Cuba

Simplesmente Havana

               Chove em Havana. São apenas seis da tarde, mas o céu já está escuro, com a ajuda de nuvens pesadas. É inverno no Caribe e, no entanto, sentimos o sol forte nos ombros o dia todo enquanto andávamos pela cidade antiga. Mesmo a chuva não consegue aplacar o calor. Da varanda do hotel, em Centro Habana, vejo a água cair e depois arrefecer, deixando uma tela de fundo colorido, nuvens azuis e chumbo com rasgos de rosa forte. O Capitólio toma todo o primeiro plano, não deixa espaço para nenhum dos seus magníficos vizinhos.

               As luzes dos postes sobre o Parque de La Fraternidad são esmaecidas, como lâmpadas de mercúrio, refletindo no asfalto molhado. Os carros anos 50 passam abaixo e transportam a uma época que não existe mais e que nem vivi, mas talvez ainda exista no universo paralelo cubano. Batem à porta: é o mensageiro trazendo a senha do wi-fi. Volto para o presente por pouco tempo, mas o balcão e a cena ainda estão lá.

               Era o primeiro dia e as muitas perguntas ainda não tinham sido respondidas, a ansiedade continuava. Sempre há uma expectativa em conhecer um novo lugar, mas aqui a intensidade é duplicada, por tudo que implica visitar um país fechado, sujeito a uma ditadura de 53 anos, e um dos poucos no mundo a ainda manter a utopia comunista (ou socialista, como querem). Utopia que caiu por terra há muito tempo, ainda que permaneça o esforço por manter as aparências.

               Esforço apenas, pois nos dias que se seguiram em Havana era muito fácil perceber a dificuldade do cotidiano: uma pequena caminhada por Centro Habana permite ver as escadarias dos cortiços em gloriosa decadência, os moradores olhando a vida passar nas varandas em meio às roupas penduradas…

               …pequenos comércios vendendo umas três caixas de ovos ou alguns poucos legumes, senhoras que se aproximam pedindo dinheiro.

               A descrição é correta, mas não reflete o que é verdadeiro – Cuba (e Havana, em particular) é uma mistura complexa: vibrante, às vezes alegre, às vezes triste, espontânea, desconcertante sempre. Assim como aconteceu na Índia, o corpo fica em alerta, tentando captar tudo o que sente. Especialmente os olhos, que percorrem o cenário como se quisessem reter como uma peneira: o que não for percebido no momento, ficará guardado para futuras lembranças, para a construção da impressão definitiva do lugar. Ou talvez sobrem como matéria-prima para sonhos – como aqueles em que inventamos lugares dos quais temos saudades quando acordamos. E para onde nunca mais poderemos voltar.

               Mas eu divago, volto a colocar o pé no chão, neste caso representado pelas ruas havanesas de calçadas estreitas, o que dificulta a apreciação por muito tempo daquele edifício art-déco em que a deterioração não o fez menos bonito. Sem problemas, o do lado é igualmente belo, de estilo eclético, um dos muitos que habitam Centro Habana e que me fazem lembrar da cidade natal de meus pais. Um teatro neoclássico ao lado de ruínas coloniais tomadas por heras. Lojas pequenas, bares.

               É nesta região da cidade, ocupada após a colonial Habana Vieja não comportar mais moradores, que a cidade tem a sua face mais agitada e realista. Este é o cenário onde Pedro Juan Gutiérrez viveu e contou suas histórias cruas: basta caminhar no grande trecho entre o Prado e o início do Vedado para relembrar algumas das passagens mais inacreditáveis.

               Ele ainda vive aqui, no Malecón, e diz que nunca conseguiria sair, pois o material para sua escrita está no bairro. Sem estranhamento, seus livros não são encontrados nas livrarias daqui, uma vez que seus relatos sobre a pobreza extrema do chamado Período Especial (após a queda da URSS) não relatam uma Cuba vitoriosa. Aliás, as livrarias são interessantes, até lindas, mas com um estoque tão ínfimo que é constrangedor.

               Foi em Centro Habana também que tivemos nossas melhores experiências gastronômicas. Utilizar este adjetivo em Cuba é um exagero – achar boa comida é difícil e quando se acha, é cozinha caseira, como a do paladar San Cristobal. Paladares são os restaurantes privados, em casas de família – uma das poucas concessões à iniciativa privada – e são sempre a melhor opção, considerando a mediocridade dos restaurantes estatais, muitas vezes bonitos e mais sofisticados, alguns em construções históricas.

               Mas o que os paladares perdem em conforto, ganham em sua ambientação kitsch, na receptividade das pessoas e na sua comida caprichada. O La Guarida é outro imperdível – eu sempre fico com um pé atrás em lugares hype, mas aqui é justificado: o cortiço onde ocupa o último andar é lindo em sua decadência e também uma oportunidade de observar a vida em aglomeração, sem privacidade. Além de tudo foi cenário do filme Morango e Chocolate, um clássico cubano, e onde comi a minha melhor refeição de toda a viagem. Para sobremesa, o complemento perfeito é o sorvete da Coppelia, outro cenário do filme, na área mais agitada do Vedado. Vir aqui é uma experiência arquitetônica e social imperdível. Surpreendentemente, o sorvete é muito bom também.

               Mas voltemos a Centro Habana. A região do Capitolio tem atrações suficientes para um dia inteiro e mais: além do próprio, dá para montar um mini-roteiro de hotéis históricos (Saratoga, Inglaterra, TelegrafoSevilla, Plaza…)

                …fuçar a programação do espetacular Teatro Nacional, admirar o trabalho artesanal (e maçante) dos operários da Partagás

               …passear no Parque Central e Parque de La Fraternidad, curiosar a santería na Associação Yoruba e o comércio popular ao redor, ir um pouco adiante na improvável Chinatown…

               …conhecer os detalhes do regime no Museu da Revolução…

                …e subir e descer várias vezes o Prado, uma das avenidas mais lindas da cidade. Ela é a própria ‘rambla’, seguindo até o Malecón, a beira-mar que funciona como ponto de encontro para locais, turistas e jineteros/as e que merece uma análise sociológica à parte.

               Uma outra possibilidade é sair do Capitolio em direção a Habana Vieja pela Obispo e todo seu variado comércio, com uma parada inicial no Floridita para um daiquiri refrescante, ambiente elegante e garçons simpáticos demais para um ponto turístico deste porte. Mas aí começam outras mil oportunidades…

 

PS: Meu querido Fatos e Fotos também publicou suas primeiras impressões sobre Cuba.

27 Comments

  1. Mari Campos

    Emília, amo quando vc faz posts assim poéticos, cheios de paixão viajante, ainda meio em êxtase! Sempre quis conhecer Havana e agora quero mais ainda – porque a Havana dos meus sonhos é muito, muito parecida com do seu texto e das suas (lindas!) fotos.

  2. Deise

    Estive em Havana e 2009 e não me decepcionei. Na verdade, quero muito voltar para esse país tão lindo e cheio de gente bacana!

  3. Arnaldo (seu marido) - Fatos & Fotos de Viagens

    Eu já imaginava que toda nossa viagem a Cuba renderia boas fotos e inspirações, que nossas lembranças dos dias em Havana e Santiago, seu tempo e dedicação renderiam bons frutos na elaboração deste post. Mesmo assim você surpreendeu. Não na qualidade, comum ao seu trabalho (como reconhecem seus leitores), mas no estilo incomum, na poesia, na doçura e na precisão que conseguiu transmitir com fidelidade ao que sentimos no texto e na cuidadosa seleção das fotos.
    Que trabalho!
    Obrigado por me proporcionar a sorte de viver com você mais uma viagem tão marcante.

  4. Emília

    Bom ver você por aqui, Mari! Cuba não é o tipo de viagem que se recomenda sem ressalvas, mas você iria gostar, é fascinante. Exisgem os perrengues, mas são pequenos perto de tudo que o país tem para oferecer e Havana é especialmente cativante, além de uma cidade monumental e grandiosa.
    Obrigada e um beijo!
    Oi, Deise! Estava dando uma olhada nos seus posts (queria ir também para Cayo Largo, mas não era o objetivo desta viagem, não vejo a hora de colocar no roteiro da próxima!) e confirmo as dicas de viagem: também tivemos problemas de transfer com a Cubatur. Mas mesmo sem transfer é fácil se virar nos aeroportos. Quanto aos atrasos nos vôos…nem fale. Nossa epopéia Havana-Santiago rende uma boa crônica…
    Um beijo!
    Amado, obrigada a você pela companhia nas aventuras cubanas e sempre…e pelas palavras. Beijo…

  5. Georgia

    LIndas fotos, lindo post, lindamente escrito.
    Esta leitora aqui já estava com saudade.
    Beijos!

  6. Debora Sotto

    Simplesmente sensacional! Bjs

  7. Camila Navarro

    Emília, quando vejo que você publicou um novo post fico ansiosa para ler logo, mas deixo para depois, para um momento mais tranquilo, sem interrupções. Só assim para aproveitar como se deve as suas lindas histórias de sonho.
    Beijos!

  8. Emília

    Georgia e Camila, fico feliz de ver vocês por aqui, mesmo com os posts esporádicos 🙂
    Que bom que uma gostou…e espero que a outra goste quando ler, hehe…
    Um beijo!
    E uma surpresa, Debora! Seja bem-vinda ao bloguinho, de vez em quando aparece alguma coisa nova, um beijo!

  9. Bóia Paulista

    Olá, Emília!
    Tudo bem?
    Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com
    Até mais,
    Bóia Paulista

  10. Paula*

    Pelo visto Cuba robou se coração como esse post robou meu fôlego!
    O texto está poético e instrutivo! Lindo!
    Adorei! Bjos

  11. Emília

    Obrigada, Bóia!
    E adorei as palavras gentis, Paula, grande estímula para achar mais tempo para continuar…
    Um beijo!

  12. Mariliana

    Lindo! Parabéns querida, você me emocionou. Eu não conhecia este lado romântico da minha querida filha, fiquei encantada. Continue achando sempre um tempo para escrever coisas tão lindas e assim incentivar outras pessoas, para que façam viagens tão maravilhosas como a que fizemos. Beijos.

  13. Emília

    Oi, amadita! Que bom ver você escrevendo aqui pela primeira vez! Viajar com você mais uma vez foi um grande privilégio…e vivam as afinidades 🙂 Beijo, minha linda!

  14. Carmen

    Estive em Cuba faz muitos anos.
    Fomos ao redor da ilha em um carro alugado. Fazendo táxi livre para as pessoas que estavam na estrada fazendo “autostop” por causa da falta de veículos na ilha. Gostei da ilha e adorei as pessoas. Mas eu sofria muito vendo o sofrimento de muitas pessoas.
    Eu também tinha um muito mau considerando o abandono do património arquitectónico da cidade. Estes edifícios monumentais que foram completamente degradados pela falta de conservação.
    Cuba tem belas praias, gente boa, cultura e um vasto património arquitectónico.
    Cuba tem tudo, mas o embargo deve terminar ou vai acabar com as pessoas da ilha.
    Adorei suas fotos e também as fotos de Arnaldo (em http://interata.squarespace.com/)
    Bjs

  15. Emília

    Carmen, entendo perfeitamente, não tem como ficar indiferente ao tão pouco que as pessoas têm e o quanto têm que se virar para conseguir sobreviver. Havana também nos entristeceu: que cidade grandiosa! E decadente… Como seria se a cidade tivesse recursos para manter minimamente o seu patrimônio arquitetônico (sem cair nas garras da sanha imobiliária, bem dito)? E, ampliando a questão, como seria Cuba hoje sem o embargo? Faz tempo que não há mais sentido em mantê-lo, é apenas crueldade.
    São muitas questões que nunca serão respondidas, simplesmente. Mas o que me impressionou é que, mesmo com todo o potencial para ser um lugar deprimente, Cuba consegue ser cativante, energética e positiva. Com poucas exceções, senti que os cubanos não abaixam a cabeça, têm muita atitude.
    Só visitando mesmo para entender, nem que seja um pouquinho a mais.
    Carmen, beijo para você e obrigada pela visita!

  16. Mari Vidigal - Idéias na mala

    Que show de post!
    Essa é uma viagem que está SUPER na minha lista, e agora você me deixou com ainda mais vontade!
    Adorei.

  17. Emília

    Mari, com certeza é uma viagem arrebatadora, se você já tem a vontade vai gostar.
    Um abraço!

  18. Tatiana

    Ola. Me chamo Tatiana Amin e trabalho em uma assessoria de imprensa na Espanha. Gostaria de saber se você aceita escrever um post para um dos nossos clientes, seria uma publireportagem . Pago em euro. Se tiver interesse por favor, não deixe de me responder.

  19. Joana

    Vc assistiu a série de reportagens sobre Cuba na Band? A prostituição é quase que o único modo de sobrevivência das mulheres de todas as classes sociais. Não há emprego, não há comida , material básico de higiene pessoal, e outro itens imprescindíveis para se viver. Como ver beleza quando o governo não respeita os direitos humanos básicos como o direito de ir e vir. Vc moraria em um país em que não deixassem que vc viajasse? Acho uma alienação ir a um país com tantas chagas sociais e achar que o por do sol é lindo. Puxa….

  20. Emília

    Joana, repito aqui o comentário do outro post: a escolha para onde viajar é um direito de cada turista, mas deixar de visitar um lugar extremamente interessante como Cuba simplesmente porque o lugar é ‘velho’ ou ‘decadente’ é no mínimo superficial. Para ir mais fundo, sobre a questão da ditadura que ali existe há tantos anos, viajar não é uma maneira de apoiar ou validar esse regime político: quanto mais visitantes, mais a realidade do país é mostrada, assim como o próprio povo tem contato com o mundo exterior. Não há motivos para privar um povo sofrido como o cubano da possibilidade de troca cultural e da entrada de divisas: como já disse a dissidente cubana Yoani Sanchéz, as pessoas não devem confundir Cuba com seu regime político. Alienação é não perceber que as pessoas, a cultura, o país são muito maiores do que isso.

  21. Ana

    Que incrível. A arquitetura colonial já decaída lembra o centro da Cidade do Panamá. Deu vontade de visitar :/

  22. Emília

    Ana, nunca estive na cidade do Panamá, mas entendo o que você quer dizer: eu sinto que nas capitais latino-americanos sempre tem um canto um pouco nostálgico e um pouco ‘caído’, um acaba lembrando outro…Mas acho que Havana deve superar tudo.
    Obrigada pela visita!

  23. Ana Paula

    Olá Emilia!
    Você poderia me passar sua indicação de hotel em Havana?
    Super agradeço!
    Ana Paula

  24. Emília

    Oi, Ana Paula
    Acho que vai ser tarde demais, mas o hotel em que ficamos em Havana é o Saratoga, quase em frente ao Congresso.
    Boa viagem!

  25. Ana Paula

    Olá Emília!
    Já fechamos com o Hotel Nacional. O Saratoga está lotado nas nossas datas (dezembro).
    De qualquer forma obrigada pelo retorno.
    Ana Paula

  26. Igor

    Olá Emília.
    Irei a Cuba agora em Dezembro e tenho muita vontade de dialogar com os cubanos.
    Porém, leio muito sobre o interesse dos mesmos ao nos abordarem nas ruas (tentar arrancar alguns CUCs dos turistas).
    Esses, digamos, “golpes”, realmente ocorrem?
    Vale o diálogo mesmo assim?
    Obrigado
    Igor

  27. Pedro Henriques

    Que linda a cidade de Havana! Todos os edifícios históricos, os monumentos, os museus e o ambiente das ruas deixam-me saudades. Gostei de revisitar este destino. Aproveito para deixar aqui a minha experiência pela capital cubana: http://www.espiritoviajante.com/guia-para-visitar-havana-capital-de-cuba/
    Abraço!

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