumista.

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            Ao mesmo tempo em que a crueza e as características radicalmente diferentes dos mundos do Omo chocam, elas também são refrescantes, na medida em que mostram que a vida moderna ocidental, como a conhecemos e prezamos, não é a única possibilidade neste nosso mundo globalizado e cada vez menor: ainda temos rincões onde a diversidade humana toma dimensões únicas.

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            Mas uma hora a modernidade chegará. E a velocidade seria mais lenta não fosse a concessão de terras pelo governo etíope para uma joint venture turco-indiana montar uma usina de cana-de-açúcar e ocupar grandes extensões para seu cultivo. E isso não é tudo: a maior polêmica atualmente é a construção de uma usina hidrelétrica que ameaça a sobrevivência dos povos do Omo.

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            Hidrelétricas também causam polêmica no norte, especialmente uma próxima ao Lago Tana, o maior do país: ali uma usina represa a maior parte das águas do Nilo Azul, que nasce a alguns quilômetros no próprio lago. A consequência é a diminuição brutal das quedas do rio, o que alterou consideravelmente o ecossistema ao redor delas. Dessas nossas duas experiências tomamos contato com um dos maiores dilemas da atualidade e que são ainda mais evidentes no continente africano: a questão da preservação ambiental confrontada com as necessidades crescentes dos seres humanos que habitam na terra. Tentar recuperar um parque nacional ou ceder as terras para que comunidades tribais cultivem para sua subsistência e sobrevivência? Deixar um grande rio seguir seu curso ou represá-lo para atender as necessidades dos moradores das cidades que o cercam? Nenhuma resposta que sairia como óbvia no mundo de teorias e especulações pode ser dada aqui sem um sentimento de leviandade. A África subsaariana é só perguntas.

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            Como reagir ao assédio das crianças que pedem canetas, garrafas de água e birr (a moeda etíope)? E como assimilar o fato de se sentir um alien em todo canto, especialmente quando se ouve o chamado onipresente: ‘Faranji, faranji, faranji!’ – estrangeiro, gringo. E a cada novo contato, apostar sempre na simpatia espontânea para ser recompensado numa porcentagem pequena de abordagens – sentimento comum em outros países também, quem viajou pela Índia conhece bem a sensação. E como recriminar? Impossível. Talvez seja pura curiosidade de ter contato com alguém tão exótico para ele. Talvez seja uma oportunidade inocente de diversão. Talvez seja a única maneira de conseguir a atenção, de um contato humano que não precisa de explicação. Aconteceu comigo no mercado de Dimeka, quando uma menina tomou minha mão e passeou comigo por todo o tempo da feira e depois seguiu com seus amigos.

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(Ebenezer, à esquerda, o poliglota de Jinka.)

            A cabeça se contorce com as dúvidas e o coração se aperta ao ver a precariedade da vida na maior parte da Etiópia. Mas nem só de questionamentos se faz uma viagem por aqui: elas são intrínsecas, mas convivem com surpresas, das melhores que se pode ter quando se conhece uma nova cultura. E aqui elas são inúmeras. Sabemos tão pouco do país que, mesmo com a preparação para a viagem, não se tem idéia do que vai encontrar. Especialmente em se tratando da Etiópia: um país culturalmente contido em si próprio, sem influência externas, de história longa e conturbada devido à sua posição estratégica.

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(Pequena na procissão de Lalibela: no rosto, cabelo e roupa, a mais típica representação do povo etíope)

            A primeira surpresa já começa no aeroporto: o relógio do balcão de vistos está parado. Não, não está parado, ele marca a hora etíope correta: são 3 da noite, mais conhecida como 21 horas para nós – eles contam as horas a partir do nascer e do pôr-do-sol. E também não estamos no dia 3 de janeiro, tampouco em 2014: por seguir o calendário sideral, voltamos pouco mais de sete anos no tempo (ou como diria o slogan do nosso operador: ‘Travel Ethiopia…and be seven years younger!’).

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            Os rostos vão se sucedendo e começamos a perceber as características físicas muito próprias dos etíopes. Seus rostos são extremamente interessantes, bonitos, e muitos usam roupas tradicionais. Não nos cansamos de observá-los.

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            A próxima surpresa vem quando rodamos um pouco ao norte da capital e descobrimos que a Etiópia da fome, aquela que a maioria das pessoas ainda tem em seu imaginário, não existe mais há tempos e que o país é cheio de terras altas, belas e tomadas de campos verdes. Já ao sul, o Vale do Rift é calor e aridez alternados com inúmeros lagos, que abrigam uma fauna única, com destaque para os pássaros. As paisagens são das mais diversas e bonitas que já vimos.

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(paisagem típica das terras altas do norte, vilarejos de tukuls – cabana circular – em meio a campos cultivados.)

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(Paisagens do Lago Chamo, um dos maiores da seqüência de lagos gerados pela falha do Rift.)

            Viajamos por terras de mil tribos no Vale do Omo, por uma cidade islâmica que nos transportou para 500 anos atrás em Harar…

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(Mercado em frente ao portão Shoa, um dos seis da cidade murada de Harar.)

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(À esquerda, uma das mais de 80 mesquitas de Jugal, a cidade murada.)

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(Museu Rimbaud, na suposta casa onde o poeta morou, nos muitos anos em que viveu em Harar.)

            …velejamos pelas águas do Lago Tana para conhecer igrejas medievais tomadas por afrescos…

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            …passeamos por entre castelos medievais que poderiam estar em qualquer cidade europeia, mas estão em Gondar…

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            …descobrimos o obscuro império axumita…

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(Parque das Estelas, em Axum.)

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(À esquerda, alfabeto sabeu em inscrição do século IV; à direita, tumba real axumita.)

            …e estivemos cara a cara com uma das maravilhas humanas, as igrejas esculpidas em pedra de Lalibela.

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(Bet Giyorgis – Casa de Jorge, a mais famosa igreja monolítica de Lalibela.)

            O amárico, língua oficial do país, é escrita com seu alfabeto próprio, pequenos desenhos antigos que lembram hieróglifos. As feições típicas etíopes são diferentes de qualquer outro povo, uma mistura de África subsaariana com Oriente Médio.

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(Bíblia medieval escrita em Ge’ez, língua antiga que precedeu o amárico.)

            E como não poderia deixar de ser, a religião também é única: a Igreja Ortodoxa Etíope mantém ritos particulares e muito próximos do cristianismo original, em parte por ter se mantido isolada de outros países cristãos e em luta constante com a expansão islâmica, mas também porque foi o segundo país no mundo a adotar oficialmente a religião, no século IV.

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(Um dos padres liderando a procissão do Timkat – Epifania – que saía de Bet Giyorgis, em Lalibela.)

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(Devoção – e diversão – na procissão do Timkat, em que as Arcas da Aliança de todas as igrejas se unem.)

            Junte a este caldeirão a crença em serem descendentes da união do Rei Salomão com a Rainha de Sabá (que crêem ser etíope, apesar de sua existência não ser comprovada por historiadores) e em serem possuidores da Arca da Aliança, de terem tido como último rei um homem considerado por muitos um deus, com direito a sua própria religião: Haile Selassie – ou Ras Tafari. Considere também o fato da Etiópia ter sido o único país africano a não ser colonizado e que atualmente ele sedia não somente a Comissão Econômica para a África das Nações Unidas, mas também a própria União Africana.

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(À direita está a segunda igreja que guardou a Arca da Aliança, do século XVII até o XX, quando foi transferida para a capela à esquerda.)

            E não devemos nos esquecer também que a Etiópia é a nossa origem, a terra da Lucy, nosso elo perdido da evolução, e de toda a cadeia evolutiva do ser humano, dos primeiros Australopithecus até o Homo Sapiens.

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(Original e réplicas do esqueleto de Lucy, uma Australopithecus afarensis, em exposição no Museu Nacional de Addis Ababa.)

            Língua, música, roupas, rostos e jeitos: tudo é novidade, tudo é único. Não há outro país no mundo que se pareça remotamente com a Etiópia. E é por isso e pelos sorrisos fartos e olhos orgulhosos do povo que viajar por aqui é uma oportunidade única, recompensadora, empolgante.

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Caleidoscópio iraniano

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            Meu último dia em cada viagem é invariavelmente melancólico. E na volta o espírito do lugar me assombra, mas não procuro fugir dele. Algumas pessoas sentem falta de casa e já antecipam o prazer de girar a chave e voltar a entrar em território conhecido. Eu, não. Apesar de amar minha casa e ter um prazer delicioso em morar e trabalhar nela, eu não penso nela enquanto estou viajando. Acabo me envolvendo de tal modo com o que me cerca que, se não fosse as checagens diárias ao e-mail de trabalho (por obrigação) e as mensagens no Whatsapp com minha família (por pura saudade e vontade de que estivessem ali), eu mergulharia completamente no meu destino.

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            Nossa última viagem, ao Irã, não foi diferente.  Tínhamos passeado o dia inteiro por Kashan, uma cidade adorável. Tanto que me peguei praguejando: por que tinha deixado somente um dia para explorá-la? Por que, na vontade de conhecer um pouco de tudo, eu tinha me deixado levar pela ilusão de que conseguiria aproveitar a cidade?

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            Puro mau-humor, afinal tínhamos aproveitado bem a cidade. Ele tinha vindo para mascarar a melancolia, que chegaria com força no final da tarde, enquanto nosso querido Majid Agha (sr. Majid) nos conduzia pelas ótimas estradas de volta a Teerã. Enquanto comia os meus biscoitos de arroz (tinha conseguido um abastecimento deles em Esfahan, apesar de não terem a delicadeza dos de Yazd), fiquei mergulhada nas minhas lembranças. Tudo ficava para trás, apesar de ainda estar lá, de ter se passado apenas uma quinzena desde a nossa chegada na madrugada de Teerã.

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            Ainda tinha um gostinho das noites de Esfahan, as pessoas fazendo compras nos bazares ou simplesmente passeando pela Praça Naqsh-e-Jahan, iluminada e cheia de vida. Tinha acabado de ter um das melhores refeições: dizi (cozido de grão-de-bico com cordeiro) sob a abóboda secular do Timcheh Amin-o Dowleh, no bazar de Kashan, em meio às antiguidades.

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            E também já sentia saudades do começo da viagem, do calor do deserto em Kerman…

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             …e dos bazares vazios de Yazd.

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            Sentia falta das inúmeras paradas nas casas de chá, hábito fácil de se adquirir…

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            …do nosso primeiro contato com o país em Teerã, ainda perdidos, e dos jardins e poetas de Shiraz.

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            O Irã é belo. Não há como ficar indiferente à mesquita Sheikh Lotfollah, em Esfahan: é como ser abraçado, envolvido pela beleza, entre o silêncio e a penumbra.

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             Ou ficar imune aos incríveis jardins, ideais do paraíso persa. Cada um atrai numa medida diferente, como o cosmopolita Eram, em Shiraz, ou o oásis de Bagh-e Dolat, em Yazd.

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            Difícil esquecer a decoração delicada que ainda se pode observar no Hamam-e Ganj Ali Khan, em Kerman, com azulejos e pinturas do século XVII, contemporâneas dos enormes murais do Palácio Chehel Sotun em Esfahan, mostrando a vida e guerra da época. E difícil também esquecer a sensação de estar num reduto de tranquilidade no meio da capital, no Palácio Golestan.

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            As paisagens são áridas e grandiosas, mas equilibradas com a doçura das pessoas, das frutas e guloseimas de que os iranianos tanto gostam. E mais que qualquer visão de turquesa, que faz brilhar meus olhos quando vejo as maravilhas arquitetônicas iranianas, é por causa deles, iranianos e seu modo de vida, que eu sinto pena de partir.

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            Um hábito interessante de vários restaurantes é o de colocar mesas comunais, onde muitas famílias acabam comendo juntas. Nessas ocasiões tivemos oportunidade de sentir a curiosidade sobre nós e, muitas vezes, tentativas de comunicação. Mas nenhum guia conseguiu transmitir o olhar intenso de carinho da senhora que se encontrava à nossa esquerda, numa mesa do restaurante Flamingo, em Orumieh. Enquanto seu marido conversava conosco, ela só olhava e sorria para mim, como se quisesse dizer algo. E dizia, mais do que poderia com qualquer palavra.

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            Nesse mesmo dia o nosso guia Hossein, preocupado porque não conseguíamos despachar o tapete que havíamos comprado em Tabriz, não sossegou até nos ajudar a enviá-lo como carga. E também fez questão de esperar que entrássemos no avião, com um grande sorriso e mil tchauzinhos através do vidro da sala de embarque.

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            Falando em tapetes, passamos horas divertidas na loja Silk Road de Esfahan, conversando com o Shantyia, namorando os tapetes, aprendendo sobre eles, vendo outros clientes negociar e, no final, negociando nós mesmos. Além de tudo, era só colocar os pés para fora da linda loja e curtir o bazar das arcadas da praça Naqsh-e Jahan. Passar por lá era sempre uma ótima maneira de curtir nossas noites na cidade.

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(foto de Arnaldo)

            Em Kerman conheceríamos nosso companheiro pelo resto da viagem, sr. Majid. Um senhor sério, mas de sorriso franco e grande gentileza. Estava sempre preocupado conosco e não deixava nunca o seu cansado Samand sem um estoque de pistaches, chá, biscoitos, passas, pepinos e uma grande melancia, que nos alimentou em várias paradas pelas áridas estradas iranianas. Sua companhia serena e tranquila nos fez sentir um nó na garganta na despedida, no aeroporto de Teerã, quase partindo para Dubai.

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            Ainda em Kerman, fomos abordados por inúmeras pessoas no museu do hamam, querendo saber de onde éramos, se podíamos tirar fotos juntos. Perto da cidade, no mausoléu do Xá Ne’matollah Vali, fizemos amizade com duas moças de uma simpatia única: ficamos um tempo batendo papo e depois seguimos nossa visita, nos esbarrando aqui e ali. No final, nos despedimos com beijos e o convite sincero para que jantássemos com sua família em Teerã, na nossa volta. Teria sido incrível, se não tivéssemos apenas uma noite, maravilhosamente bem aproveitada com o Gabriel e a Márcia, além da ótima surpresa da Caroline se juntando a nós. Os três salvaram nossa última noite saudosa no país com um jantar que podia ter se estendido pela noite, se não fôssemos viajar muito cedo.

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            Aliás, as moças são um capítulo à parte: muitas vezes as via me olhando e sorrindo, com uma curiosidade e vontade de conversar. Às vezes elas vinham até mim, às vezes eu me adiantava. Eu me lembro especialmente de uma mãe e filha que estavam na mesa à nossa frente na casa de chá Azadegan, em Esfahan, e que vieram me dar um beijo depois quando nos encontramos nas arcadas da praça.
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(foto de Arnaldo)

            E de uma menina com seu pai, na saída da mesquita Jameh, na parte mais conservadora da cidade. Eu dei um oi e um sorriso, eles também, mas não conseguíamos nos comunicar. Seguimos nosso caminho. Cinco minutos depois, no meio do bazar, lá vem ela, puxar a minha blusa e me dar um grande sorriso. Como gostaria de ter conseguido saber um pouco mais sobre ela.

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(foto de Arnaldo)

            São discretos, gentis. Muitas vezes nos ofereciam um sorriso, algumas vezes uma gentileza, como frutas ou outros petiscos. Nós os achamos muito bonitos também. E mesmo quando não eram particularmente bonitos, eram sempre interessantes. Foi o lugar onde mais curti o passatempo de observar pessoas. Não cansava nunca: lindas moças bem-maquiadas com véus coloridos, moços de porte elegante e rostos expressivos, garotas em uniforme escolar e risadas espontâneas, senhores em ternos batidos e bicicletas antigas, refletindo pura dignidade.

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            A religiosidade é um elemento importante na vida do iraniano e percebe-se isso claramente quando se chega a uma mesquita ao meio-dia, logo após o chamado do muezim. Elas ficam cheias, assim como as inúmeras salas de oração nos locais em que não há uma mesquita próxima. Sempre que podia, o próprio sr. Majid nos pedia licença e seguia para suas orações.

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            Até mesmo foi criada uma atividade física típica, o zurkhaneh (casa da força), em que exercícios curiosos são acompanhados de um músico acompanhado de percussão, que recita poemas e também exaltações a Alá.

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            A presença forte do islã, especialmente traduzida nos olhares duros dos aiatolás, nos faz acreditar em um país mais tomado pela religiosidade do que efetivamente é. Sem dúvida o conservadorismo dá o tom do comportamento e a adesão ao chador é grande, especialmente no interior do país, mas percebemos que para uma boa parte da população, nas conversas e na pura observação, a religião toca a vida, mas não a domina. E muitos fazem questão de nos assegurar essa distância. Além disso, o Irã é lar de uma grande comunidade judaica, que só perde para em número para Israel. Liberdade religiosa também é usufruída pelos zoroastras: hoje são minoria e se concentram na região de Yazd (onde se encontra a Torre do Silêncio abaixo), mas esta já foi a religião oficial do império persa.

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            Combine-se a esse atraente conjunto humano os melhores cenários: jardins cheios de rosas e espelhos d’água, arcadas de bazares milenares…

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            …mesquitas com intrincados mosaicos de azulejos multicoloridos, praças cheias de vida.

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            Desertos emoldurados por montanhas, lagos tão salgados quanto o Mar Morto…

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            …resquícios de civilizações que testemunham a importância histórica da região, especialmente dos persas.

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            Adicione também o som do farsi sendo falado em restaurantes subterrâneos, em negociação nas lojas dos mercados, no som da música tradicional que se houve aqui e ali. E uma boa pitada de chá, pistaches, azeitonas em molho de romã, frutas muito doces, pão com iogurte, todos os tipos de kebab e o maravilhoso fesejun, sempre que encontrado.
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            Uma combinação única, original, ideal. Difícil de ser esquecida.

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Minha França favorita

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            O tempo estava frio e chuvoso. Exatamente como há 14 anos, quando estive rapidamente na região. As gotas de chuva nos acompanharam até Carcassonne, a primeira de nossas paradas no sudoeste francês.

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            O desejo de voltar a essa região me acompanha desde aquela viagem. Com o passar do tempo, os livros me forneceram material para conhecer um pouco mais e sonhar. Tudo me fazia gostar – a história, a arquitetura, a comida – e tornou o processo de escolha do roteiro muito difícil, dado o pouco tempo de viagem que teríamos. A área que me interessava ia desde os Pirineus, passando pela região de Midi-Pyrénées, subindo pelo Lot e entrando a região conhecida atualmente como Dordogne.

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             Uma das maiores características dessa parte da França é a quantidade de monumentos medievais bem preservados: castelos, igrejas, cidades fortificadas. Um dos maiores símbolos da França, verdadeira representação da Idade Média, é Carcassonne. Difícil não deixa escapar um “uau” quando se vê suas muralhas de longe, saindo da parte ‘nova’ da cidade ao atravessar o rio Aude. Tivemos a sorte de ter deixado a chuva para trás e chegado com as luzes do final da tarde iluminando a ponte antiga sobre a água do rio e as torres da cidade medieval acima dele.

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            E pensar que por pouco a cidade não foi demolida, pela situação triste em que se encontrava no século XIX – sorte que alguns defensores conseguiram reverter a decisão oficial. Logo em seguida veio o arquiteto Viollet-le-Duc, responsável por outras restaurações famosas, reconstruir sua muralha dupla, o castelo, construções internas e a catedral. O final do processo resultou em polêmica, já que o arquiteto deixou de lado a acuracidade histórica em alguns pontos, especialmente em relação os telhados pontudos que todos amam.

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             Alheios às questões acadêmicas, nós, turistas, admiramos a atmosfera de conto-de-fadas, especialmente à noite, quando as ruas ficam desertas e as (poucas) luzes refletem as pedras das casas e das muralhas. Mas a história de Carcassonne é bem mais sombria: em um dos episódios mais tristes da Idade Média francesa, aqui também foram massacrados os cátaros, dissidentes da Igreja Católica que viviam reclusos em castelos da região do Languedoc. Todos foram dizimados na Cruzada Albigense, contada numa animação reproduzida à noite nas muralhas do Château Comtal.

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            Daqui até a Albi, lugar onde se origina a perseguição, são cerca de duas horas de viagem por estradas secundárias que cortam as florestas da Montanha Negra. Ao chegarmos ao hotel, a vista nos dá a certeza de que chegamos a um lugar extraordinário: entre sucessivas pontes de diferentes épocas, o rio Tarn reflete o centro histórico, com as gigantescas construções da Catedral de Santa Cecilia e do Palais de la Berbie.

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            Sendo parte da região de influência dos cátaros, Albi foi escolhida pela Igreja para o início da cruzada contra os hereges. Uma vez retomada a cidade pelos católicos, estes fizeram questão de demonstrar o seu poder construindo uma catedral que se confundia com fortaleza. De longe ou de perto, impressiona pelo tamanho e pelo fato de ter sido construída com tijolos, algo fora do padrão. Por dentro, é inteiramente tomada por pinturas renascentistas e afrescos de mestres flamengos: uma delicadeza que não se espera.

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            Faz par com a catedral em sua brutalidade o palácio dos bispos, bem ao lado. Hoje o Palais de la Berbie também tem um interior de beleza: abriga as obras do Museu Toulouse-Lautrec, andares de suas telas e pôsteres, além de obras de contemporâneos. E entre a sensação de se transportar para a Paris da Belle Époque, pelas janelas ainda se tem a vista dos jardins do palácio, com o rio ao fundo.

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            Assim como na descoberta dos jardins, Albi nos surpreendeu em cada canto da cidade medieval e se fez bonita e atmosférica com as nuvens pesadas que nos acompanhavam e nos alcançavam em cada destino quando já nos despedíamos deles.

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            Daqui o caminho medieval continua se fixando na defesa em Cahors e sua Pont Valentré, fortificada…

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            …e assume contornos religiosos na pequenina Conques, um vilarejo que parece perdido em alguma outra época, em meio ao caminho francês de Santiago de Compostela.

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            Com uma população de menos de 300 pessoas e uma estrutura urbana que viu as últimas alterações no final do século XVIII, Conques é tão bem preservada que às vezes surge a sensação de se estar num cenário. Mais que as casas em pedra e pan de bois, o que realmente atrai é a Catedral Sainte-Foy, enorme, se destacando sobre todas as outras construções.

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             Sua estrutura românica tem beleza e elegância, mas também uma proporção que assombra e que nos torna pequenos, especialmente diante da sua fachada – de pedra, maciça. Mas aqui também existe delicadeza: o seu tímpano é uma amostra do que há de melhor em escultura românica.

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            E ainda há o Tesouro de Sainte-Foy, uma das mais valiosas coleções de arte sacra francesa, cheia de peças raras, como as que datam do Império Carolíngio. Mas a verdade é que a cidade inteira é um encanto e isso descobre-se rápido, no começo, quando a vemos do alto da estrada, encaixada no vale verde. É a mesma sensação de se descobrir um tesouro, um frio na barriga. Não à toa, está na lista de ‘Les Plus Beaux Villages de France’.

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            Numa viagem cheia de ‘plus beaux villages’, no sudoeste e na Provence, uma delas não poderia faltar: Saint-Cirq Lapopie.

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            Para mim o vilarejo era um sonho antigo, a capa de um livro querido que há muito me lembrava do meu desejo de estar ali, sempre que a via. Estar em cada uma das perspectivas clicadas para o livro era um delírio e trouxe muito fortemente a sensação surreal de estar finalmente num lugar que idealizamos muito: como o padrão do que se ocorre é apenas a imaginação, o planejamento e o sonhar, quando finalmente estamos ali é necessário um tempo para que ‘caia a ficha’.

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            Cada rua, cada casa e cada detalhe eram fascinantes e o clima frio e nublado, ao invés de ser um estorvo, ressaltava a atmosfera. Falar que cada cena era saída de uma fantasia de contos de fadas medieval é um clichê, mas descreve perfeitamente a sensação.

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            Como se não bastasse a sua própria beleza como vilarejo, Saint-Cirq está sobre uma falésia debruçada sobre uma curva do rio Lot, o que lhe dá um ar dramático. É bela a vista dos belvederes sobre a cidade, mas também a vista dela própria, das ruínas do castelo, em direção ao rio e ao vale.

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            Fiquei com vontade de ver a cidade à noite (infelizmente a única pousada estava fechada nesta época do ano), mas parti feliz. A beleza da ‘estradinha verde’ que tomamos fez diminuir a saudade de Saint-Cirq: acompanhávamos as curvas do Lot ao lado dele, passando por túneis de rochas cortadas pela estrada.

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            O sudoeste é para ser apreciado através de estradinhas regionais, não por auto-estradas. É enorme a quantidade de rotas cênicas, passando por florestas, montanhas, vales. Uma das mais bonitas passa pelo parque natural de Causses de Quercy e seus canyons de rocha calcária. Um desses canyons abriga Rocamadour, uma das mais bonitas e inacreditáveis visões: uma cidade pendurada no rochedo, descendo pelas falésias.

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            Centro religioso medieval, a cidade se viu transformada em uma das cidades mais ricas da Europa pela enorme movimentação de peregrinos. Muitas das estruturas daquela época foram destruídas em épocas posteriores ao seu apogeu no séc. XII e os peregrinos foram substituídos pelos turistas, mas ainda assim a cidade assombra pela maneira com que se agarra à rocha. O santuário, seu centro, abriga diversas capelas da época e a mais antiga e venerada, a da Madona Negra, tem como parede de fundos a rocha crua.

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            Na parte baixa, a Rue de la Mercerie é lotada de visitantes e lojinhas, mas é só cair a noite que não se ouvem passos pela cidade e por um momento pode-se ter a ilusão de ter escapado ao tempo presente.

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            De Rocamadour, tomamos um trecho curto de estrada até a região central do Périgord Noir, onde é mais difícil ainda escolher um itinerário. São tantos vilarejos bonitos, castelos e cidades medievais (sem contar os belíssimos caminhos entre eles), que é impossível não pensar em voltar para continuar a exploração. No nosso caso escolhemos parar em duas cidades antes do nosso destino final e a primeira delas era Domme.

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            Ela é uma bastide, tipo de cidade planejada e fortificada que, em sua maioria, foi construída na época da Guerra dos 100 anos. É fácil de ver a diferença dela para as cidades medievais padrão: estas têm ruas tortuosas, estreitas, enquanto que as bastides são arejadas, ruas largas perfeitamente paralelas e perpendiculares.

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            Normalmente as bastides têm uma praça central, com um mercado e arcadas. Mas Domme ainda tem algo que nem todas as bastides têm: uma vista maravilhosa do vale do Dordogne, que corre nos pés da rocha onde se ergue a cidade.

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            Acompanhamos o rio por pouco tempo até La Roque-Gageac, conhecida por suas casas trogloditas e sua localização ideal, aos pés do rochedo, numa das curvas mais bonitas do Dordogne. Aqui é possível ver como as pessoas da região realmente aproveitam o rio: muitos andam de caiaque, outros preferem observar a paisagem a bordo de uma gabarre, barco típico para transporte de mercadorias. A maioria prefere passear nas margens (o que vai ficar ainda mais agradável com a reforma da promenade), observando as casas. Mas o rio é ainda mais atraente, com suas águas calmas refletindo o céu e as nuvens, as árvores que o contornam.

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            Num promontório acima do vilarejo fica o castelo de Marqueyssac, mas o que realmente interessa aqui são seus jardins. Espalhados por quilômetros de trilhas estão matas, cascatas, jardins franceses, belvederes – tudo impecavelmente mantido.

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            Cada mirante se abre para vistas lindas de todo o vale, incluindo os castelos mais famosos da região, Castelnaud e Beynac-et-Cazenac, além da própria La Roque-Gageac. Esta é uma visita que merece ao menos algumas horas de passeio e talvez um piquenique.

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            Dali são apenas alguns quilômetros e até a nossa última parada do sudoeste, Sarlat-la-Canéda. Eu, que já tinha tido a minha cota de beleza preenchida com folga desde que a viagem tinha se iniciado, não esperava que fosse me encantar tanto com Sarlat, mas eu realmente estava enganada. A cidade é bela, imponente, aconchegante, tudo ao mesmo tempo. Chegar a ela no final da tarde foi perfeito: todas as construções de pedra dourada do centro histórico brilhavam com os últimos raios de sol. E quando veio a noite, elas se vestiram de um tom mais fechado com os reflexos das luzes, que jogavam sombras sobre os becos reveladores do passado medieval da cidade.

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            O sol da manhã não poderia modificar a minha opinião sobre Sarlat, a cidade tinha me conquistado definitivamente com suas mansões renascentistas…

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            …igrejas românicas, construções misteriosas como a Lanterna dos Mortos…

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            …seu mercado cheio da especialidade da região, o foie gras…

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            …os jardins e as torres dos palácios.

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            E se dependesse só da minha vontade, a viagem teria continuado até Périgueux, Brantôme, Bergerac, talvez descer até a Gasconha…Mas nosso destino seguinte não trazia tristeza, ao contrário: alguns dias em Paris e depois, Provence. Mas esse é para mim um canto especial, num país de beleza extrema.

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Em Angkor

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            Com um xale sobre os ombros para afastar o frio, me acomodei no banco de trás e seguimos pela madrugada, passando por uma Siem Reap semi-desperta. Mr. Dara, nosso motorista, tinha sido pontual como em outras vezes: o som de sua moto de baixa cilindrada não era alto o suficiente para afastar um resto de sono que teimava em fazer pesar as pálpebras, mas o vento que entrava no tuk-tuk e a visão da mata me animaram, aos poucos. A sensação era deliciosa: a pouca velocidade era perfeita para vermos tudo ao redor e ainda poder sentir o clima da manhãzinha, tão diferente do calor sufocante do meio do dia.

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            Era o nosso último dia no Camboja e não estávamos prontos para ir embora. Três dias são suficientes para ver boa parte dos principais templos de Angkor Wat, mas de alguma maneira queríamos ficar um pouco mais: talvez conhecer mais alguns templos, visitar os vilarejos do lago Tonle Sap ou só bater perna na cidade. De alguma maneira, criamos um vínculo com esse lugar e a nossa última tentativa de aproveitar ao máximo foi chegar ao complexo dos templos com o nascer do sol.

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            Quando chegamos ao seu centro icônico, o próprio templo de Angkor, o sol já despontava, iluminando-o.

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            O conjunto das torres parecia exercer uma atração ainda maior. A sua beleza vem não somente de suas grandes proporções, mas principalmente de uma autoridade que emana de seus significados ocultos, da vibração de séculos de preces proferidas no templo, da arte delicada que cobre toda a sua superfície e do próprio fato de sobreviver a quase nove séculos de guerras e descaso.

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            Somado a tudo isso ainda há a presença do fosso que o circunda, transformando o templo em uma joia a ser protegida.

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            E há também os monges de robes açafrão que circulam com naturalidade em meio aos turistas e que deixam ainda mais fotogênicos os cenários, suas roupas coloridas contra os monumentos de pedra.

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            No dia anterior, sentados na plataforma de um dos templos secundários, observávamos o pôr-do-sol sobre Angkor. As torres eram refletidas perfeitamente no lago esquerdo, enquanto no outro, crianças brincavam de cambalhotas na água. Estávamos tão distraídos naquele momento perfeito, um daqueles que fazem toda uma viagem valer a pena, que não percebemos alguns monges se aproximando.

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            O papo começou tímido e aos poucos foi engrenando: de onde éramos, o que fazíamos, o que achávamos do país. E eles nos contaram que eram de um mosteiro de uma cidade próxima e estavam visitando Angkor Wat como nós, turistas. Eram tão jovens e sorridentes, em nada lembravam a seriedade e reserva que se espera de religiosos. Nós nos despedimos quando a luz ameaçava desaparecer rapidamente.

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            Talvez exista algo dos antigos khmers nestes monges, um eco do positivo que existia numa sociedade avançada e complexa, um império poderoso com sede em uma metrópole de palácios e templos, cercada por campos de arroz e um sistema de irrigação genial. E assim foi dos séculos IX ao XIII, enquanto o Ocidente passava pela Idade Média.

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            Depois da decadência e, há menos de 40 anos, o período negro imposto pelo Khmer Vermelho, (do qual nosso guia nos contou se lembrar, como menino, das mudanças frequentes da sua família, fugindo do exército), não é demais ter esperanças de que o espírito grandioso dos homens que viveram, trabalharam e governaram o império se sobressaia.

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            Homens como Suryavarman II, que conseguiu a unidade khmer e glorificou o deus Vishnu com a construção de Angkor Wat. Ou então Jayavarman VII, o maior de todos os reis de sua dinastia, que deu continuidade ao trabalho do seu antecessor e transformou o império khmer em um dos maiores que já existiram na Ásia.

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            A sua capital, Angkor Thom, ainda pode ser vista hoje, ou pelo menos algumas de suas estruturas, como as muralhas e seus portões…

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            …uns poucos elementos remanescentes de seu palácio, estradas…

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             …e alguns templos, como o Bayon.

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            Extremamente belo, enigmático, fotogênico.  Depois de Angkor Wat, não se espera que nada possa entusiasmar tanto, mas aqui está ele.

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             E ainda tem tantos outros, como o Pre-Rup…

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            …Ta Prohm, deixado sem restauração para mostrar o estado do sítio arqueológico quando a natureza ainda o tomava por inteiro…

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            …e Banteay Srei, onde se chega depois de uma pequena viagem por campos de arroz e vilarejos de casas de palha e bambu. Eles provam que esse é um povo que preza não só a grandiosidade na construção de um império, mas também a beleza, a espiritualidade, o sublime.

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            Um dos lugares que estava nos nossos planos e não conseguimos visitar foi o Phnom Bakheng no pôr-do-sol. Apesar das multidões, queríamos ver Angkor iluminado pela luz do final de dia, do alto e a alternativa foi seguir para lá cedo, depois de vermos o nascer do sol em Angkor. E lá seguimos de tuk-tuk até o ponto em que começa a trilha de subida.

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            O clima fresco da manhã ajuda na caminhada e na subida do templo, que permite uma vista linda da silhueta de Angkor Wat.

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            Descemos e ali estava nosso motorista nos esperando e dando um sorriso: ‘Gostaram?’ Sim, Mr. Dara, amamos. O nosso sósia cambojano do Patrick Swayze ainda deu uma longa volta por Angkor Thom para que nos despedíssemos do lugar e nos deixou no hotel, com o sorriso largo e um aperto de mão forte.

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            Os cambojanos são assim: discretos, educados, elegantes. Sorridentes, mas não de um sorriso à toa: o que se vê é um sorriso contido, tímido. De uma maneira suave e sem intenção, conquistam você. São bonitos: um dos melhores programas em Siem Reap é vê-los, moças e moços passeando a pé ou de moto. E te fazem chorar também.

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            Nos quatro dias em que estivemos na cidade, tivemos a sorte de sermos sempre atendidos em nosso hotel por um senhor de uma simplicidade e delicadeza tocantes. Infelizmente não me lembro de seu nome, mas sim de seu sorriso e de sua doçura. Ao voltar deste último passeio, já tristes com a despedida de um lugar que tinha se tornado tão querido, decidi aproveitar o restante do tempo na piscina. Logo depois, aparece nosso conhecido garçom, me oferecendo uma bebida. Aceito e conversamos um pouco: ele me pergunta pelo sr. Arnaldo e sente não poder se despedir dele, que já tinha subido. Tinha terminado seu turno e era hora de ir para casa. Suas palavras simples de despedida e desejos sinceros de uma vida feliz encheram meus olhos de lágrimas, escondidas pelos óculos escuros.

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            No nosso transfer ao aeroporto, passamos novamente em frente a Angkor Wat e vemos pelas janelas as pessoas sentadas nos bancos em frente ao fosso, as crianças brincando à beira da estrada, mulheres caminhando, jovens passando com suas motos. São cenas simples, mas que tomam uma dimensão poética nesse lugar. É a história que ainda flutua, a floresta que a envolve, as pessoas que estão em outro nível de singeleza e sensibilidade. E me emociono novamente.

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Dias de Myanmar

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            Subimos na canoa na hora do lusco-fusco. Avançamos rápido pelo canal, as silhuetas pretas das árvores contra o vermelho do pôr-do-sol, as montanhas ao fundo. Quando as margens desaparecem, sabemos que esse é o nosso destino e nesse momento a noite desce. Mil estrelas se instalam no céu, o vento frio refresca a pele e um cheiro suave e indefinido emana da água: são nossas companhias numa viagem mágica pela noite do lago Inle.

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——

            É quase meio-dia: difícil de acreditar que estamos no inverno. O toldo da carroça alivia o sol forte, assim como a sombra de alguns trechos arborizados do caminho. O ritmo gostoso do casco do cavalo na estrada de terra é o único som naquele trecho de mundo separado de tudo por canais de irrigação e dois rios, um deles o Ayeyarwaddy.

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            Passamos por restos de grandes muralhas terracota, uma torre antiga inclinada por obra de terremotos, monges de vermelho em meio às plantações de amendoim…
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            …e stupas em ruínas cercadas por vacas e seu ritmo lento na antiga capital de Ava.
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            A caminhada do dia é leve, com pequenos desníveis em meio a campos de bambu, búfalos e aldeias Ann, a pouco mais de uma hora de Kyaingtong.
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            Duas moças passam por nós com seus cestos ancorados na testa e sorriem seus dentes pintados de preto.
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            Barulho próximo: um lagarto cai da árvore no laguinho e sai nadando desesperado.  A fome aperta e paramos numa cabana para comer mexericas com a visão dos terraços de arroz serpenteado abaixo de nós, verde-limão em meio ao marrom dos campos semeados ao lado.

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            Ainda um pouco fora do ar pelo choque da chegada em um lugar novo e pela longa viagem até ele, passeamos devagar por entre as pequenas monjas em robes cor-de-rosa e fiéis rezando aos pés da stupa mítica de Shwedagon, em Yangon.

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            Uma senhora que atua como segurança de uma das capelas me apresenta seu sorriso mais doce e me indica os melhores ângulos para fotografar a madeira rendada do teto e os budas no seu interior (“Não são lindos?”, ela me pergunta.).

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            A combinação das cores das roupas, dos templos e do céu cativa o olhar por mais tempo que recomendado, dado o brilho do sol que se põe e seu reflexo no ouro que reveste a cúpula da stupa.

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            Sentamos no chão, próximos e a observamos em silêncio, atordoados e sem palavras com a beleza do lugar.
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            Nem sentimos o descolar do chão: o balão subia suavemente em meio aos outros globos.
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            A mata aparecia entremeada de listras brancas, a névoa da madrugada ainda rente ao chão. Junto ao verde e branco, o vermelho do balão vizinho se interpunha à gigantesca stupa dourada de Shwezigon Paya, abaixo de nós.  O sol nascia, colorindo o céu a leste com um degradê de vermelhos e laranjas e iluminando toda a planície de Bagan a oeste, delimitada pela curva do rio.
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            A fachada dos mais de dois mil templos brilhava, conservando o lado oposto ainda nas sombras da madrugada.
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            Nossa piloto diminuiu a altitude o suficiente para observarmos de perto um dos templos mais bonitos, o Sulamani, e o brilho das pedras preciosas do seu hti (cúpula). E subimos novamente.
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            Eu poderia continuar por muito mais tempo aqui, envolvida nas minhas memórias, que são muitas: observar a passagem dos rebanhos retornando no final do dia, em meio à poeira e aos templos de Bagan…

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            …ter a sensação de sermos alvo de todos os olhares no mercado de jade de Mandalay, sorrir de satisfação em meio às mil stupas antigas e desertas de Inthein…

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            …descer toda noite para cervejas e porco no mesmo restaurante à beira do lago em Kyaingtong, ter a aflição de se sentir analfabeta compensada pela visão de um alfabeto bonito e misterioso, ver a luz do final de tarde transformar a água nos campos de arroz em prata…
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            …me surpreender com os reflexos dos vilarejos sobre as águas do Inle…
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            …cruzar o olhar com a menina que chorava no trem suburbano de Yangon, tentando falar com os olhos que tudo iria ficar bem.
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            Já comentei em um post sobre a resposta da nossa mente em viagem: saímos do piloto automático do nosso dia-a-dia e nossos olhos ficam verdadeiramente abertos, captando rostos, detalhes arquitetônicos, os ângulos de uma paisagem.

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            Ouvidos captam a música e os sons da língua, o nariz sempre a postos para aromas de flores, comida ou outros nem tão agradáveis – estímulos que nem sempre passam pelo consciente e que mais rapidamente despertam nossa memória. Queremos tudo naquele momento e também nos lembrar desse tudo para sempre, resgatar aqueles pedaços de vida quando queremos e precisamos.

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             Só que isso não acontece, por mais que tenhamos boa memória, tiremos mil fotos ou tomemos notas de tudo no hotel à noite. E muitos momentos felizes se perdem pela vida. E senti muito por isso desde que voltei de Myanmar porque esta viagem nos recompensou com experiências significativas e dignas de lembranças eternas até nas situações mais prosaicas. Como o ambiente dos templos mais lindos e grandiosos, cheios de vida e devoção. Ou cenas rurais simples, mas cheias de significado para quem cresceu com vínculos ao campo.

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            …mercados oferecendo as verduras mais frescas e diferentes, que se transformariam em pratos deliciosos.
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            E foram muitos os sorrisos, genuínos, curiosos e cúmplices.
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            A riqueza cultural de Myanmar vai muito além de sua história, música, arquitetura.

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            Pudemos testemunhá-la na diversidade étnica do país, no pouco que pudemos ver em nossas duas semanas de andanças: traços diferentes, dialetos, roupas, estilo de vida. A co-existência de cerca de 130 etnias em um espaço geográfico definido, mesmo sendo Myanmar um grande país, pode apresentar dificuldades e elas existem ainda hoje: sendo uma área separatista dos shan, necessitamos de permissões especiais para visitar Kyaingtong. Mas como não se maravilhar diante de uma variedade antropológica desse porte, em que ainda existe bastante harmonia de convivência?

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            E como não admirar um povo que, recém-saído de uma ditadura militar que impôs um isolamento de 37 anos, ainda consegue manter a dignidade, a postura positiva e receptividade? E ainda sabemos que na verdade o que vemos hoje é uma transição, que os militares ainda detêm muito do seu poder, incluindo a maioria das atividades econômicas que são administradas por seus testas de ferro ou aliados civis. Tudo ainda parece parado no tempo, tanto no campo quanto nas cidades, fruto das sanções econômicas.

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            Mas o desenvolvimento chegará e aproximará o país do ritmo mundial atual. Só nos resta esperar que ajude a diminuir as desigualdades sociais, que o país esteja preparado para isso e que sua força, caráter e autenticidade como povo não sejam diluídos no processo.

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            Cada cena deste filme que chamamos nossa viagem parece ter sido cuidadosamente escolhida para entrar no roteiro. Cada quadro é belo e escandalosamente fotogênico – nenhum deles fora do lugar, excessivo ou supérfluo. Para onde olhávamos, a cena parecia montada para que nós a apreciássemos naquele pequeno instante.

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            As horas do dia potencializavam de maneira diferente a beleza do lugar com o impacto da luminosidade. Os cenários – templos, mercados, palácios, campos – têm o exotismo e a pátina do tempo que atraem qualquer voyeur.

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            E cada ator parecia saber exatamente o seu papel e como elevar a cena ao máximo de sua beleza: com um olhar, um sorriso, um caminhar elegante, um movimento cotidiano. A sua simples presença. Todos atores principais, transformando a matéria-prima fora do comum que existe em seu país em algo extraordinário.

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Samarkand e as ilusões

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            Nesta semana eu continuava minha leitura de The White Rock, que conta as aventuras de Hugh Thomson quando jovem no Peru e as descobertas arqueológicas de que ele participou. Em determinado momento do livro, ele está lendo Tristes Trópicos, de Lévi-Strauss, e comenta: “Ele também me ajudou a definir uma constante da minha própria experiência de viagem – que viajar é a diferença perpétua entre o que se espera e o que se vivencia”.

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            Todas as vezes que viajo eu construo na minha cabeça a atmosfera das cidades e lugares por onde irei passar. Imagino que isso deva acontecer com muitos viajantes. Qualquer texto, foto, vídeo ou conversa ajuda nesse processo e ele acontece naturalmente: quando me dou conta, já montei o meu roteiro e me imagino caminhando pelas ruas, já me sentindo ali.

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            É inevitável, em algum momento da minha estada, que eu me dê conta de quanta diferença existe entre meu lugar imaginado e o real. E é divertido constatar isso. Mas o que existe também é a expectativa que, ao contrário da pura imaginação inócua, pode sim causar decepções. Como não criar expectativas quando se vai ao Camboja e Angkor Wat está no roteiro? Ou na primeira vez em que se visita Paris?

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            A minha expectativa no Uzbequistão tinha um nome: Samarkand.

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            Uma das cidades mais antigas da Ásia Central, desejada por Alexandre, o Grande, inspiradora de poemas, o emblema maior da rota da seda: Samarkand é um daqueles lugares míticos que julgamos inacessíveis, como Xanadu ou Timbuctu (este último, infelizmente inacessível agora e não sabemos por quanto tempo). Na minha mente, imaginava uma cidade antiga, com prédios em tons ocres e ornamentos turquesa, grandes bazares, bairros antigos cheios de ruelas labirínticas – e a grandiosidade de todos os monumentos que fizeram a sua fama.

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            Khiva e Bukhara eram diferentes na minha imaginação, claro, mas não escaparam muito dessa ideia geral que eu tinha delas: cidades que faziam voltar séculos atrás. E foi desta última que saímos numa manhã fria, a bordo do expresso Sharq.

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            Seguimos pelas linhas férreas do Uzbequistão por 3 horas até Samarkand – ou Samarqand, Samarcanda ou Marakanda, como os gregos a conheciam. Ocupada desde cinco séculos antes da nossa era, colonizada por árabes, persas, turcomanos e mais um punhado de povos, se tornou uma metrópole antes de ser aniquilada por Gengis Khan. Mas, como outras cidades da Transoxiana, voltou à vida: o responsável foi Timur, que decidiu fazer da cidade a capital do seu império. Transformou-a em uma das mais prósperas e belas do mundo medieval, mas fez sofrer os povos ao redor com sua tirania e crueldade.

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            Saindo da estação, o que vimos foi uma grande cidade, cheia de avenidas largas e prédios soviéticos. Os bairros planejados com ruas sombreadas por plátanos e construções russas do século XIX eram muito agradáveis, bons para caminhar, mas não era para isso que tínhamos vindo até aqui. Esperávamos que o lado leste da cidade fizesse jus ao nome e nos revelasse um pouco mais de oriente.

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            Mas, depois do check-in e um bom almoço, o que vimos não foi muito diferente: mais avenidas largas, grandes parques, fontes e murais em estilo soviético e de repente estávamos ali, na frente dele: o Registan.

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            O emblema maior da minha viagem, o centro de toda a atividade na antiga Samarkand: três grandes madrassas, monumentos que sobreviveram a terremotos e à natural degradação do passar do tempo. As restaurações dos revestimentos e obras de arte originais trouxeram para nós alguns dos mais belos exemplos da arte islâmica.

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            Estas são algumas das mais antigas madrassas do mundo, o que vale especialmente para a Ulugbeg, da esquerda, que é do começo do século XV. A sua construção foi ordenada pelo próprio Ulugbeg, neto de Timur – mais cientista que governante, era um matemático e astrônomo talentoso.

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            Há aqui uma exposição sobre sua importância na história da astronomia, mas o melhor lugar para testemunhá-la é numa colina afastada, próxima à enorme escavação arqueológica de Afrosiab (onde ficava a primeira Samarkand). Enterrado ali está uma parte de seu astrolábio gigantesco, com raio de 36m. Construído em 1420, era um dos maiores do mundo e fazia parte do seu observatório.

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            Mas a madrassa no Registan é também prova do seu interesse em investir em educação e transformar Samarkand no centro de ensino da Ásia Central, o que de fato aconteceu.

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            As outras madrassas vieram somente dois séculos depois: a Sher Dor, com uma fachada conhecida de leões que, assim como a Nadir Divanbegi de Bukhara, desafia a proibição islâmica de retratar seres vivos…

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            …e a Tilla-Kari, ao centro do complexo.

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            Além de um simpático jardim de frutas no seu pátio e das tradicionais lojas de artesanatos e ateliês, ela abriga o que talvez seja a mais bonita mesquita da viagem (apesar de pequena): tetos e paredes em folha de ouro e turquesa, trabalhados com minúcias. Difícil encontrar rival para o efeito artístico conseguido na cúpula.

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            Hoje esse patrimônio está muito bem mantido, dentro de um belo parque, em frente a uma das maiores avenidas da cidade, a Registanskaya. Mas esse também foi o motivo do meu choque: não esperava ver o Registan embalado para presente, como uma joia na caixinha. Ele está ali, lindo: esperamos o reflexo do pôr-do-sol nas suas fachadas e ainda voltamos no outro dia cedo para vê-lo sob outra luz. Mas e o ambiente que me faria voltar séculos no tempo? É claro que as cenas dos bazares e caravanas ao redor das madrassas se perderam em alguma época, mas o que vejo hoje é um museu.

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            Do lado direito do parque do Registan começa a Tashkent Kochasi, um calçadão amplo, cheio de lojas novas. Pelo meu mapa, ao redor estão alguns bairros antigos, inclusive o bairro judeu. Mas não dá para ver nada: muros altos os separam do brilhante calçadão. Em certo momento pude ver um dos portões de acesso aos bairros. Fiquei chocada.

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            Na fronteira com os bairros russos está o mausoléu de Gur-e-Amir, um dos mais importantes monumentos da cidade.

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            Ali está a família de Timur, incluído o próprio e Ulugbeg. Ao seu redor, mais um horrível muro, separando um bairro tradicional de um ponto turístico importante.

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            Ficamos sabendo da vontade de Karimov de transformar Samarkand numa vitrine do desenvolvimento uzbeque: o planejamento urbano da parte antiga da cidade era resultado disso. Casas simples e ruas de terra não combinavam com o seu projeto e por isso acabaram segregadas. As largas avenidas, cheias de painéis de propaganda, são o complemento dos muros em torno dessas construções que fazem parte da lista de Patrimônios da Humanidade da Unesco. Só não entendo como a própria não fez nada para que, ao invés de demolidos, vários hammams antigos fossem restaurados, para ficar num exemplo. Muitos ficavam numa área onde hoje está uma grande praça estéril, ao lado do Registan.

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            Mas Samarkand é muito maior que os surtos de “enobrecimento” de sr. Karimov. Depois de visitar Gur-e-Amir…

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            …é só seguir até os fundos do mausoléu que um portão dá entrada ao bairro. O monumental fica para trás e tudo tem uma escala mais humana: as casas em pequenos becos, a mesquita antiga, a vendinha dos dois jovens irmãos e o senhor recém-tornado avô (cujas histórias contei aqui).

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            Pouquíssimos carros circulam, jardins e pátios são vistos pelas portas entreabertas, o silêncio conforta. Quase saindo, por outro portão, vi alguns B&B e achei que aquele seria um bom lugar para ficar. Mais alguns passos e estava na Registanskaya novamente.

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            Na outra ponta da avenida, o calçadão pode esconder muita coisa, mas leva a um lugar que não perde a essência, mesmo com as intervenções estéticas no decorrer de seus 600 anos de existência: o bazar Siob. Os bazares da Ásia Central são alguns dos melhores lugares para se visitar em cada cidade e o de Samarkand perde em tamanho para o Osh, de Bishkek, e o Chorsu, de Tashkent, mas não em animação. Em pleno meio da tarde havia muita gente à procura de legumes e verduras, além das frutas incrivelmente doces: essa é a verdadeira experiência gastronômica no país – os figos e ameixas comprados aqui estragaram para sempre qualquer experiência posterior nossa com essas frutas.

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            Há também a comida básica de todas as refeições, o pão, que normalmente é vendido em antigos carrinhos de bebê, picles de todos os tipos e uma variedade ainda maior de iogurtes, vendida numa área específica para eles.

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            Ainda sobram espaços para comer um cachorro-quente ou shashlyk (embora pareçam menos saborosos que as samosas vendidas nas casas dos arredores) ou talvez comprar um berço tradicional: quem assistia ao programa antigo do Anthony Bourdain talvez se lembre do episódio do Uzbequistão, quando ele compra um deles como presente para um casamento ao qual foi convidado…

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            O enorme bazar parece pequeno do lado da sua vizinha, a mesquita Bibi-Khanym.

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            Parte do complexo de monumentos que deu a Samarkand o título de Encruzilhada de Culturas pela Unesco, o que vemos aqui é na maioria reconstrução após um terremoto destruir as principais estruturas, no final do século XIX. Aparentemente a construção era ousada demais para a época em que foi feita, durante o reinado de Timur, e estava nos limites da segurança.

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            Além de ter sido feita rapidamente: segundo a lenda, quem encomendou a obra foi sua esposa chinesa que dá nome à mesquita, e ela apressou o arquiteto para que ficasse pronta antes que Timur voltasse de uma campanha. Ele se apaixonou por ela e só concordou se ela o beijasse, o que aconteceu. De alguma maneira, Timur ficou sabendo e a história terminou de maneira trágica.

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            É fácil aqui adquirir uma noção do ideal de cidade que Timur havia pensado para Samarkand ao ver uma obra como essa mesquita: grandeza, imponência e beleza, que deviam ter a função de conquistar a admiração, assim como mostrar seu poder aos seus súditos e estrangeiros. Tudo é gigantesco aqui, inclusive o Corão que ocupa o pátio central.

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            Não muito longe dali, descendo a colina e tomando mais uma das largas avenidas, chega-se ao lugar que talvez que mais retenha o espírito antigo de Samarkand: Shah-i-Zinda, ou Avenida dos Mausoléus. O nome não promete muito, mas este é um lugar sagrado e belo.

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            Depois do primeiro portal, uma mesquita à esquerda recebe alguns dos peregrinos para orações, enquanto outros sobem a escadaria, passando pelo segundo portal: um corredor cheio de edifícios tão incrivelmente bonitos que mais parecem um catálogo das mais diversas artes islâmicas.

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            Cada um dos mausoléus é totalmente diferente do outro, e os azulejos conseguem ser tão ou mais impressionantes que o exterior, sem contar com o trabalho de ghanch (gesso trabalhado) e escultura em madeira.

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            Seguindo em frente pela “avenida”, chega-se ao centro do complexo, o túmulo de um parente do profeta Maomé, que trouxe o Islã para essa região no século VII.

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            As atuais construções são da época de Timur e muitos membros de sua família estão enterrados aqui. Esta é uma Samarkanda que Ibn Battuta poderia ter encontrado quando esteve por essa região, em mais um pedaço de suas viagens sem fim.

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            A Samarkand de Timur, Bibi, Ulugbeg e Ibn Battuta pode ter desaparecido com o tempo e com a ajuda de governantes sem qualquer noção, mas a cidade continuou sua evolução no tempo, se tornando uma das maiores metrópoles uzbeques, cheia de vida. E a verdade é que, com ou sem as intervenções estéticas, jamais deixaria de ser um museu de uma época de ouro. E que museu!

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            Se Bukhara e Khiva acolhem, Samarkand prefere impressionar. E nós também nos tornamos reféns de Timur e seu sonho de grandeza. Depois de tantas expectativas e choques, eu também me dei conta de que tinha me apaixonado por Samarkand. E pelo Uzbequistão.

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            E naquela última noite na cidade, mesmo dançando em meio a famílias num restaurante-balada kitsch, eu me sentia melancólica. Tinha ainda o Quirguistão pela frente, mas era como se minha viagem terminasse ali. Queria ficar mais. Preciso voltar.

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Bukhara essencial

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            Nada como poder descansar à beira de uma piscina do século XVII, cercada de amoreiras antigas, com duas magníficas madrassas em cada lado e uma chaikhana com suas tapchan na beira da água. Do outro lado, uma das principais ruas de pedestres de Bukhara começava a se animar com o movimento do final da tarde – senhores conversando nos bancos, crianças brincando no parque, trabalhadores fazendo compras e voltando para casa.

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            Lyabi-Hauz é o centro da atividade em Bukhara: uma das poucas piscinas que sobraram de dezenas que povoavam a cidade e os canais que as alimentavam. Ao seu redor estão belos edifícios do século XVI e XVII, como a as madrassas Kukeldash e Nadir Divanbegi – essa última com lindos desenhos de pássaros na sua fachada, prova de que o Islã aqui também era mais relaxado em tempos antigos.

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            Um caravanserai de um lado do lago, um restaurante à beira dele, um jardim o dividindo das madrassas, onde noivos tiram fotos. O sol se punha e deixava todo o complexo arquitetônico dourado.

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            Mas esse final de dia perfeito foi uma recompensa e um contraste total à nossa jornada para chegar ali. Saindo cedo de Khiva, passamos por alguns vilarejos, com suas casas tradicionais com videiras na frente…

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            …e paramos em um deles para comprar suprimentos para a viagem de cerca de 7 horas, a maior parte dela por dentro do deserto do Kyzylkum.

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            A distância entre as duas cidades é grande, mas se torna maior pelo estado lastimável da estrada, onde não conseguíamos fazer mais que 30 km/h…

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            Nenhum sinal de vida em quilômetros, mas uma chaikhana nos salvou na hora do almoço, com sopa e espetinhos de cordeiro deliciosos, como uma miragem. Tivemos, além das dunas que ameaçavam enterrar o já péssimo asfalto, o Amu Darya como companhia por um longo trecho, servindo de fronteira com o Turcomenistão, na outra margem.

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            No meio da tarde chegamos a Bukhara, uma das cidades mais antigas da Ásia Central, considerada também uma cidade sagrada: seu centro antigo é cheio de mesquitas, minaretes, e madrassas. Há tantas dessas últimas, sem contar as que foram destruídas, que não é difícil imaginá-la como uma cidade universitária. Hoje apenas uma ainda mantém alunos, que pudemos flagrar através de suas treliças: a Mir-i-Arab.

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            Ela é uma das lindíssimas integrantes dessa praça que pode ser considerada um dos pontos centrais da cidade: além da madrassa, aqui está a mesquita Kalon, enorme, simétrica, bela.

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            Percorrer seu pátio e corredores, vendo o complexo de vários ângulos, foi um daqueles momentos de surpresa na viagem, quando você se pega admirando o que vê em voz alta.

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            Mas o personagem principal da praça é mesmo o minarete Kalon.

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            Ele surpreende por tudo: altura, o trabalho ornamental de tijolos em diferentes desenhos, seus alicerces profundos que evitaram que caísse mesmo depois de vários terremotos. E não somos somente nós, turistas, que ficamos impressionados: até Gengis Khan, não exatamente conhecido por sua piedade e respeito pelos povos que conquistava, ficou tão admirado com a estrutura (provavelmente nunca tinha visto uma tão alta), que poupou-a da destruição que destinou às construções vizinhas. Ela é portanto, uma das poucas lembranças da Bukhara antes da invasão mongol.

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            Para poder admirar melhor o complexo arquitetônico, passe por trás do minarete até a área residencial próxima, num nível mais alto: parece outro lugar, tão diferentes as visões. Mas a melhor maneira de constatar a sua grandiosidade é subir até o terraço do restaurante Chashmai Mirob e se encantar com a vista enquanto come mantis recheados de abóbora.

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            Estávamos visitando o centro compacto de Bukhara numa sexta-feira, dia santo para muçulmanos e a mesquita Bolo-Hauz estava lotada. Senhores rezavam nas áreas interna e externa, mas muitos também se reuniam fora dela, na beira de outro reservatório – era claro que, mais que um evento religioso, a prece de sexta era uma oportunidade para fazer social. E tudo colaborava: o dia ensolarado e agradável, os bancos à beira da água, sob as árvores, a visão da belíssima mesquita coberta de entalhes de madeira, trabalhos em gesso, pilares esculpidos e as cores que cobriam paredes e teto.

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            Do outro lado da piscina, chamava a atenção uma estrutura pesada, talvez a maior da cidade: Ark, a fortaleza de onde reinaram os khans de Bukhara desde o século V.

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            O que existe hoje é de épocas posteriores, mas infelizmente boa parte do que há dentro foi destruído pela invasão soviética e o que sobrou não pudemos ver – a visitação estava temporariamente suspensa. Mas as gigantescas e estranhas muralhas estão recuperadas em boa parte e são uma das visões mais inconfundíveis de Bukhara.

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            Mas nem só de religião vivia a cidade: seus bazares cobertos atraíam multidões de comerciantes e suas caravanas. São estruturas arquitetônicas muito belas, pequenas cúpulas espalhadas aqui e ali pela cidade – é fácil identificá-las em uma caminhada pela cidade.

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            Cada especialidade se concentrava em um bazar: perto de Lyabi-Hauz há o Taki-Sarrafon, região onde se concentravam os operadores de câmbio.

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            A região ao sul dele é o tradicional bairro judeu, ocupado densamente desde o século XII e com direito a uma língua própria, mistura de persa com hebraico. A maioria emigrou para Israel, no entanto, e só um grupo pequeno ainda resta em Bukhara.

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            Próximo à praça central está o bazar Taki-Zargaron, com seu característico pé-direito alto que facilitava a circulação de ar – essencial numa região sempre quente.

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            Ele pertencia tradicionalmente aos joalheiros e digo isso porque hoje essa divisão de especialidades não faz mais sentido: muitos dos bazares foram perdidos no decorrer da história e, nos que sobraram, hoje a maior parte das mercadorias é composta de tapetes e suzanis (tecidos bordados). Hoje a venda de joias é uma exclusividade feminina no bazar do ouro, ao lado da mesquita Kalon.

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            A venda de tapetes e têxteis é atualmente a principal função do Taki-Telpak Furushon, ou bazar dos fabricantes de chapéus: seus corredores são tomados por lojas de tapetes e, se você não consegue resistir a um, é melhor passar longe dele. Tudo é lindo, desde os mais finos de seda até os tribais, rústicos. Há tapetes novos e antigos, muitos com o padrão bukhara: fundo vermelho com motivos distribuídos em linhas e colunas. Apesar do nome, a maioria dos bukharas é feita no Turcomenistão, um dos principais produtores de tapetes orientais na atualidade. Mas se você tem a intenção séria de fazer uma compra, pode passar horas muito agradáveis andando pelas lojas, vendo os estoques e negociando.

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            Certamente as peças que devem chamar a atenção são as antigas, muito belas e bem mais caras. Um bom lugar para apreciar este tipo de tapetes é o pequeno museu que fica dentro da mesquita Maghoki-Attar, bem próxima do bazar. Difícil escolher, no entanto, a que dedicar mais tempo: ao acervo ou ao edifício.

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            Esta é a mesquita mais antiga da Ásia Central, datando do século IX, construída sobre o que já foi primeiramente um templo budista e depois zoroastriano. Sofreu modificações no século XVI, foi danificada por um terremoto no XIX e recuperada no XX: parte da escavação arqueológica ainda pode ser vista ao lado. Era ela que víamos na névoa da manhã depois de acordar, pela janela de nosso quarto.

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            Ao contrário de outras cidades uzbeques e quirguizes, Bukhara conseguiu manter algumas poucas construções anteriores ao século XIII e à destruição provocada pelos mongóis. Além dessa mesquita e do minarete Kalon, o mausoléu de Ismail Samani é um exemplo muito bem conservado de arquitetura do Islã: foi construído entre os séculos IX e X, tendo sobrevivido quase sem restaurações graças à sua solidez.

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            Ele fica num parque a oeste do centro da cidade, onde há também restos da muralha original que protegia a cidade, além do curioso mausoléu Chashma Ayub: há aqui um poço onde as mulheres fazem fila para retirar a água. Segundo a lenda, o bíblico Jó teria batido seu cajado na terra aqui e feito brotar uma nascente.

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            Seu formato incomum só adiciona à coleção arquitetônica de Bukhara, cheia de estruturas dos mais diversos tipos, ao contrário da unidade vista em Khiva. Outro exemplo disso é o Char Minar, bem escondido em numa praça de um bairro residencial: as quatro torres que o compõem não têm nenhuma função a não ser estética, e funcionavam como um dos portões de uma madrassa que já não existe mais.

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            A verdade é que a lista vai mais além: a cidade é cheia de antigos palacetes, mausoléus, museus, hammams…Bukhara ainda preserva o ambiente que tinha na época pré-soviética, especialmente na sua região central.

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            É preciso muito mais que dois dias para aproveitá-la como se deve: com calma. Parando para um chá. Entrando nas lojas nem que seja somente para admirar seus tapetes. Sentando num dos bancos de Lyabi-Hauz e ver a transformação do complexo conforme o sol percorre sua trajetória.

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            Entrando em uma madrassa qualquer e se surpreendendo com o que há lá dentro.

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            Fazendo amigos. Alugando uma bicicleta para percorrer as vielas dos bairros antigos. Queríamos ficar mais: uma cidade gostosa como Bukhara merece mais tempo, é para ser namorada. Mas o dia seguinte nos reservava um lugar no trem para Samarkand.

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Sobre encontros e pessoas

            Quando viajamos, somos tocados de diversas maneiras e as lembranças, quando voltamos, refletem isso, à conta-gotas. Às vezes, no meio de um dia de trabalho, olhando para uma planilha, surge uma imagem de uma paisagem sublime, que fez chorar de tanta beleza e grandiosidade. Ou pode ser dentro do carro, no meio do trânsito: o passeio por uma rua deserta de casas coloniais numa cidade asiática é revivido. Conversamos com amigos e o assunto é inevitável: podemos voltar por segundos no tempo e reviver a sensação de ver, pela primeira-vez, Machu Picchu, Angkor Wat, a Torre Eiffel ou o Taj Mahal.

            Talvez reste uma lembrança de um momento pessoal, que o cenário faz deixar mais doída a saudade. Ou ainda a memória do prazer físico, como a de um prato que se provou em lugar inesperado e que ainda revive a sensação nas papilas da textura e do sabor.

            Mas pode ser também que alguns rostos surjam. Pode ser uma senhora que ajuda no metrô, um quitandeiro que oferece frutas pra provar. Pode ser outro turista que uma espera qualquer reúne, um dono de pousada que oferece doces de sua própria casa como um mimo, um garçom que te leva para a cozinha para escolher a sobremesa mais fresca. Um anfitrião que vai além e te considera como alguém da família.

            Cada vez mais os rostos povoam as minhas memórias. E, enquanto escrevo esse post, me lembro de tantas cenas que um sorriso se instala permanentemente e até lágrimas ameaçam aparecer. Quantas pessoas incríveis já passaram pelo meu caminho, desde amizades que se aprofundaram, até mesmo contatos rápidos, que não puderam ir além pela própria natureza mutante/andarilha da viagem? Muitas vezes, nem precisa muito: um olhar e um sorriso são suficientes para estabelecer uma afinidade. Mas é preciso continuar, andar, seguir adiante.

            Nem sempre os encontros fluem facilmente: um traço de timidez ou introspecção podem levar o viajante a exercer mais o seu lado voyeur que interativo. Nem todos têm aquela facilidade de contato que, não só enriquece a experiência de viajar, como também ajuda muito em questões práticas. Me lembro de ficar fascinada, tímida que era quando adolescente, em ver meu pai fazendo amizades, ainda que efêmeras, em lugares estranhos para nós, como quando o surpreendemos conversando animado com um vendedor de frutas em um mercado alemão. O senhor era turco e, embora não houvesse nenhuma língua em comum entre eles, estavam se divertindo e rindo.

            Mesmo tendo o dom de conseguir estabelecer uma conexão com estranhos, o conhecimento da língua estrangeira sempre ajuda. Poder comunicar idéias completas, discutir e entender humor e ironia é uma habilidade que potencializa incrivelmente as experiências que tornam uma viagem inesquecível. Como nem sempre isso é possível, muitas vezes o fato de conhecer algumas frases básicas, estudadas no vôo de ida, ajuda muito não só a conseguir uma informação, mas também a abrir um sorriso.

            Vencida a timidez e adquiridos conhecimentos de outras línguas, seja em que nível forem, tudo começa a fluir com mais naturalidade. Mesmo assim, algumas culturas favorecem o contato, outras não. Existem lugares onde as pessoas querem saber de você, perguntam e falam de si. Em outras, não é de praxe puxar conversa com estranhos. Ou já recebem tantos turistas que o estrangeiro é apenas mais um na multidão, não suscita curiosidade. Nesse aspecto, algumas das minhas melhores experiências foram em lugares como o interior da Bahia, o Camboja, o Peru, a Índia, Minas Gerais, a Turquia, o México, a Grécia, a Costa Rica.

            Houve uma adição recente a esta lista, e com muito entusiasmo: o Uzbequistão.

            Eu não tinha muitas expectativas neste sentido. Sabia que era um povo relativamente isolado do cenário mundial pela sua história de submissão a ditaduras e pela própria posição geográfica, fora dos principais eixos econômicos. Talvez fossem desconfiados. Talvez fossem frios.

            Mas percebemos logo no primeiro dia que a teoria não fazia sentido. As pessoas sorriam, cumprimentavam, eram gentis. Recebíamos muitos olhares, mas nada que nos deixasse incomodados – era uma curiosidade inofensiva.

            A dificuldade na comunicação não era empecilho para que sentíssemos: somos bem-vindos aqui. E quem falava inglês naturalmente queria esticar a conversa e saber um pouco mais dos dois turistas de quem não conseguiam adivinhar a nacionalidade.

            Nos bazares, nas bancas de frutas, nos mercados: era natural que nosso olhar de interrogação fosse respondido com uma oferta de fruta, queijo ou lingüiça defumada, como aconteceu com a banca na beira de estrada, em que nos ofereceram para experimentar vários tipos de melões, antes que escolhêssemos o nosso.

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            O comércio oferece naturalmente as melhores oportunidades de contato, é uma desculpa perfeita para puxar assunto. E nós aproveitamos sempre que possível, ainda mais aqui, considerando que o Uzbequistão é um país com tradição no comércio e na hospitalidade – tantos séculos testemunhando o fluxo de produtos, pessoas e ideias pela rota da Seda, do qual era peça central.

            Vemos essa influência se estender até os dias de hoje, enquanto observamos uma menina orgulhosamente nos recepcionar na loja de tapetes de sua família em Bukhara e abrir um tapete atrás do outro…

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            …engatar no papo com Jamal, um restaurador e reciclador de tapetes, enquanto ele explica seu trabalho, sem pressa, mesmo sendo o único funcionário de sua loja…

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            …ver a efervescência feminina de vendedoras e compradoras no bazar do ouro de Bukhara.

            E não só isso: tivemos várias experiências de generosidade, como no caso do bazar Chorsu e em Samarkand, quando a vendedora do bazar Siob nos vendeu um quilo das ameixas mais doces que já provamos pelo preço de meio, simplesmente porque não conseguia pesar quantidades menores em sua balança. E, como no caso do mocinho dos iogurtes de Tashkent, não aceitou pagamento pelo produto extra que recebemos.

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            Ou ainda a dupla de irmãos no bairro antigo de Samarkand ao redor do mausoléu Gur-e Amir, que mantinha impecável o mercadinho familiar: gentis e de uma curiosidade tímida, não tinham um troco pequeno para nossas compras. Falamos que estava tudo certo, sem problemas, ele não se conformou: colocou mais alguns produtinhos na nossa sacola.

            A honestidade, hospitalidade, discrição e delicadeza dos uzbeques eram uma daquelas maravilhosas surpresas de viagem e então foi natural constatar a doçura e a educação de suas crianças…

            …que mesmo nos bairros mais simples, brincavam felizes e bem cuidadas.

            Já os mais velhos, reunidos nas chaikhanas, as tradicionais casas de chá, continham sua curiosidade e nos cumprimentavam respeitosamente, às vezes interferindo na nossa escolha com suas sugestões do que deveríamos comer.

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            Nas mesquitas, éramos recebidos com um sorriso e convidados a entrar, até mesmo numa sexta, dia santo. O ambiente predominantemente masculino não impediu um convite sincero para que até mesmo eu, mulher não-muçulmana, entrasse para participar das orações.

            Estávamos em outubro, época preferida para os noivos celebrarem seus casamentos e os víamos em todo lugar. Infelizmente não tivemos a oportunidade de presenciar uma festa, mas tive a mais enfática expressão de apreciação vinda de uma mãe de noivo (ou noiva), na hora das fotos do casal: depois de uma conversa extremamente animada, nos despedimos e ela fez questão de tascar um selinho em mim! (É a senhora do meio da foto abaixo.)

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            Nós nos divertimos muito, nessa e em outras ocasiões. Uma vez fomos parados no meio da rua num bairro tradicional de Samarkand por um senhor que saiu de seu carro, para dar alguns dos pães quentinhos que lotavam seu carro para nós: tinha acabado de nascer o seu neto e ele fazia questão de dividir sua felicidade com a comunidade. Nós fomos sortudos de estar ali bem naquele momento e partilhar um pouco da celebração.

            Um pouco à frente, vendo que eu fotografava as casas antigas, uma mulher me abordou e me levou para mostrar a sua, fazendo questão que eu posasse com ela na frente do seu portão.

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            Em Khiva, a senhora que controlava os ingressos para a torre de observação de Kuhna Ark quis saber tudo de nós e se despediu com beijos altos em nossas bochechas…

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            …e pouco tempo depois, na saída da fortaleza, nos encontramos com um grupo grande de turistas uzbeques vindos do leste do país: todos nos cumprimentaram com grandes sorrisos e as mulheres, em especial, me cercaram por todos os lados – seguiram-se muitas perguntas, fotos e filmagem juntas e beijos de despedida.

            O guia que os acompanhava era o mesmo que tínhamos contratado para nos levar às fortalezas antigas do Karakalpakstan no dia seguinte: falava pouquíssimas palavras de inglês, mas o sorriso e a cortesia compensavam a falta de informações (que supríamos com nossos guias de papel).

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            Aliás, os motoristas e as guias foram um capítulo à parte: nos ajudavam em tudo, às vezes atuando como tradutores, em outras ultrapassando o tempo combinado para nos mostrar lugares fora do comum. A Galina (de Tashkent), a Nazira (de Bukhara) e a Valentina (de Samarkand) não só dominavam cada uma de suas cidades, como foram excelentes companhias em nossos dias uzbeques. Tinham paciência infinita com nossa curiosidade, inclusive com relação a assuntos espinhosos (como a ditadura de Karimov e o período soviético) e acabávamos sempre falando sobre nossas respectivas vidas pessoais. Foram imprescindíveis para uma compreensão maior da sociedade uzbeque, que tanto nos encantava e que se permitia ser espiada por nós no pouco tempo que tínhamos no país.

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            Além dos incríveis uzbeques, pudemos nos conhecer viajantes de várias partes do mundo, algumas vezes encontrando os mesmos em várias cidades, já que o melhor circuito é um pouco óbvio e quase todo mundo o segue. Em especial tivemos a sorte de conhecer a Karin e o Wolff, um casal de senhores alemães: nós duas acabamos engatando uma conversa enquanto eu fotografava, esperando o almoço na yurta de Ayaz-Kala. Chegaram os maridos e a conversa continuou a fluir. O assunto: viagens, claro, especialmente a Etiópia, que tinham acabado de visitar. Acabamos nos encontrando por acaso no outro dia em Bukhara e jantamos juntos nas duas noites, nos despedindo já com saudades.

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            Foram tantos encontros felizes e certamente estou esquecendo vários deles aqui. Mas cada um deles, ao seu modo, contribuiu para que a viagem desenvolvesse num crescendo, cada momento feliz somando-se aos outros e à beleza de cada lugar que estávamos tendo a maravilhosa oportunidade de ver.

            Dormimos em hotéis simples, comemos espetinhos em chaikhanas de beira de estrada, frequentamos alguns dos banheiros mais imundos que já vimos. Mas se existe um luxo ao viajar, esse é o de se sentir bem-vindo e em casa, mesmo estando a milhares de quilômetros da sua. E esse luxo o Uzbequistão oferece de sobra.

Khiva, a bela

            Era madrugada ainda e os hits dos anos 90 no rádio nos faziam mais companhia que o motorista sisudo no caminho do aeroporto. Ele nos deixou longe do terminal e nos indicou o caminho, achei que era má vontade. Mas não: ninguém pode entrar na área de embarque que não sejam os próprios passageiros e o controle policial começa uma centena de metros antes do prédio.

            Depois de mais controles, passagens pelo raio-x e espera numa sala espartana com apenas uma máquina de café para ajudar a matar a fome, embarcamos no avião da Uzbekistan Airways com destino a Urgench, a mais de mil quilômetros da capital. Apesar de não ter uma grande reputação, tivemos um voo tranquilo em um Airbus, nada dos Antonovs ou Ilyushins usados em décadas passadas (apesar de ainda constarem alguns no ativo da empresa).

             Depois da partida, o que se via pela janela eram os afluentes do Syr Darya, marcando rugas profundas na face do deserto do Kyzylkum. Logo o próprio rio separa o árido a leste de uma pequena faixa de cultivo a oeste, com canais de irrigação. Depois, só o deserto, imenso.

            A terra fica mais fértil enquanto nos aproximamos do nosso destino, devido à proximidade com o Amu Darya. O seu delta, que vai até o mar de Aral, delimita a região do Khorezm – habitada há milênios, muito antes da Rota da Seda se tornar importante. Urgench é a capital da província, mas nosso destino estava a meia hora do aeroporto, num ponto a menos de 10 km da fronteira com o Turcomenistão: Khiva.

            Remota é uma boa palavra para descrever essa cidade murada, que já foi um posto secundário na Rota da Seda, mas se tornou mais famosa pelo seu mercado de escravos. Os khans, líderes do estado do qual Khiva era capital, faziam negócios com os chefes tribais que habitavam o Kyzylkum e atormentavam a região com suas guerras para captura de prisioneiros.

            Longe de épocas bárbaras, hoje Khiva é mais que pacífica: é uma cidade pequena com pouco movimento, numa região fronteiriça. O que a torna tão especial para justificar cruzar o país até ela é justamente a sua citadela medieval, espetacularmente preservada: Ichon-Qala.

            Entrar pelas muralhas de adobe é como voltar no tempo alguns séculos ou entrar em algum cenário ideal para um conto de As Mil e uma Noites. É um ambiente atemporal, que poderia representa a Khiva de cem anos atrás ou do século XV, especialmente quando se foge do eixo principal da Pahlavon Mahmud…

            …e facilmente se encontram vielas vazias.

            Ou então à noite, quando a cidade fica quase deserta, com seus monumentos iluminados. Melhor aproveitar um pouco antes ou depois do jantar e sentir outra Khiva, mais atmosférica ainda, se isso é possível.

            Mas todas as recomendações que tivemos convergiram em uma só: aproveitem a cidade no pôr-do-sol! E nós aproveitamos. Nesta hora, ela é fotogênica de qualquer ângulo, mas o melhor lugar para se estar é a torre de observação de Kuhna Ark (a fortaleza dos khans):

            …toda Ichon-Qala pode ser vista daqui de cima, com destaque para a madrassa Rakhim Khan, onde hoje há um museu sobre a história e da cidade e seus khans, inclusive o que conseguiu manter Khiva independente da União Soviética por alguns anos, com direito a moeda própria…

            …a mesquita e a sala do trono do próprio forte Kuhna, com o símbolo da cidade ao fundo, o minarete Kalta Minor…

            …uma visão geral das ruas residenciais…

            …e das muralhas.

            As muralhas ficam especialmente reluzentes no final de tarde, o marrom do adobe se transformando em dourado e envolvendo toda a cidade, que também brilha dentro delas.

            Mas não é somente de marrom e dourado que Khiva é feita: os mais lindos tons de turquesa aparecem em todas as construções e complementam perfeitamente o tom do adobe. Além disso, fazem eco do lindo céu ensolarado que tivemos em toda a temporada uzbeque.

            O minarete Kalta Minor é o melhor exemplo disso. Seu perfil robusto contrasta com o de outros minaretes, mas por um bom motivo: o khan que ordenou sua construção queria que ele fosse tão alto que ele pudesse enxergar Bukhara, a 500 quilômetros de distância (ou quase três semanas de jornada em camelos). Segundo a lenda, somente quando a torre já estava com boa parte erguida é que ele percebeu que dali poderiam conferir seu harém, dentro de Kuhna Ark. E ordenou que a obra parasse.

            Parece pouco provável que um engano de tal porte tenha ocorrido, a história oficial é a de que a obra foi interrompida com a morte do khan. Um pouco menos interessante, no entanto.

            Cada fase do khanato teve seus momentos de expansão e renovação da cidade e a citadela hoje é um composto de amostras arquitetônicas de várias épocas. Mas o interessante é que não se percebe muito isso: os esforços de restauração foram tão intensos que se atingiu uma homogeneidade no ambiente geral de Khiva intra-muros. Essa minúcia pode suscitar uma nostalgia de um certo ar decadente, mas ao mesmo tempo é esse mesmo ar atemporal que permite uma experiência de estar numa bolha de tempo, além de demonstrar o cuidado com o patrimônio histórico.

            Como contraponto, uma incursão pelas áreas residenciais de Ichon-Qala mostram um lado mais autêntico, dão uma dimensão mais humana à cidade.


            Seja como for, o tamanho reduzido e a quantidade absurda de grandes obras de arte da arquitetura islâmica fazem de Khiva um lugar delicioso para se passear a qualquer hora do dia. A mesquita Juma é um oásis de paz bem no centro da citadela desde o século X, com seu mar de colunas e uma iluminação suave que convida a relaxar. O silêncio é quase absoluto.

            O mausoléu de Pahlavon Mahmud, mais ao sul, é um outro lugar especial, sobretudo se houver um imam cantando em benção às famílias.

             Continuando nessa rua, um minarete altíssimo e colorido chama a atenção: é a madrassa Islom-Hoja, com um pátio agradável e um museu de artes aplicadas.

            Seguindo para o norte, chega-se a uma área cheia de madrassas e mesquitas incríveis, mas a atração principal aqui é o palácio Tosh-Hovli. Foi construído como uma alternativa mais moderna e mais suntuosa que o Kuhna Ark e pode-se bem ver isso na qualidade dos entalhes de madeira nos pilares e tetos, dos azulejos e dos afrescos. A sensação conseguida com esse trabalho dedicado é de simetria, serenidade e beleza.

            Dali, é uma pequena caminhada até o portão leste, Polvon-Darvoza, um corredor onde ficavam as celas dos prisioneiros à espera de serem vendidos como escravos. São baixas e abafadas, faz imaginar o terror da população do deserto que tinha a infelicidade de ser capturada e levada para uma vida de cativeiro. Hoje apenas turistas e garotos voltando da escola frequentam o portão, mas as celas ainda estão ali como lembrança da história.

            Mas, em meio a períodos de barbárie, a cidade produziu também arquitetura, arte e artesanato únicos, além de ser o berço de um dos maiores matemáticos: Al-Khwarizmi, fundador da álgebra, cujo nome foi emprestado às palavras algarismo e algoritmo. Essa simplificação do nome faz menção à sua região de origem, o Khorezm.

            Muito antes de Khiva se tornar uma cidade importante na Transoxiana, o Khorezm já tinha abrigado cidades e fortalezas há mais dois mil anos. Algumas de suas ruínas ainda estão de pé e estão a cerca de cem quilômetros de Khiva no meio do Kyzylkum, em uma região chamada Elliq-Qala.

            Passamos por cima do Amu-Darya, hoje um rio com nível baixo devido à drenagem excessiva para o cultivo de algodão, um delírio de grandeza soviético. Com a redução do fluxo do Amu-Darya, também houve a diminuição do nível do Mar de Aral, transformando-o num mar praticamente morto. Por todo o caminho ainda vemos os canais de irrigação e o algodão, ainda a principal fonte de renda, mas que aos poucos vai minando todo o meio-ambiente da região.

            Avançamos pelo deserto até chegar à primeira fortaleza, Kyzyk Kala. Uma estrutura improvável no meio do nada, só arbustos e muralhas de adobe. Ainda procuramos uma entrada, mas parecia uma caixa fechada.

            Toprak Kala está a apenas alguns quilômetros, mas é totalmente diferente: além de poder ter acesso ao seu interior, é possível ter uma visão ampla de todo o complexo de templos que servia aos reis do Khorezm. Estima-se que tenha tido seu auge entre os séculos III e IV d.C.

            Não havia fim para o horizonte desértico, mas ele se expandiu mais ainda do topo de Ayaz Kala, uma cidade de barro sobre um monte, perdida no meio do Kyzylkum. Depois de uma longa subida pela areia…

            …a recompensa de andar por um recanto perdido da Ásia Central, imaginando do topo as caravanas de camelos andando chegando de reinos distantes…

             …vendo o forte do complexo num patamar mais baixo…

            …e imaginando que você é um dos poucos seres humanos num raio de muitos quilômetros.

            Poucos, mas não únicos: um campo de yurtas próximo recebe hóspedes que queiram uma experiência diferente.

            Nós só pudemos aproveitar da hospitalidade nômade para um almoço e esse poderia ser o final de dia perfeito, se ainda não tivéssemos chegado a Khiva a tempo de aproveitar cada minuto de luminosidade na cidade. Subimos novamente até a torre de Kuhna Ark para nos despedirmos da cidade.

            Khiva é linda e é remota. E nos ajudou a entender a atração que os lugares desérticos exercem sobre as pessoas. Afinal, nós saímos capturados por ela. Ainda bem que tínhamos Bukhara pela frente para nos consolar da partida.

Contatos imediatos: Tashkent

            A ansiedade é um bom antídoto contra o sono. O fuso também ajuda, afinal o corpo entende que é apenas 6 da tarde, mas o relógio marca 2 da manhã e tudo o que se quer é chegar ao hotel. Mas a burocracia uzbeque não deixa: para começar, o guichê para concessão do visto está fechado. Pergunto a um guarda e ele coça a cabeça, vira as costas e vai embora. Decidimos esperar um pouco, enquanto os europeus passam tranquilos diretamente para a imigração. Depois de uns 10 minutos aparece um sonolento funcionário, que nem acende a luz da cabine, só abre os olhos o suficiente para checar nossa carta convite e conceder o visto.

            Mas ainda estamos longe de nos vermos livres do austero aeroporto de Tashkent. Somos os últimos na fila da imigração, ainda esperamos um bocado pelas malas e o pior: uma espera maior ainda para passar pelo controle da alfândega. Uma guarda criteriosa analisa o formulário, enquanto a mala passa pelo raio x. Vê nossa nacionalidade e abre um sorriso: o primeiro de muitos que receberemos nos próximos dez dias. Ser brasileiro abre portas e o uzbeque se revelou naturalmente receptivo: uma combinação que transformou uma viagem potencialmente especial em espetacular.

            Percorremos as ruas desertas no meio da noite até o hotel, onde tivemos mais uma amostra da burocracia local: os passaportes saíram com o primeiro papelzinho de registro, com o período de hospedagem. Todos os visitantes devem ter registradas suas hospedagens junto ao Ovir (Escritórios de Vistos e Registros), o que os hotéis normalmente providenciam: é essencial manter todos os papéis até a saída do país.

            Falar que este é um dos bons hotéis de Tashkent não ajuda muito: o lobby desolador e o quarto escuro decorado em tons de vermelho e dourado fazem imaginar que ainda estamos em plena era soviética. Hotelaria não é o forte do país e acabamos nos acostumando à decoração duvidosa, aos colchões com molas quebradas e à caça ao wi-fi (isso sem falar em horários restritos para banho num deles). Mas esse é um incômodo mínimo para tanta recompensa.

            Tashkent é uma cidade antiga, com mais de dois mil anos de ocupação e importância na Rota da Seda. Mas o que vemos, andando pelas ruas, são edifícios relativamente novos, dispostos sobre um plano urbanístico de grandes avenidas. A nova versão de Tashkent data de 1966, quando a cidade foi destruída por um terremoto de grande intensidade e a ocupação soviética decidiu o estilo da reconstrução.

            Resta muito pouco da área antiga da cidade, casas quietas em ruas sem pavimento e casas caiadas…

            …o mais comum é ver prédios comerciais e governamentais de formas retas e conjuntos habitacionais, prédios e mais prédios idênticos.

            O interessante é notar que mesmo as construções pós-independência, incluindo as mais recentes, parecem saídas de um filme de época, voltando aos anos 60 e 70. Deve ser mesmo difícil encontrar um caminho inédito com tantos anos de dominação e um certo isolamento pós-independência com a ditadura imposta por Karimov.

            A lembrança de que estamos em um país relativamente fechado vem em alguns momentos, como nos rigorosos controles policiais em estações de trem e aeroportos, além de algumas proibições desnecessárias de se tirar fotos. Mas o sintoma mais evidente é a maneira comedida com que falam da situação política atual. E ‘dele’. Mas o que faz com os uzbeques tolerem um ditador que tem uma imensa folha corrida de violações de direitos humanos e controle de imprensa (sem mencionar o massacre de Andijon), é o fato de ele manter a paz e a estabilidade no país enquanto mantém longe o fanatismo religioso, mesmo estando cercado por tantos vizinhos complicados como Afeganistão e Tadjiquistão.

            Apesar de tudo, as pessoas seguem com suas vidas e não parecem pressionadas, talvez simplesmente acostumadas com um regime que já dura duas décadas. E percebemos muito bem essa rotina numa instituição da Ásia Central: o bazar. Cada cidade tem vários deles e a maioria das pessoas faz suas compras ali, desde alimentos até roupas, acessórios para cozinha e móveis.

            Em Tashkent o principal bazar é o Chorsu, com sua grande cúpula verde: ele representa bem a mistura do rigoroso estilo soviético com a tradição islâmica de motivos geométricos e presença de cor, tão comum em todo o país. A sua estrutura curiosa rivaliza com a diversidade incrível de produtos espalhados dentro dele e ao longo dos pavilhões: este é um dos mais antigos bazares da país (as construções vistas são apenas a sua cara mais recente) e um dos maiores também.

            Aqui tivemos uma das primeiras experiências da generosidade que encontramos em todo o Uzbequistão: um mocinho nos oferece uma bolinha de iogurte desidratada para experimentarmos, um dos petiscos mais comuns. Confirmando a nossa aprovação, ele coloca uma boa quantidade num saquinho e nos dá de presente – não aceita de maneira nenhuma o pagamento. Tivemos muitas experiências semelhantes durante a viagem, gentileza expressada naturalmente.

            O bazar Chorsu é também um lugar de fácil acesso a uma idiossincrasia uzbeque: o câmbio. A grande diferença entre o oficial e o negro faz com que ninguém utilize o primeiro. Além disso, a moeda (som) vale muito pouco, o que assusta quem troca uma nota de US$ 100: um bolo de dinheiro que ocupa boa parte de uma bolsa ou mochila e exige paciência na hora de contar as cédulas para qualquer pagamento.

            Até mesmo o valor da primeira refeição assusta, enquanto não nos acostumamos com a conversão: pão, salada de tomates e pepinos, alguns shashlyks (espetinhos) de cordeiro, sempre entremeados de pedaços de gordura, e potes de chá, pedidos em qualquer situação. Esses são os básicos da alimentação uzbeque e muitas vezes é o que se tem para comer. Mas apesar do pão corresponder somente às vezes às expectativas, o cordeiro raramente decepciona. E o chá, verde ou preto, se tornou nossa bebida básica de todas as refeições e ocasiões.

            Outras opções são o manti (espécie de dumpling), shorpa (caldo de carne com batatas e pedaços de carne), pelmeni (espécie de capeletti in brodo), dimlama (cozido de carne e legumes) e, claro, o prato nacional do Uzbequistão: o plov – arroz com pedaços de cordeiro, sendo preparado de diversas formas, mas sempre com muito óleo. Em Tashkent existe até um restaurante gigantesco especializado no prato: o Centro de Plov da Ásia Central. As refeições não são muito variadas e o excesso de carne e gordura pode ser um pouco desafiador para os vegetarianos e os que estão em dieta.

            A chaikhana onde almoçamos ficava em frente ao complexo religioso Khast Imam, o mais importante do país, composto por uma mesquita, uma madrassa (escola corânica), mausoléus e um museu de unidades raras do Corão: uma das mais interessantes atrações da cidade é justamente o mais antigo que resta no mundo, escrito no Irã no século VII. Enorme, é escrito em pergaminho na caligrafia kufi, uma forma antiga da escrita árabe. Curiosíssimo, mas infelizmente não pode ser fotografado – uma foto pode ser vista aqui (pela qualidade, tirada na surdina).

            Os uzbeques não usam mais a escrita árabe desde o início do século XX, quando foi introduzido o alfabeto latino na esteira da modernização das línguas turcomanas iniciada por Atatürk na Turquia. Pouco tempo depois os soviéticos obrigaram o uso do cirílico para grafar a língua uzbeque e durante décadas essa foi forma dominante, até a independência. Hoje, o alfabeto oficial é o latino, mas na prática o cirílico é tão usado quanto ele. O russo também é falado pela maior parte da população e quem sabe falar a língua tem grandes chances de socializar.

            Além dos caracteres cirílicos, outro resquício soviético é o metrô de Tashkent, mais uma  grande atração de Tashkent que não pode ser fotografada, por motivos estratégicos. Uma pena, pois as estações são espetaculares, cada uma em um estilo diferente, embora não tão grandiosas quanto o sistema-mãe, em Moscou. Construído nos anos 70, proporciona uma viagem no tempo para quem entra em um dos seus vagões azuis e verdes, as cores nacionais.

(foto de guidecity)

(foto de livetashkent (e) Nir Nussbaum (d))

            As estações centrais permitem acesso às avenidas largas e sombreadas próximas ao Senado, ao palácio do presidente, museus e à praça Amir Timur, com uma estátua equestre do próprio.

            Num dos lados da praça está o Hotel Uzbekistan, um clássico da época soviética, e é ali que os moradores da cidade passeiam e aproveitam o final do dia. Como nosso voo do dia seguinte foi adiantado pela Uzbekistan Airways, perderíamos meio dia que teríamos em Tashkent e então nós também aproveitávamos ao máximo o resto do nosso dia.

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