Grécia

Devaneios privados em espaços públicos

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Depois de tantas fantasias históricas, a fome e a sede chamaram à realidade e perambulei por Pláka até achar algum lugar onde refrescar um pouco o corpo. Tinha gostado de um lugar no dia anterior, mas estava lotado, e tentei achá-lo de novo, o que não foi fácil. O bairro é um labirinto e o que é referência à noite nem sempre funciona à luz do dia: um bar, um restaurante, mesas na calçada…o movimento durante o dia é mais discreto.
Mas achei, infelizmente. Apesar da cenografia fofa – um pátio à sombra de videiras, das recomendações do Lonely Planet e dos muitos locais comendo ali (incluindo uma mãe que tinha acabado de buscar os filhos na escola), a comida era abaixo do razoável. O moussaká gorduroso comido ali me deixou traumatizada pelo resto da viagem: não pedi mais o prato durante a estada na Grécia. (Se quiser comer um bem gostoso – e sem precisar viajar -vá ao Acrópole.)
Até o tzatziki decepcionou, mas a salada grega e um pãozinho salvaram a minha refeição. Além de uma cervejinha gelada, claro! Mais do que necessária para a continuação das explorações do centro histórico ateniense, logo ao lado do restaurante, ao chegar às Ágoras Romana e Antiga.
Em contraponto à Acrópole, que representava um local sagrado (e de poder também), dedicado ao culto e com acesso controlado, a Ágora era um espaço aberto à circulação, a grande praça central onde os cidadãos podiam percorrer os mercados, participar da vida cultural da cidade e ter acesso aos organismos públicos: era ali que tinham sede as funções administrativas, políticas e legais de Atenas.
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Era uma instituição intimamente ligada com o conceito de democracia, uma vez que era na Ágora que aconteciam as discussões sobre política, economia e filosofia. Bem, democracia enviesada, uma vez que a Ágora também foi palco dos grandes debates de Sócrates, mas também do seu julgamento e de sua execução. Talvez suas idéias tenham sido ousadas demais para a democracia (?) grega 🙄 Mas essa já outra longa história…
Mas antes, a rota passou pela Ágora Romana, que ocupa uma área bem menor ao lado e onde, além das ruínas, pode-se dar uma olhada em uma mesquita desativada e uma estrutura chamada Torre dos Ventos. Essa estrutura de mármore é datada do primeiro século a.C. e tinha no seu topo um catavento que se alinhava com uma das oitos esculturas, cada uma representando uma divindidade relacionada com o vento e a sua direção. Ajudava também na noção do tempo, já que no seu interior funcionava uma clepsidra movida a água da Acrópole. Não somente decorativa, mas aparentemente bastante útil essa torre.
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Dela, é só atravessar a rua e entrar na Ágora original. É uma grande área aberta, em formato vagamente retangular e cortada na sua diagonal pela via Panatenaica, que seguia até a Acrópole. As duas entradas para o sítio estão nos dois extremos dela, uma mais próxima de Pláka, por onde entrei, e outra perto dos barzinhos de Monastiráki.
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Logo à esquerda se vê um elemento fora do esperado, a igrejinha ortodoxa dos Santos Apóstolos, do séc XI.  Como sempre, é uma delícia encontrar essas pequenas jóias no meio da cidade, só fiquei um pouco triste com o estado de conservação da parte interna e das pinturas.
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As escavações arqueológicas e restaurações na Ágora começaram na segunda metade do séc. XIX e continuam até hoje. Mesmo assim, a maioria das estruturas ainda precisa ser recuperada e uma das poucas que já foram eleitas é a impressionante Stoa de Attalos.
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Até este dia nunca tinha ouvido falar nisso e já tinha visto duas…o que é isso exatamente, uma stoa? Eram construções com colunas nas laterais e cobertas, abertas ao público e multi-uso: normalmente destinadas ao comércio e arte, mas também a cerimônias religiosas. Para mim, essas atividades todas eram uma desculpa para o povo se reunir e fofocar :mrgreen:
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A Stoa de Attalos foi reconstruída na década de 50 e hoje abriga um museu. Apesar de saber que nada ali era original, a não ser o projeto, achei o edifício muito bonito e grandioso.
Outra restauração recente foi a das esculturas na entrada do Gymnasium…
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…no caminho para a construção mais bonita da Ágora: o Templo de Hephaistos (o Vulcano da mitologia romana, deus do fogo e dos metais).
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Contemporâneo da Acrópole, ele funcionou durante muitos séculos como uma igreja ortodoxa. É considerado o templo antigo melhor conservado em toda a Grécia e se encontra numa pequena colina, no meio de um bem-vindo jardim: ambiente adequado à admiração que realmente merece. Lindo, lindo…
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Aproveitei um banquinho numa pequena sombra para descansar e entrar em ‘êxtase místico’ com tanta beleza na frente…bem nesse ângulo que vocês vêem na foto.
(Geeente, esse lugar não é demais mesmo? :mrgreen: )
Ir embora foi difícil, eu só queria ficar por ali, tentar gravar aquela cena para poder relembrar mais tarde e sempre. E por isso mesmo decidi voltar direto para o hotel: aproveitar para descansar e refrescar, deixando o templo como última memória do dia.
Mas última mesmo? Hmm…acho que não. Finalzinho da tarde já estava pronta para botar o pé na rua de novo e decidi tentar as chances de um belo pôr-do-sol no Monte Lycabettus. Um táxi e um funicular mais tarde, estava no ponto mais alto de Atenas.
Falar que as vistas são inacreditáveis é chover no molhado. Do pequeno terraço, onde ainda cabe a pequenina capela de São Jorge, é possível ver Atenas em 360º. Até a Acrópole parece baixinha…e lindamente dourada.
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Dá também para ver o mar e as luzes de Pireus, o estádio Panatinaico, o templo de Zeus Olímpico, a montanha Ymittos e toda aquela infinidade de prédios quadradinhos, da mesma altura. Não há arranha-céus que possam atrapalhar a visão de todas essas maravilhas.
E eu, que achava que já tinha tido minha cota de beleza no dia, ainda fui presenteada com um final de tarde espetacular…
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Como é difícil ir embora dos lugares aqui, viu? Parece um pecado passar correndo, o mais correto parece sempre se estender por mais um pouco. E ainda um pouquinho mais 😉
A noite estava deliciosa e a escolha foi voltar a pé e bater perna por Kolonáki, o bairro mais elegante de Atenas. Cheio de lojas bacanas e cafés com mesinhas na calçada, num estilo parisiense. Mas os restaurantes estavam vazios, sinal de que o bairro ‘acontece’ mesmo mais tarde. O passeio então continuou até Pláka, um imã incontornável, o que se pode fazer? Não dá para resistir, ainda mais quando se acha uma praça arborizada cheia de restaurantes fofos 😀
Depois de um jantar leve, ainda coube no programa uma ida ao Teatro Dora Stratou, no sopé do monte Filopappos, para um programa de turista: ver danças típicas. Mas devo dizer que, ao contrário do que se vê por aí (preços altos, num restaurante medíocre e dançarinos de habilidade duvidosa), este é um programão, ótimo para quem gosta de um toque folk na viagem, como eu: num teatro ao ar livre em meio a um belo jardim, dançarinos e músicos apresentam vários ‘pedaços de Grécia’.
O espetáculo é dividido em várias partes, cada uma mostrando música, instrumentos, dança e roupas de lugares como Kós, no Dodecaneso, ou alguma aldeia na Macedônia. Dora Stratou, a fundadora do grupo, durante toda sua vida pesquisou e registrou, em livros, discos e em camarins, a memória do folclore grego. Seu trabalho com a criação do ‘museu vivo’ é internacionalmente reconhecido e respeitado.
As seis danças são trocadas freqüentemente e, pela variedade no pouco visto, são só um gostinho do que é a diversidade cultural grega. Para quem gosta, com certeza vale a pena e as apresentações só acontecem no verão.
E depois de um dia inesquecível…voltar para a ‘casinha’. A pé, já que foi difícil um táxi disponível 🙄 Será que um dia me acostumaria? 😛
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13 Comments

  1. CarlaZ

    Emília,
    cada vez que entro aqui fico mais fascinada e agora também mais culta e conhecendo algumas comidinhas gregas (tive que entrar no google pra descobrir algumas coisas até…).
    Em cada post você alimenta mais meu sonho de ir.
    Esse passeio pela Ágora…sem palavras…e as fotos estão lindas. A primeira foto é maravilhosa, o por do sol também e amei a stoa (que antes eu achava que era um bando de colunas).
    Beijos

  2. Mari Campos

    Conhecer a Ágora foi um dos meus passeios prediletos em Atenas, Emília. E que título fantástico você usou, menina! Adorei!

  3. Camila

    Que dia fantástico, Emília! Do começo ao fim! Quando eu achava que você já havia deixado tudo perfeito, você me vem com esse pôr-do-sol? 😉 Amei tudo!!! Beijos!

  4. eduluz

    Emília ( e Marc) : que espetáculo. E a sensação é de que vocês ficaram meses por lá ( bem que poderia ser, né ?).
    Também achei muito interessante a “Stoa” e o templo de Hephaistos ( ainda mais naquele ângulo!) é lindo mesmo !
    O mais curioso ainda é saborear comida grega aqui em SP melhor do que na Grécia !! Ê, São Paulo !!
    Continuo esperando a prova chegar !! rs

  5. Majô

    Emília, o Templo de Hephaistos é uma beleza mesmo !! A grandiosidade da obra me lembrou Segesta na Sicilia, e não dá vontade de parar de admirar 😆 Parece um sonho.
    A igrejinha ortodoxa, como você disse é uma joinha 😉
    E que por do sol, menina, de cair o queixo !
    Beijos,

  6. Ernesto

    Bela viagem, estou adorando os posts!

  7. Emília

    Carla, parece conversa fiada, mas você sabe que escrever os posts me transportam para aqueles momentos, aquele lugar sobre o qual estou escrevendo? Eu, nestes últimos dias de posts sobre Atenas, me sinto ainda um pouco lá, relembrando às vezes de detalhes que só vêm à tona depois de um período de ‘decantação’.
    Por falar em decantação me lembrei de bebida, e por conseqüência de comida: esse moussaká foi a única decepção que tivemos quanto a comida. Foi uma pena, pois adoro o prato. Você vai engordar um bocado por lá 😉
    Mari, eu achei a Ágora um lugar aconchegante, se é que posso usar esse adjetivo para um sítio arqueológico. Vontade de estar ali com um clima mais ameno, levar um livro e ficar ali de bobeira, lendo e levantando o olho para fazer um paparico aos olhos.
    E sobre o título, de vez em quando não dá para resistir a umas brincadeirinhas :mrgreen:
    Camila, acho que nunca vi uma seqüência de pôres-do-sol tão embasbacantes como nessa viagem. Em praticamente todas as etapas da viagem tivemos um inesquecível. E vamos combinar: é um espetáculo bonito demais mesmo 😀
    Edu, eu já estou há meses lá (nessa minha cabeça obcecada, claro 🙄 :mrgreen: ) Eu achei que a blogagem lenta fosse me fazer perder um pouco o pique, mas que nada! Devagar e sempre, hehe…
    Quanto à comida, não posso generalizar porque foi o único lugar onde tive problemas. De resto, comi de polvo a cabrito (muito suculento, por sinal), passando por peixe grelhado e gyros (churrasquinho grego) e não tive problemas.
    PS: Decidi que você é um bom menino, nada de provas! 😆
    Majô, você falou em Segesta e me deu vontade de dar um pulo lá no Filigrana para rever o seu post (aliás, a série da Sicília é um arraso). Acho que tivemos sensações semelhantes frente à grandiosidade e beleza destes templos…Totalmente hipnotizante 😉
    Ernesto! Mais um que esteve lá e testemunhou 😀
    Beijo pra todos!

  8. Katy

    Emília, passei prá dar um oi, respondendo ao chamado do fã-club do finado trema :)))))
    Demais a Grécia, não? E que fotos lindas, menina! Pra continuar sonhando a vida toda… Um beijo

  9. Emília

    Katy, como você pode ver, eu ainda continuo em uso…talvez adote a nova regra depois de me acostumar a não vê-lo nos meios de comunicação. Como esse blog não tem ‘compromissos oficiais’, não vou me forçar a mudar, não. É uma pena, a trema era um charme…
    E obrigada! Estou tentando aos poucos melhorar um pouco a qualidade das fotos…algumas como do Arnaldo, do Tony, nos inspiram a tentar um upgrade, hehe… 😀
    Um abraço!

  10. Carmen

    A restauração/reconstrução da Stoa de Attalos é impressionante. O lugar é muito lindo. Se percebe a sua utilidade, como ponto de referência e reunião para os cidadãos em a cidade-estado. Um lugar útil para a proteção da chuva e mais útil para fugir do sol abrasador. Beleza! Parabéns!

  11. Emília

    Eu imagino a diferença brutal do lugar hoje em relação à antiguidade, Carmen…mas se pensar que ali mesmo era um lugar povoado de prédios que tiveram que se derrubados no séc. XIX para dar trazer o sítio à tona, até que não está mau 😀
    Um abraço e um ótimo final de semana!

  12. Luisa

    Emilia, esses seus posts sobre Atenas estão me fazendo voltar no tempo duas vezes: na primeira retornei ao século 5aC, imaginando a vida dos gregos naquelas ruínas cheias de história! E vc tá dando um show na narrativa histórica!
    Na segunda vez, vc me fez voltar a 2007 quando pisei na Grécia pela primeira vez e não queria mais ir embora! Quanta saudade!
    Um 2009 cheio de saúde, paz, tempo livre e $$$ pra viajar muito!
    Bjs

  13. Emília

    Ai, Luisa, hoje mesmo estava vendo um programa em que aparecia Atenas e Santorini: saudaaades…vontade de voltar assim que o sol começar a sair. Mas…só sonho por enquanto, chuiff…
    Eu me lembro que você fez um roteiro bem dirente, pelo Peloponeso. Vou até voltar lá no Arquivo para relembrar. E estou curiosa com a sua última viagem 😉
    Um grande ano para você também… muito tempo e ‘tempo’ para viajarmos muito! 😀

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