No centro da caldeira

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Depois de uma manhã preguiçosa, reservei a tarde para um passeio de veleiro pela caldeira. Nikos foi o motorista até Fira, já que os barcos saem do porto antigo, Skala, na base da capital da ilha – o mesmo usado para os tenders que levam e trazem os inúmeros turistas que chegam à ilha por cruzeiros.
Fira é frenética, como se pode esperar da principal vila da ilha: além do forte comércio e da concentração de hotéis e restaurantes, aqui ainda se encontram alguns museus, como o Megaro Gyzi (com fotos de antes/depois do terremoto de 1956) e o Museu Arqueológico (com algumas peças do sítio arqueológico de Akrotiri que não foram levadas para Atenas).
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A cidade é badalada, coisa e tal, mas…sinceramente? Não é a minha praia, não entrei no espírito de Fira. Não sei se o erro foi ter escarafunchado Oia primeiro ou se estava mesmo num esquema menos muvuca e mais relax, mas é fato também que Fira tem um perfil menos sofisticado, as construções e a vila em si não são tão bem cuidadas.
Os fãs de Fira vão contestar e eu já aceito de pronto: acredito que com os lugares acontece a mesma coisa que com pessoas –  com alguns não vamos muito com a cara e com outros caímos de amores, à primeira vista. Mas com certeza ela deve ser a grande escolhida dos mais jovens, que devem se sentir em casa com tantos bares e casas noturnas.
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Do centro de Fira parte o teleférico que vence o desnível de 300m até o porto. A outra alternativa de transporte é representada por essa categoria tão explorada na Grécia: os pobres burrinhos, que carregam massas humanas muito mais pesadas do que o razoável, todo o dia. Decidi poupar os pequenos e usar a prática primeira opção.
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Em contrapartida à experiência em Milos, esse barco era bem maior…e cabia um tantinho de gente a mais 🙄 Pelo menos não havia música a bordo (ou quase, veria mais tarde :mrgreen: )
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E o barco saiu navegando pelas águas da caldeira: Santorini é na verdade o respiradouro de um vulcão que já entrou em erupção várias vezes, sendo a mais violenta delas ocorrida em 1.650 a.C., quando a cratera expeliu tanto magma que depois murchou e submergiu criando um tsunami forte o suficiente para chegar até Creta, onde exterminou a civilização minóica.
Já o que restou de Santorini (ou Thira, seu nome grego oficial), foi sepultado com as cinzas e começou a vir à tona com as escavações do sítio arqueológico de Akrotiri, no sul da ilha (atualmente fechado para visitação).  Mas o vulcão continuou ativo e criou posteriormente Palia Kameni (em 197 a.C.) e Nea Kameni (1707), que é essa ilha das fotos abaixo e primeira parada do barco.
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Fica mais fácil entender a geografia de Santorini com um mapinha: dá para perceber que existe um formato circular envolvendo a ilha principal, Thirasia e a pequena Aspronisi, formando o que antigamente eram as encostas do vulcão. Tudo o que está nesse meio, incluindo Palia e Nea Kameni, era a cratera deste vulcão, ou caldeira.
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(mapa de www.santorinigreece.net)
Aliás, ainda é a cratera, já que o vulcão ainda está em atividade e é monitorado de perto. É interessante levar um tênis na exploração de Nea Kameni, pois anda-se um pouquinho e em terreno irregular, até chegar à cratera atual.
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Não espere fogo, apenas fumaças e crostas amareladas de enxofre. E muitas rochas.
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A caminhada é interessante, mas o melhor dela (e meu motivo principal para fazer o passeio de barco) é poder ter essas incríveis vistas de Santorini…
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Essa é uma das grandes vantagens de se chegar à ilha por ferry: ter a visão dos grandes paredões se aproximando. Como cheguei por ar, as vistas de Nea Kameni ajudam a fazer uma simulação…
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(Impressionante. E lindíssimo. Complementa a visão inversa, da ilha para a caldeira.)
A segunda parada é em Nea Kameni, nas águas termais. Não é quente o suficiente, o enxofre (quase) mancha o biquíni. Passo.
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Nessa hora servem comidinhas e bebidinhas, bom para aquecer já que o dia não estava muito quente. E também para passar o tempo, enquanto um dos marinheiros resgatava com bóia um rapaz que não agüentava voltar nadando para o barco 🙄 (Como eu sou má… :mrgreen: )
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E seguimos em direção a Oia, na ponta norte de Santorini, passando por Thirasia à esquerda e suas syrmata. O nublado da tarde foi dando lugar um a uma luz maravilhosa e um friozinho gostoso.
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Todos em terra firme já estavam a postos para o espetáculo de final de tarde, no castelo.  Dá para ver também que existem ainda muitas casas-caverna abandonadas num ponto nobre da vila, só esperando para serem restauradas.
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O sol deixava tudo dourado e vermelho: as casas no porto de Ammoudi, as rochas da encosta, até mesmo o mar.
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Nesse momento o barco pára e são içadas as velas…

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…e o comandante do veleiro começa a tocar saxofone! (Apesar de nunca ter ido a João Pessoa, me lembrei na hora do Jurandir do sax :mrgreen: )

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Apesar das interferências sonoras e de algumas nuvens, o sol não desaponta. Mais um pôr-do-sol inesquecível na viagem, para a coleção.

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Na volta para a Fira, a noite já ia descendo e os muitos cruzeiros estavam totalmente iluminados, esperando por seus passageiros que desciam ininterruptamente com o teleférico. Fiz o caminho inverso, seguindo para a  ‘casa’ e mais uma noite em Oia.

Santorini – Σαντορίνη: É tudo verdade

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Cheguei a Santorini tarde da noite, num mau humor terrível: o vôo Milos-Atenas sofreu um atraso de quase duas horas, o que me obrigou a passar boa parte da tarde num aeroporto pior do que rodoviária de cidade pequena. Sem luz no banheiro, nem revistaria, internet café ou comidinha boa…a parte boa é que os franceses com quem fiz o passeio de barco seguiam no mesmo vôo e papo não faltou.
A sorte foi ter um intervalo grande para o outro trecho, mas o meu plano era aproveitar bem meu tempo no aeroporto de Atenas para comer com tranqüilidade, ver e-mails, um lambe-vitrine básico. Que nada. E na chegada a Santorini, o transfer estava atrasado. E ainda por cima chuvinha…Ah, não, eu não merecia isso. Não em Santorini.
O responsável pelo resgate foi o faz-tudo Nikos (não, não se parecia com o Tony Ramos), ultra-simpático (apesar das dificuldades de comunicação). E começou o zigue-zague pelas estradas da ilha…Passamos por Fira, mas Oia não chegava nunca. Já estava arrependida de ter escolhido ficar lá, estava longe de tudo! E o bico só crescendo…
Ao chegar, vi que a chuvinha tinha parado. A dona do hotel me recebeu e deixou o check-in para o dia seguinte, viu que estava cansada. Mas tudo foi embora quando comecei a descer as escadarias e vi todas as luzes e piscinas de Oia na encosta, a caldeira na minha frente na escuridão…Quase gritei: ‘Estou em Santorini!’. Quanta mudança de humor 😳 :mrgreen:
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No dia seguinte é que pude ter uma idéia melhor de onde estava. Inacreditável, simplesmente.
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Santorini tinha sido um dos lugares mais difíceis no roteiro para escolha de hotel. Tudo era carésimo (apesar de já estar preparada para gastar mais) ou não muito interessante pelas fotos ou com muitas reclamações no Trip Advisor. Ou tudo isso junto. Mas depois de algumas semanas de pesquisa, apostei no Atrina. E foi um tiro certíssimo.
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Ele tem vista para a caldeira e uma ótima localização: pouco depois do início da rua para pedestres, de fácil acesso. É um dos vários hotéis que aproveitaram as casas-caverna que existiam na vila, em decadência. Com a renovação, resultaram em um tipo de hospedagem diferente e muito charmosa.

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Os quartos são grandes e confortáveis, cheios de mimos. Tem também uma sala e mini-cozinha, além da varanda, que era onde acontecia o café da manhã 😎
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Mas uma das melhores coisas era poder relaxar na piscina, sempre com a vista da caldeira – o respiradouro do vulcão que é a ilha, na verdade.

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E foi o que fiz todas as manhãs.

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A impressão que se tem é que não dá para desviar o olhar da caldeira e das encostas: você está perdendo tempo ao fazer isso. E esse voyeurismo fica ainda mais prazeroso quando se está em Oia.

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Esta é a vila que fica na ponta norte da ilha, a mais isolada e também mais fotogênica de todas, um lugar único no mundo.
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A maioria das fotos de divulgação da ilha é feita aqui então é inevitável sentir um certo déjà vu.
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Oia inteira é impecável, limpíssima e muito bem mantida, cheia de flores. Calçadão de mármore iluminado à noite somente por luzes próximas ao chão. Charmosa, charmosa…
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As ruazinhas são cheias de joalherias, ateliês, livrarias…e muitos dos melhores restaurantes da ilha, como o 1800 (construído numa linda mansão do séc. XVIII), o Pelekanos,o Ambrosia… 

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É aqui também que ficam os exclusivíssimos hotéis Perivolas e Katikies, esse último ao lado do Atrina e reconhecível pela quantidade de funcionários circulando. Serviço é tudo.
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Outra característica que salta facilmente aos olhos é a quantidade de igrejas. São dezenas delas para apenas um pequeno vilarejo e elas ficam ajudam muito nas fotos 😉
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A pontinha de Oia é cheia de moinhos e ruínas de um castelo veneziano… 

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…que lota nos finais da tarde por ser um balcão perfeito para admirar o pôr-do-sol.

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Aqui você não tem mais a visão da caldeira, mas vê o sol sumindo no mar. Caso tenha chegado mais cedo, pode conseguir uma mesa em um dos bares e aproveitar o fim da tarde bebericando um bom vinho branco de Santorini.

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Passear à noite em Oia é uma das melhores memórias na ilha…É a hora em que a maioria das pessoas já voltou para seus cruzeiros ou outras vilas onde estão hospedados e a movimentação é discreta e silenciosa. Inesquecível.

PS: Para ver Santorini em sua melhor forma, assim como outros cantos gregos, vale a pena dar uma olhada aqui e aqui.

Para gostar de Milos

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– Yasas!
Era o capitão Mihalis cumprimentando quando cheguei ao veleiro. Aliás, captain Mike, como ele próprio se entitulava: o marinheiro, guia e cozinheiro nesse dia de exploração marítima de Milos.
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Eu já tinha encasquetado de fazer um passeio de barco ao redor da ilha desde as primeiras pesquisas e já tinha até escolhido com quem fazer, mas não gostei do esquema quando cheguei ao cais para combinar a saída: muito grande (= muita gente) e o senhorzinho que colocaram lá para dar informações não falava uma palavra de inglês. Complicado.
Mas logo ao lado estava o Capitão Mike e o seu Panormos. Era um veleiro de 50 pés, bem conservado, que iria fazer justamente o roteiro que queria: percorrer a costa oeste da ilha até Kleftiko, lugar que me marcou quando o vi no Guia Grécia, na seção ‘lugares aonde só se chega de barco’.

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Partimos todos no meio da manhã e, para a nossa sorte, fazia um lindo sol que prometia ficar forte. E além de tudo a companhia era boa: além do Mike, mais três casais – dois de franceses e um de ingleses. Todos muito bacanas e educados, fora que o barco tinha espaço de sobra para todo mundo conviver civilizadamente.
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Começamos margeando a costa interna leste, passando pelas catacumbas. Já que não as vimos por terra, pelo menos de longe pudemos dar uma espiadinha.
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Logo em seguida vieram as vilas de pescadores que já tínhamos visitado no dia anterior. Fácil reconhecer Klima, a maior delas: parecia ainda mais linda com o sol que batia nas casinhas e deixava as portas e janelas com um colorido mais vivo.
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Quando se chega nesta ponta da ilha, é fácil reconhecer os Arkoudes (ursos), esculturas de pedras que se parecem com os tais.
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Para mim esse de baixo está mais para coelho 🙄
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É nesse momento que o barco vira totalmente a oeste e cruza a baía da ponta onde estávamos até a outra, chamada de Cabo Vani. Nessa região havia várias minas de exploração de manganês e ferro: é possível ainda ver vestígios das estruturas de transporte para os barcos.
Milos é uma das poucas ilhas nas Cíclades que não tem o turismo como fonte de renda predominante – a maior parte ainda vem da mineração, dada a sua estrutura geológica privilegiada. Isso se deve ao passado vulcânico da ilha e o seu formato em ‘U’ já indica essa origem, sendo o centro da baía de Milos a cratera deste vulcão (como em Santorini). A atividade vulcânica aqui, no entanto, é bem menor do que na vizinha famosa.
É possível encontrar um pouco de tudo por aqui…Além dos dois já citados, há muitos outros minérios dando sopa por toda a ilha: bentonita, caulim, pedra-pomes, barita, obsidiana, perlita e enxofre, como aqui nesta encosta. Hoje apenas alguns destes são explorados e a maioria da atividade é feita pela S&B, uma multinacional grega com um tentáculo aqui no Brasil. A maioria das minas atualmente está na costa leste de Milos.
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Um pouquinho mais de tempo velejando e chegamos à nossa primeira parada: a baía de Kalogries. Uma beleza de lugar, totalmente deserto (com exceção de algumas cabras no topo das falésias) e uma água totalmente convidativa.
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O sol ainda não estava muito forte e pensei duas vezes antes de cair na água. Mas…você conseguiria resistir a uma água assim? ❓ Eu não.
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Se ainda tinha um pouco de Emília dormindo no meu corpo, esse restinho foi embora num segundo. Gente, tem coisa mais deliciosa do que nadar num lindo poço de cachoeira ou num mar cristalino como esse? Não tem banho de descarrego melhor :mrgreen:
Pena que o snorkeling não é nenhuma maravilha, como na maioria dos lugares em que estive no Mediterrâneo. Só alguns peixinhos, nada de focas-monge ou tartarugas cabeçudas, mas aí acho que também é pedir demais. De resto é tomar um solzinho para esquentar, comer umas bruschettas gregas e zarpar.
A paisagem é grandiosa, cheia de paredões brancos e aqui quem dá o ar da graça é ponto mais alto da ilha, Profeta Elias.
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Mais um bom trecho de mar tranqüilo e chegamos a mais uma parada, Sykia.
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Esta é uma das muitas cavernas da ilha, com a diferença que esta aqui teve o seu teto desabado. Nessa hora o Panormos já estava ancorado e seguimos num pequeno bote caverna adentro.
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Sykia é bacaninha, mas o motivo principal da parada fica pálido perto do ponto onde o barco se aconchega. Que lugar es-pe-ta-cu-lar. As fotos falam pelo ele…
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Eu poderia falar que todo o deslumbre era culpa do ouzo que já rolava solto pelo barco, mas a verdade é que o efeito dele já passou faz tempo e eu continuo de boca aberta até agora.
Mais um pouco de navegação e chegamos a um dos principais cartões postais de Milos: Kleftiko.
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Fica exatamente na ponta sudoeste da ilha e a tradução é algo como ‘esconderijo de ladrões’. Não saberia dizer se é lenda ou não, mas o que nos foi contado é que este era o local de escolha de piratas. Não é difícil de acreditar, com tantas cavernas dando sopa por ali.
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As formações de rocha branca são espetaculares e fazem um contraste lindíssimo com a vegetação e a água azul-turquesa.
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Mais uma vez aqui pegamos o bote para explorar os cantinhos e depois…água, claro. Não tenho palavras para descrever o prazer de nadar aqui. A água refrescante, o sol batendo no corpo… você olha para cima e vê toda a paisagem, que vai mudando conforme as braçadas. Brincar de nadar pelos túneis de pedra…
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(Ai, que vontade de estar de novo ali, naquele momento – suspiros…)
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A essa altura já estávamos todos com fome, apesar dos petiscos, e o capitão Mike assumiu o papel de chef, preparando uma salada típica da ilha, com pão crocante, tomate, ervas e queijo de cabra macio. Logo em seguida serviu um suculento espaguete com frutos do mar. Nada melhor depois que um tomar um solzinho na proa, naquela molezinha gostosa.
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Mas tudo tem um fim e  precisamos rumar de volta ao porto, curtindo a luz do final da tarde na água e observando os peixes voadores.
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Perto de Adamas estava o próximo objetivo, Plaka, que parecia uma serpente branca descendo pela encosta…o pôr-do-sol prometia. Relutamos em sair do barco, ainda mais com o Mike, essa figura ultra gentil, tendo comprado loukoumades (sonhos com mel) para dividir conosco e trocar idéias…podia se ver que ele estava super contente e orgulhoso de mostrar tudo aquilo para nós, estrangeiros.
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E adivinhem o preço de tudo isso? A bagatela de 40 euros por pessoa…
Demos tchau e seguimos todos (a essa altura já totalmente entrosados) para o Kástro…o sol descia rápido, mas ainda conseguimos chegar a tempo, mesmo com toda a subida a pé.
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As fotos não fazem justiça, mas posso dizer que esse foi o mais bonito pôr-do-sol na Grécia. Ok, teve um em Santorini que perdeu por um nariz.
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Eu adoro um passeio de barco, mas esse realmente superou todas as nossas expectativas e foi eleito, sem dúvidas, um dos passeios top 5 de toda a viagem. Um dia perfeito, do começo ao fim.
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Vilarejos mil: fotopost

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Quando eu estava pesquisando sobre Milos, caí de amores por umas vilas de pescadores diferentonas, que ficam na ponta nordeste da ilha. Eu já tinha visto, não sei onde, fotos destas vilas muito antes de pensar nesta viagem, sem saber exatamente onde ficavam.  Claro que fiquei contente de ‘encontrá-las’ 😀
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Eu adoro uma cidade pequena, um vilarejo… as ilhas gregas são cheias deles, mas as vilinhas em Milos tem uma ‘cara’ bem diferente e são super fotogênicas. A maior é Klima e era aqui o porto principal da Milos antiga.
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As casas de pescadores são chamadas de syrmata e têm normalmente dois andares, sendo o de cima a residência e o de baixo garagem para o barco, que fica guardadinho ali quando é inverno.
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Hoje em dia a maioria delas é alugada na temporada. Syrmata, moinhos…taí um lugar com hospedagens alternativas :mrgreen:
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As casas são sempre pintadas com cores vivas e normalmente tem a pintura sempre em dia…
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 …com algumas exceções 🙄
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A essa altura do dia, a chuva já tinha ido embora há algum tempo e a melhor pedida foi relaxar nessa simpática pracinha. Uma paz…um silêncio incrível.
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Só consegui sair dali porque ainda tinha muitas outras vilas para ver. A próxima é essa fofura que está na primeira foto do post: Firopotamos.
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Uma coisa bacana é que este povoado é menor que Klima e tem uma igrejinha, fazendo uma ótima composição. Além disso, o sol tinha dado um oi discreto e fazia brilhar a água claríssima e limpa da pequena baía. Até hoje, quando vejo essas fotos, tenho vontade de simplesmente pular…
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Até as ruínas pareciam ter sido colocadas ali propositalmente.
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O final de tarde nem lembrava do começo chuvoso do dia…

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…e decidi visitar uma última (pelo menos por hoje): Fourkovouni.

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Para variar, não se via uma alma rondando o lugar, o que poderia ser? Baixa temporada? Ou os moradores são tão tímidos assim?
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Eu ainda teria continuado até Areti, mas a estradinha de terra piorava sensivelmente a partir dali  e já hávia visto mais vilarejos de pescadores do que é razoável em um dia 🙄
Voltei para a casa, passando por uma linda praia, Plathiena. Praticamente vazia também, será que fica cheia na alta?
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Ainda deu tempo para passar no Museu de Mineração, pequeno mas bastante esclarecedor quanto à fabulosa diversidade geológica de ilha (que teria a oportunidade de ver mais exemplos no passeio do dia seguinte).  E consegui também um pôr-do-sol sobre Adamas: nublado, mas já anunciando um dia seguinte de sol.
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Mas a procura por mais vilas ainda não tinha acabado: na última manhã em Milos acabei seguindo para a que achei uma das mais bonitas, Mandrakia.
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Aqui as syrmata são cavadas diretamente na rocha, ao invés de construídas por inteiro.
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Mais um daqueles lugares deliciosos, de dar vontade de sentar num banco e só olhar a paisagem…
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Depois de tantas vilinhas na beira da água, ainda sobrou uma no topo do morro: Plaka, a capital de Milos.
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Ela segue o padrão típico das chora das Cíclades: pequenos cubos brancos em uma parte alta da ilha, dispostas num padrão de labirinto. Estas duas últimas características tinham como objetivo combater piratas, que forçavam a população a sair da beira da água e procurar abrigo no alto. O traçado também ajudava a combater o vento.
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É muito fácil mesmo se perder, mesmo aqui, em uma vila pequena. E o pior é que raramente se vê alguém para pedir indicações, é mesmo um mistério…mas é tão gostoso andar no meio dessas casinhas cheias de primaveras, portas e janelas de colorido tão vivo. Até as abandonadas têm seu charme.
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É um lugar muito bom para jantar numa noite quente, ao ar livre. Foi neste restaurante abaixo que comi uma inesquecível cheese pie (tradução: um simples pastel de queijo, dos nossos  🙄  )
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Plaka tem ainda alguns museus, que não visitei, como o Museu de Folclore e o Arqueológico. Além do kastro (fortaleza), bem no topo da colina, o melhor lugar para ver um pôr-do-sol de babar…mas isso é assunto para um próximo post 😉
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Milos – Μήλος: A primeira ilha grega a gente não esquece

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Difícil tarefa escolher poucas ilhas na infinidade de opções que a Grécia oferece: uma competição muito dura, com tantas tentações…Santorini e Rodes eram as únicas com lugar garantido no roteiro e o restante dele foi construído aos poucos. Mykonos foi uma dúvida até o último momento, mas era certeza a inclusão de ilhas mais low profile, sem um apelo turístico tão óbvio.
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Depois de muito ler os guias e consultar, como sempre, o Guia Grécia (especialmente o Ranking das Ilhas), fiquei entre Milos e Folegandros (nas Cíclades) e Patmos (Dodecaneso). Mas o que determinou o corte final foi o ‘quesito’ transporte: as duas últimas tinham conexões difíceis tanto de ferry quanto avião nas simulações de roteiro e acabaram cortadas (mas esperando na fila para a próxima vez…)
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Mas não foi só por isso que Milos conquistou uma vaga na seleção de ilhas: tendo origem vulcânica, ela tem algumas das paisagens mais exóticas do Egeu e isso foi o que mais me atraiu, totalmente capturados por fotos de praias que poderiam estar na lua, formações rochosas espetaculares, vilarejos de pescadores muito originais.  Fora que estava a apenas 25 minutos de vôo de Atenas! E foi num pequeno Dash 8 da Olympic que cheguei à ilha, fugindo do frio que perseguia desde Meteora até Atenas, no dia anterior.
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Fazia um calor incrível, sol forte…tudo estava bem. No táxi para o hotel, conferia de perto as famosas casinhas brancas que já tinha visto pela janela do avião e que fazem a fama das Cíclades. A capital (ou chora) de Milos é Plaka, mas a escolha foi ficar em Adamas, o porto: mais opções de hotéis, restaurantes, mais agitação.
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Quer dizer…não muita agitação. Era meio de setembro e, enquanto Santorini continuava na sua alta temporada, Milos já tinha começado a fechar para balanço. Uma calma absoluta em Adamas àquela hora da tarde: alguns gatos pingados almoçando, um ferry entregando poucos passageiros ao porto e o que deveria ser feito era um básico reconhecimento de terreno. E quer saber? Adorei. O único inconveniente que a baixa temporada em Milos trouxe foi encontrar uma boa parte da listinha de restaurantes com as portas já fechadas, incluindo o Aragosta (mas isso também aconteceu em Atenas, no badalado Baxevanis).
Mas por que lamentar se você tem uma taverna à beira da água, cheia de peixes fresquinhos que você escolhe e pesa na cozinha? A comida no O Flisbos é simples, mas se vê claramente que é muito fresca e feita com capricho. Um peixe grelhado, saladinhas e cerveja, só o necessário para entrar no ritmo (lento), uma adaptação muito fácil :mrgreen: Uma leve caminhada e voltar para a nova ‘casinha’ …Vontade de não fazer nada e depois dormir, e foi essa a atividade no restante da tarde.

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O lugar escolhido em Milos foi o Villa Notos, uma das muitas boas surpresas na Grécia em relação à hospitalidade. Ioannis e sua esposa me receberam um dia após o casamento de sua filha e, depois de mostrar o impecável e enorme quarto e ajudar com aluguel do carro, ele bateu à porta com docinhos do casamento e lembrancinhas: potes do doce tradicional da ilha, feito de melancia. Super fofo.

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Ele está bem localizado, no canto direito de Adamas, junto à pequena praia de Lagada: perto da (suposta) muvuca, mas num canto silencioso e bucólico. Não pode ser considerado uma pousada, já que não há áreas comuns, nem café da manhã, mas nenhum dos dois fez falta…não quando se tem um mini loft novinho, bem decorado e com amenities Korres no banheiro. E acabei de ver que estão em primeiro lugar no Trip Advisor para acomodações em Adamas. Acho que não preciso falar mais para recomendar este lugar 😉
O plano para o dia seguinte era conhecer o canto nordeste: Pollonia, a segunda maior vila da ilha, boa para quem quer mais ficar na praia, além de dois lugares intrigantes: Papafragkas e Sarakiniko.
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(mapa de www.milos-island.gr, um bom guia para ilha)
Mas…a ‘frente fria’ me alcançou. O dia começou com uma chuvinha fina e chata, o calor tinha ido embora. Mas já tínha feito nada no dia anterior e queria alguma ação, então…era hora de pegar o bravo guarda-chuva e sair por aí no surrado Punto alugado por apenas 30 euros por 2 dias (a idéia era pegar só um dia, mas por esse preço? Ah, baixa temporada…)  Ao chegar em Pollonia o que vi não foi muito animador.
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A chuvinha fina deixou a vila com ar desolador. Quem se atrevia a andar pela rua se encolhia em baixo dos guarda-chuvas, apenas os pescadores continuavam na lida.
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Mas deve ser um lugar muito agradável com bom tempo. Mas como não era esse o caso, coloquei o pé na estrada de novo, parando em Papafragkas.

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Taí um lugar absolutamente fora do padrão de qualquer praia: rochas formando cavernas e piscinas de um super azul. Mas não dava nem para pensar em colocar os pés na pequeniníssima faixa de areia. Só para ter uma idéia melhor do que nas minhas fotos, dêem uma olhada aqui.
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Ao chegar em Sarakiniko, não chovia mais, mas o céu ainda estava nublado, o que não impediu de sentir o impacto de um dos lugares mais diferentes e bonitos visitados nessa viagem.
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Se a anterior era interessante, essa aqui sobe uns degraus a mais na avaliação… como o tempo não atraiu banhistas, a praia estava deserta, o que reforçava o aspecto lunar, junto com as cavernas nas paredes e a rocha branquíssima, esculpida pelo vento.
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Do outro lado da prainha, o sonho branco continuava e ainda guardava algumas surpresinhas…
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Fiquei ali um bom tempo, um pouco hipnotizada pela paisagem e pelo barulho da água batendo com força nas rochas. Só fui embora quando chegaram três senhoras russas muito simpáticas, falando alto e escalando as rochas, numa super animação. Mas acabei voltando mais uma vez no último dia, dessa vez com sol.
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Era hora de voltar para o ‘centrinho’ da ilha, que se concentrava entre Adamas, Plaka e a vila de Tripiti. É um faixa de casas sobre a borda do penhasco, cheia de antigos moinhos, alguns deles transformados em charmosas casas para aluguel. Dá para ter uma idéia aqui, é bem bacana.
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Fica perto de Tripiti também o local onde foi encontrado a famosa Vênus (de Milo, de onde mais?), as catacumbas cristãs (únicas na Grécia, mas fechadas para visitação temporariamente) e é daqui também que parte a estrada para visitar as mais fofas vilas de pescadores que se pode imaginar. Mas antes…uma parada estratégica 😉

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(Tony, fiquei com a consciência pesada depois do vídeo… 🙄 )

Meteora- Μετέωρα ou Cadê o sol que estava aqui?

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Choque. Gostaria de dizer que Meteora foi um choque de beleza, um espetáculo, cuidado com a síndrome de Stendhal, ou até mesmo  ‘êxtase místico by Emília’.  E realmente foi…tudo aquilo que eu tinha imaginado e ainda mais. Mas também foi um choque de temperatura. Depois de chegar à região num final de tarde ensolarado, com gostosos 22ºC, acordei no dia seguinte vendo chuva pela janela e 7ºC no termômetro do carro.
Mas visitar Meteora era desejo antigo, desanimar que nada. E cadê roupa suficiente para dar conta desse frio todo? A sorte é que, dentro da minúscula malinha feita para esses três dias de viagem, tinha colocado, por precaução, uma malha. Muitas camadas de camisetas, um cardigan de malha e uma echarpe de algodão (que não combinava) mais tarde, eu estava pronta. Aliás, tudo isso e mais um guarda-chuva chinês comprado no estacionamento do primeiro mosteiro.
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A sua história é longa: geologicamente começou há alguns milhões de anos, tendo esta forma esculpida por terremotos e a erosão pelo vento e chuva. Mas a sua ocupação humana data da Idade Média, mais precisamente no século XI, quando os primeiros monges se estabeleceram na região. Queriam isolamento para seu culto e nada melhor do que rochas de difícil escalada para afastar enxeridos, mas vencidas pela vontade dos monges-escaladores.
Com a ocupação turca, guerra da independência, II Guerra Mundial e quetais, a maioria dos mais de 20 mosteiros foi destruída. Hoje sobram 6 que podem ser visitados e mais uma porção de eremitérios nos arredores. Mesmo assim, ainda é um importante centro religioso cristão-ortodoxo, talvez só perdendo para o Monte Athos (e falando no site do Yann-Arthus Bertrand, tem também uma foto linda de Meteora lá). Pena que esse eu não posso visitar um dia, já que o acesso só é permitido aos homens 😡
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Para ver essas maravilhas existem duas opções de hospedagem, Kalambaka e Kastraki. As duas cidade ficam aos pés das rochas e a escolha é do freguês: a primeira é maior, tem mais comércio e opções de hotéis e alimentação. A segunda é pequenina, uma micro-cidade do interior, mas tem seu charme fim-de-mundo e fica mais próxima da maioria dos mosteiros.  Escolhi a segunda. 
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Você sabe que chegou na vila quando vê esse monumental símbolo fálico 🙄 , mas também vê a ‘matriz’, a escola e um monte de casinhas de pedra, algumas bem antigas. A pousada, a Archontiko Mesohori, é uma delas: foi reformada recentemente e é muito confortável, ainda que com uma escolha decorativa, ahn…peculiar 😛 E nada como ter uma varandinha para admirar as torres ao redor…à noite uma leve iluminação delas ajuda a criar um clima misterioso, bem no espírito do lugar.
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De Kastraki toma-se uma estradinha cheia de curvas que sobe até o complexo, entre uma linda paisagem que já começava a apresentar alguns tons ferrugens do outono. Pouco tempo depois já estava na entrada do Megalo Meteoron, o maior deles.
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Da rocha onde fica o estacionamento, foi construída uma ponte para a ligação com o mosteiro e há também um bondinho para transporte de materiais. Até há algumas décadas atrás, tudo era feito através de um guindaste ligado a uma cesta ou rede, transporte de pessoas inclusive… É comum, em material de divulgação de Meteora, uma foto montada com um padre ‘preso’ na rede  🙄
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A área do mosteiro é enorme e engloba vários ambientes, muitos deles bem agradáveis, como jardins internos, que não puderam ser aproveitados como se deve em razão do frio de bater dentes e da chuvinha chata, brr…
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O tour também passa por áreas, digamos, seculares: cozinhas e refeitórios, cisterna, sala de armazenamento de vinho (hmmm…) e outras que só podem ser visitadas porque existem pouquíssimos monges vivendo hoje nos mosteiros. Na prática viraram museus e em Megalo Meteoron isso é mais evidente nas diversas salas com exposições de manuscritos, ícones e itens eclesiásticos. Existe aqui também um museu curioso sobre o papel ativo de Meteora na guerra da independência e na 2a. Guerra Mundial: os monges aqui não hesitaram em tomar armas.
Mas uma das principais atrações aqui é o katholikon, ou a igreja principal do mosteiro: além dela, existem várias outras capelas, já que cada oração do dia deveria ser feita em uma diferente.
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É proibido tirar fotos do interior das igrejas e é uma pena, porque esta tem afrescos em todos os cantos e dá para perder a noção do tempo, observando com calma. Mas o grande destaque dela são as pinturas do nártex, com cenas dos martírios de santos. Estão muito bem preservados, mas…sinceramente? Depois de alguns minutos ali eu achei melhor sair, pois teria pesadelos à noite 😯
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Uns dois minutinhos de carro mais tarde e chega-se a Varlaam.
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É bem menor, mas uma simpatia de mosteiro. Cheio de cantinhos charmosos, jardins e pracinhas. De qualquer ponto se tem uma vista de respeito, mesmo com esse tempinho que deixou minhas fotografias com cara de quem comeu e não gostou. A cidadezinha aí embaixo é Kastraki.
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A saída era se refugiar nas igrejas. Nesta aqui uma família se consultava com um dos padres e pelo jeito tinham assunto para um dia inteiro…Achei que veria mais padres ortodoxos, mas pelo jeito eles não querem saber de público. Aliás, as visitas são toleradas, mas como em qualquer local religioso, recomenda-se silêncio e discrição: mulheres não devem usar calças, mas saias compridas. Se você não levou, eles emprestam algumas que parecem mais adequadas a um botijão de gás. Prevenida, levei uma canga para enrolar em volta das pernas e no final o resultado não foi uma grande vantagem, dada a combinação carnavalesca de cores da minha indumentária 🙄
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Na seqüência, a estrada passa por um dos mosteiros que não visitei, Roussanou, que hoje é ocupado por freiras. O outro é o São Nicolau Anapafsas, visto ao fundo.
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Mais um pouco de estrada e aparece um da lista dos mosteiros a ser visitados, Agias Triadas.
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O acesso aqui exige um pouco mais, já que é necessário subir uma boa parte da rocha a pé, por escadas construídas na própria. Mas era uma questão de honra, já que este foi o local escolhido para a filmagem das cenas finais de Somente para seus olhos, um James Bond safra 81, recomendado para quem quer ver outras partes da Grécia também.
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Ó, decepção! Nada ali lembrava o filme, nem mesmo a salinha do guindaste, tsc, tsc…Mas essa não seria a primeira decepção na viagem das procuras por cenários bond.
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Uma coisa boa é que não havia quase visitantes ali, o silêncio era delicioso. As duas pequenas e lindas capelas, assim como o simpático monge que recebeu com loukoumi , fizeram valer a visita.
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E a última parada, Santo Estevão (ou Agios Stefanos).
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Este mosteiro é também administrado por freiras, muito sisudas aliás, mas que fazem um belo trabalho nos jardins, que devem ser realmente agradáveis num dia de sol.
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Apesar de grande, a maior parte de Agios Stefanos não pode ser visitada, já que ainda tem atividade religosa acontecendo por ali.
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Dali, uma descida diretamente para Kalambaka, procurando um lugar seco, quente e com comida 😀
Mas Meteora não é só mosteiros, vale descobrir também a área natural ao redor através de trilhas, que muitas vezes passam por eremitérios antigos e outros mosteiros não recuperados. Para isso, acredito que seriam necessários uns 2 dias. E quer saber? Eu ainda volto para fazer isso. E com sol 😉
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Delfos – Δελφοί ou A pitonisa leu o meu destino

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Alugar um carro e sair por aí, num país que não é o seu, sempre traz um gostinho de desafio. As placas são diferentes, os hábitos de direção talvez um pouco mais ‘arrojados’ e, se a mão for inglesa, loucura dobrada. Língua que não se domina também pode ser um obstáculo no caso de se precisar de indicações, mas na Grécia a dificuldade ia um pouco além: o que fazer com placas em outro alfabeto?
Sabia que alguns lugares mais movimentados tinham a indicação nos dois alfabetos, grego e latino. As poucas placas em Atenas também seguiam essa regra: Acrópole, aeroporto, Glyfada (cidade da região metropolitana à beira-mar), Peiraias (não fazia idéia que lugar era esse)…E fui treinando a transliteração nos dias em que fiquei em Atenas, além de pedir também um GPS como medida de precaução…
Pelo horário de saída, o agente da Safeway (agência indicada pelo Décio, bem mais barata que as grandes do tipo Avis, Hertz) recomendou evitar a saída pelo centro de Atenas, por conta do trânsito. Se contornasse pelo porto, Pireus, chegaria mais rápido à estrada. Ok, a opção foi desconsiderar as indicações do GPS e seguir pela longa avenida Syngrou, a mesma do hotel. Mas cadê indicações do porto? Acabei no lado oposto, quase em Glyfada e nada de placas de Pireus. Só depois de voltar um bom trecho e quase ter que voltar para Atenas por falta de indicações é que a ficha caiu: Peiraias = Pireus 🙄 A reputação desta blogueira de ter bom senso de localização quase foi por água abaixo 😳  Enfim…com um certo atraso, passei pela feiosa periferia ateniense e caí na pequena estrada que seguia para Delfos.
Começava a pequena aventura pelo interior da Grécia, cruzando paisagens lindíssimas: regiões montanhosas áridas, intercalando trechos com oliveiras e outros com pinheiros.
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A estradinha cheia de curvas e caminhões búlgaros não era das mais fáceis, mas a paisagem compensava.
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O olho festava grudado na janela: passavam rápido as super vistas, as miniaturas de igrejas ortodoxas em mastros (talvez para proteger os viajantes), ciganos dançando na beira da estrada e um pastor com suas ovelhas. Enfim, me sentia realmente nos Bálcãs 😀
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Depois de muitas traduções apressadas, descobri que as placas vêm em alfabeto grego e, um pouco à frente, em alfabeto latino. Não fiz mais erros neste trecho da viagem, mas a confusão de Pireus gerou um atraso e o pôr-do-sol se aproximava rápido…
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Já na reta final, contornei as encostas do mitológico (como tudo na Grécia, aliás) Monte Parnaso: era consagrado a Apolo e aqui viviam as Musas. Alguns devem se lembrar do parnasianismo, nas aulas de literatura 😆 Vinda do calor de Atenas, via o termômetro despencar, passando por Arachova, cidadezinha que lota no inverno por ser a base para esqui na região. Mais um pouco e chegava a Delfos, a tempo de ver a paisagem da baía de Itea com um pouquinho de luz…
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Mais um fim de tarde magnífico, entre tantos outros que ainda viriam: pelo jeito finais de tarde são uma especialidade grega 😀 Não dava para desgrudar o olho daquelas montanhas entre o pôr-do-sol, o mar ao fundo, as luzes…
E enfim…Delfos. A cidade é minúscula, duas ruas paralelas na encosta da montanha, tomada na maior parte por hotéis, lojas e restaurantes. O padrão dos hotéis é bem parecido e a escolha foi o Varonos, um dos melhores colocados no Trip Advisor. Foi uma boa decisão: o hotel é simples e tem uma decoração, digamos…peculiar 🙄 Mas tinha um bom preço (50 euros), quarto confortável e limpo, internet de graça, uma linda vista da varanda e um atendimento ultra simpático.
Escolhi uma das indicações do hotel para o jantar: To Patriko Mas, uma casa de pedra do séc. XIX, aconchegante e com boa comida. Tinha também um menu mais variado, com carnes de caça: aproveitei e pedi o coelho, muito saboroso. Só não variei na sobremesa, já que isso também seria pedir demais…Acabei no tradicional (e delicioso!) iogurte com mel, que, junto com a baklava, forma o duo de sobremesas onipresente na Grécia.
Ao acordar bem cedo é que pude ver a versão com luz da paisagem da varandinha: um mar de oliveiras no vale aos meus pés, o mar e as montanhas ao fundo…Lindo, vocês não acham? 😉
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A decisão de dormir em Delfos e acordar cedinho para ir ao sítio tinha a ver com as inúmeras excursões que saem de Atenas para um bate-e-volta: a partir de um certo horário os ônibus chegariam e queria ter um pouco de sossego até lá.
E com razão Delfos é muito procurada: aqui está um dos principais sítios arqueológicos da Grécia, considerado patrimônio da humanidade pela Unesco e tido com um dos grandes locais sagrados da Grécia Antiga. Tendo sido criado por volta do séc. VIII a. C. pelo próprio Apolo, o Oráculo de Delfos era dedicado ao deus e considerado o umbigo do mundo.  Segundo a mitologia, era originalmente dedicado a Gaia, a mãe terra, tendo reputação como local de adoração ainda mais antiga…É fácil entender a escolha dos deuses: o santuário está cercado de natureza…os vales e montanhas pareciam ainda mais bonitos com a luz da manhã.
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Aqui era o ponto final da peregrinação para aqueles que desejavam ter suas dúvidas existenciais esclarecidas pela pitonisa, a sacerdotisa de Apolo. Ela se sentava junta a uma fenda na terra, de onde saíam vapores que a deixavam em transe: era neste estado que ela fazia suas previsões e respondia aos consulentes, Apolo falando através dela.
Suas respostas, apesar de traduzidas pelos sacerdotes, eram confusas, ambíguas ou em forma de charada, muitas vezes mal interpretadas, mas nada disso afetava o prestígio do santuário. E a riqueza também: as cidades-estado faziam tantas oferendas que foram construídas estruturas conhecidas como ‘tesouros’, para guardá-las. A grande maioria está em ruínas e o único  restaurado é o Tesouro de Atenas, provavelmente oferecido a Apolo como agradecimento pela vitória na Batalha de Maratona, contra os persas. 
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Os tesouros estão em toda parte, especialmente ao redor da Via Sacra, que ia da entrada até o Templo de Apolo, o coração do complexo.
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Apesar de ter apenas algumas de suas colunas restauradas, dá para se ter uma idéia da grandiosidade do templo, onde as pitonisas faziam suas profecias, envoltas em todo o ritual exigido para as consultas.
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Além do culto a Apolo, Delfos também se dedicava aos Jogos Píticos, que aconteciam aqui, de quatro em quatro anos, reunido competidores de toda a Grécia. No início, apenas competições de música e poesia faziam parte dos jogos (Apolo também era o deus da música) e para isso era usavam o teatro, uma das estruturas mais bem conservadas do sítio, um pouco acima do templo.
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Subindo a montanha mais um pouco, é possível visitar o estádio, criado para as competições atléticas, como corrida, pentatlo e luta. Como é também o ponto mais alto, a vista do sítio arqueológico e arredores é imbatível. Aqui é possível ver uma reconstrução possível do santuário, de 1894, por Albert Tournaire, arquiteto francês.
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Complementando a visita, passe pelo museu para ver todas as obras que foram desenterradas pelas escavações arqueológicas, desde o final do séc. XIX. Fica ao lado da entrada do sítio e possui lindos mosaicos expostos na sua área externa, além de estátuas, objetos de ouro, frizos retirados dos tesouros…
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Mas a principal obra é mesmo o condutor de carruagens, estátua em bronze que é praticamente o símbolo de Delfos.
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O complexo ainda continua um pouco a frente na estrada: o ginásio, com poucas estruturas estruturas visíveis, e o santuário de Atena Pronaia com o Tholos, construção circular que teve três colunas restauradas – é uma das imagens mais fotogênicas de Delfos.
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A manhã passou voando e já era hora de fazer check-out, almoçar e colocar de novo o pé na estrada, rumo a Meteora 😀
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Raspa do tacho

Último dia para curtir Atenas: ainda voltaria, mas apenas para dormir, antes de partir para as ilhas. Então…melhor aproveitar o restinho de tempo na cidade. E começando com o que via todos os dias da sacada do quarto e não me cansava: o Templo de Zeus Olímpico.
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Já estava tão íntima dele, todos os dias suspirando na varanda, até tomando banho conseguia vê-lo 😀 Aproveitei para conferir de pertinho com o superpasse que dá direito, por 12 euros, a visitar os sítios: Acrópolis, Ágoras antiga e romana, Teatro de Dionísio, o Templo de Zeus, Kerameikos e Biblioteca de Adriano (infelizmente não tive tempo para visitar estes dois últimos).
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Dedicado ao chefão dos deuses, o templo foi projetado para ser o maior já construído até então – o que combina muito com a posição de Zeus na hierarquia e com sua personalidade dominadora e geniosa (era cheio de fraquezas humanas também – ser mulherengo era uma especialidade desse personagem mitológico impagável). Originalmente existiam 104 colunas ao redor da cella, a área interna do templo. Hoje apenas 16 colunas restam, uma delas no chão, derrubada por uma tempestade no séc. XIX.
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Mesmo assim, dá para se ter uma idéia da sua monumentalidade antes da destruição por guerras e utilização do mármore para outras obras no decorrer da história: é só dar uma olhada na proporção do moço à esquerda, na foto abaixo.
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O projeto levou um tempo absurdo para ser construído, desde VI a.C. até o governo romano de Adriano, ou seja: uns sete séculos. A escolha do estilo para os capitéis foi o coríntio, o mais recente das ordens arquitetônicas gregas e a mais ornamentada também. Mesmo com tantas ameaças, os detalhes de folhas, flores e arabescos ainda estão lá.
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E além de tudo, o Templo de Zeus dá um charme especial em qualquer foto, seja da Acrópole, à direita abaixo, ou o hotel, na esquerda 😉
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Como a próxima parada era em Kolonáki, resolvi evitar a movimentada avenida Vasilissis Amalias e cortar caminho pelo Jardim Nacional. Ufa, que alívio: acredito que não haja lugar mais tranqüilo e refrescante em Atenas, um total contraste com o cimento dominante e a falta de árvores no resto da cidade.
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Gente lendo, mães levando bebês para passear, o parque é um sossego só, um alívio do calorão e muito bonito dentro do seu estilo clássico. As crianças vão gostar dos bichos: essa aqui em especial gostou das tartarugas, para variar 🙄 Saí do parque bem em frente ao próximo destino, o Museu Benaki.
O patriarca da cosmopolita família Benaki, Antonis, era um grande colecionador de arte, com foco nas artes grega e islâmica. Como morava em Alexandria, no Egito, ele doou a casa da família em Atenas para a formação do museu. Hoje existem várias outros edifícios, na cidade e fora dela, cada um ligado a uma coleção específica, sendo que a sede original abriga o acervo permanente de arte grega, indo da pré-história até o início do século passado.
Uma das áreas mais fabulosas do museu é a coleção de arte bizantina, com seus ícones maravilhosos. Vale também uma bela olhada nos tecidos da coleção de arte copta, assim como em uma área muito interessante que retrata os modos de vida nas diferentes regiões da Grécia. Os trajes originais, masculinos e femininos, são de babar. Sem falar nas jóias…
O museu ainda tem um café muito simpático no último andar, com uma bela vista do centro. Pena que é proibido tirar fotos, mas tive uma surpresa que foi entrar de graça, o que acontece todas as quintas.
Saindo do bonito prédio do Benaki, continuei pela avenida Vasilissis Sofias até o coração da cidade, a praça Syntagma. É ali que está o Parlamento, antiga residência dos reis gregos até 1924, quando a monarquia foi abolida (para voltar logo depois e ser abolida novamente em 1975).
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É ali também que fica o tradicional Túmulo do Soldado Desconhecido. Mas não é nem ele, nem o Parlamento que atraem as dezenas de turistas que ficam plantadinhos ali em frente: tudo isso é por causa da troca de guarda feita pelos evzones, essas fofuras de soldado que formam a guarda presidencial.
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Além de serem moços bonitos, eles vestem o que é, provavelmente, um dos uniformes mais exóticos já vistos: uma sainha branca pregueadíssima, meias brancas e sapatos vermelhos de pompons – esse da foto acima até que está com a versão mais discreta. O pessoal todo fica ali esperando a troca da guarda, que é feita de hora em hora e com uma marcha bem peculiar. Como sempre passei por ali fora do horário (e não queria ficar esperando ali no sol), acabei não presenciando o evento. Tem uma versão mais completa, com bandinha e evzones marchando pela avenida, que pode ser conferida por quem estiver na cidade em um domingo.
Preferi continuar e almoçar em Pláka, só para variar um pouco :mrgreen: Saindo da praça Syntagma, de costas para o Parlamento, o caminho natural é continuar pela Rua Ermou, super movimentada e cheia de lojas bacanas: ela marca o limite norte do bairro. Seguindo em direção a Monastiráki, uma surpresa, no meio da loucura: a igreja de Panagia Kapnikarea.
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Ela é uma das mais antigas de Atenas, do século XI – o que não é de se espantar, já que este é considerado o bairro mais antigo da cidade. Como muitas, estava fechada. Mas mesmo por fora ela é linda, com alguns mosaicos à vista.
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Entrando no bairro, chega-se à Plateia (praça) Mitropoleos, onde fica a catedral. É muito bonita (por dentro, já que o exterior é bem comum), mas o que realmente chama a atenção é esta pequena igrejinha ao lado, a Panagia Gorgoepikoos. Construída no séc. XII, ela tem lindos relevos em toda a sua volta.
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Você encontra essas belezinhas até nos lugares mais inesperados…
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Não é à toa que um trechinho do bairro, perto da Rua Nikis, é tomado por lojas de artigos eclesiásticos e ateliês de arte (neo)Bizantina. Por ali também tem uma loja da rede de livrarias Elefthouradkis, cheia de livros divinos sobre a Grécia, um pecado para quem tem grandes limitações de bagagem, como era o meu caso.
Mas, para quem quer fazer compras sérias, o melhor é seguir no sentido da área mais turística e central do bairro. Nesse trajeto é inevitável cruzar com a Rua Adrianou, uma das principais de Pláka – ela é cheia de restaurantes e lojinhas de suvenires e fica lotada dia e noite. Além dos itens kitsch onipresentes, chamam a atenção as joalherias e lojas de sandálias de couro. Para mim, mais que um lugar de compras, a Adrianou era um lugar conhecido num emaranhado de ruas. Chegar à Adrianou era estar perto de ‘casa’…não que fosse ruim se perder por ali 😉 
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Entre a Adrianou e a colina da Acrópole fica um verdadeiro labirinto, para mim o lugar mais simpático do bairro, com mil restaurantes e bares, com mesas nas escadarias ao ar livre, e mais igrejas (de novo!). Depois de matar a fome com um gigantesco gyros, o famoso churrasquinho grego, era hora de voltar para o hotel para pegar as malas e o carro para seguir para o interior…
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Devaneios privados em espaços públicos

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Depois de tantas fantasias históricas, a fome e a sede chamaram à realidade e perambulei por Pláka até achar algum lugar onde refrescar um pouco o corpo. Tinha gostado de um lugar no dia anterior, mas estava lotado, e tentei achá-lo de novo, o que não foi fácil. O bairro é um labirinto e o que é referência à noite nem sempre funciona à luz do dia: um bar, um restaurante, mesas na calçada…o movimento durante o dia é mais discreto.
Mas achei, infelizmente. Apesar da cenografia fofa – um pátio à sombra de videiras, das recomendações do Lonely Planet e dos muitos locais comendo ali (incluindo uma mãe que tinha acabado de buscar os filhos na escola), a comida era abaixo do razoável. O moussaká gorduroso comido ali me deixou traumatizada pelo resto da viagem: não pedi mais o prato durante a estada na Grécia. (Se quiser comer um bem gostoso – e sem precisar viajar -vá ao Acrópole.)
Até o tzatziki decepcionou, mas a salada grega e um pãozinho salvaram a minha refeição. Além de uma cervejinha gelada, claro! Mais do que necessária para a continuação das explorações do centro histórico ateniense, logo ao lado do restaurante, ao chegar às Ágoras Romana e Antiga.
Em contraponto à Acrópole, que representava um local sagrado (e de poder também), dedicado ao culto e com acesso controlado, a Ágora era um espaço aberto à circulação, a grande praça central onde os cidadãos podiam percorrer os mercados, participar da vida cultural da cidade e ter acesso aos organismos públicos: era ali que tinham sede as funções administrativas, políticas e legais de Atenas.
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Era uma instituição intimamente ligada com o conceito de democracia, uma vez que era na Ágora que aconteciam as discussões sobre política, economia e filosofia. Bem, democracia enviesada, uma vez que a Ágora também foi palco dos grandes debates de Sócrates, mas também do seu julgamento e de sua execução. Talvez suas idéias tenham sido ousadas demais para a democracia (?) grega 🙄 Mas essa já outra longa história…
Mas antes, a rota passou pela Ágora Romana, que ocupa uma área bem menor ao lado e onde, além das ruínas, pode-se dar uma olhada em uma mesquita desativada e uma estrutura chamada Torre dos Ventos. Essa estrutura de mármore é datada do primeiro século a.C. e tinha no seu topo um catavento que se alinhava com uma das oitos esculturas, cada uma representando uma divindidade relacionada com o vento e a sua direção. Ajudava também na noção do tempo, já que no seu interior funcionava uma clepsidra movida a água da Acrópole. Não somente decorativa, mas aparentemente bastante útil essa torre.
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Dela, é só atravessar a rua e entrar na Ágora original. É uma grande área aberta, em formato vagamente retangular e cortada na sua diagonal pela via Panatenaica, que seguia até a Acrópole. As duas entradas para o sítio estão nos dois extremos dela, uma mais próxima de Pláka, por onde entrei, e outra perto dos barzinhos de Monastiráki.
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Logo à esquerda se vê um elemento fora do esperado, a igrejinha ortodoxa dos Santos Apóstolos, do séc XI.  Como sempre, é uma delícia encontrar essas pequenas jóias no meio da cidade, só fiquei um pouco triste com o estado de conservação da parte interna e das pinturas.
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As escavações arqueológicas e restaurações na Ágora começaram na segunda metade do séc. XIX e continuam até hoje. Mesmo assim, a maioria das estruturas ainda precisa ser recuperada e uma das poucas que já foram eleitas é a impressionante Stoa de Attalos.
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Até este dia nunca tinha ouvido falar nisso e já tinha visto duas…o que é isso exatamente, uma stoa? Eram construções com colunas nas laterais e cobertas, abertas ao público e multi-uso: normalmente destinadas ao comércio e arte, mas também a cerimônias religiosas. Para mim, essas atividades todas eram uma desculpa para o povo se reunir e fofocar :mrgreen:
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A Stoa de Attalos foi reconstruída na década de 50 e hoje abriga um museu. Apesar de saber que nada ali era original, a não ser o projeto, achei o edifício muito bonito e grandioso.
Outra restauração recente foi a das esculturas na entrada do Gymnasium…
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…no caminho para a construção mais bonita da Ágora: o Templo de Hephaistos (o Vulcano da mitologia romana, deus do fogo e dos metais).
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Contemporâneo da Acrópole, ele funcionou durante muitos séculos como uma igreja ortodoxa. É considerado o templo antigo melhor conservado em toda a Grécia e se encontra numa pequena colina, no meio de um bem-vindo jardim: ambiente adequado à admiração que realmente merece. Lindo, lindo…
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Aproveitei um banquinho numa pequena sombra para descansar e entrar em ‘êxtase místico’ com tanta beleza na frente…bem nesse ângulo que vocês vêem na foto.
(Geeente, esse lugar não é demais mesmo? :mrgreen: )
Ir embora foi difícil, eu só queria ficar por ali, tentar gravar aquela cena para poder relembrar mais tarde e sempre. E por isso mesmo decidi voltar direto para o hotel: aproveitar para descansar e refrescar, deixando o templo como última memória do dia.
Mas última mesmo? Hmm…acho que não. Finalzinho da tarde já estava pronta para botar o pé na rua de novo e decidi tentar as chances de um belo pôr-do-sol no Monte Lycabettus. Um táxi e um funicular mais tarde, estava no ponto mais alto de Atenas.
Falar que as vistas são inacreditáveis é chover no molhado. Do pequeno terraço, onde ainda cabe a pequenina capela de São Jorge, é possível ver Atenas em 360º. Até a Acrópole parece baixinha…e lindamente dourada.
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Dá também para ver o mar e as luzes de Pireus, o estádio Panatinaico, o templo de Zeus Olímpico, a montanha Ymittos e toda aquela infinidade de prédios quadradinhos, da mesma altura. Não há arranha-céus que possam atrapalhar a visão de todas essas maravilhas.
E eu, que achava que já tinha tido minha cota de beleza no dia, ainda fui presenteada com um final de tarde espetacular…
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Como é difícil ir embora dos lugares aqui, viu? Parece um pecado passar correndo, o mais correto parece sempre se estender por mais um pouco. E ainda um pouquinho mais 😉
A noite estava deliciosa e a escolha foi voltar a pé e bater perna por Kolonáki, o bairro mais elegante de Atenas. Cheio de lojas bacanas e cafés com mesinhas na calçada, num estilo parisiense. Mas os restaurantes estavam vazios, sinal de que o bairro ‘acontece’ mesmo mais tarde. O passeio então continuou até Pláka, um imã incontornável, o que se pode fazer? Não dá para resistir, ainda mais quando se acha uma praça arborizada cheia de restaurantes fofos 😀
Depois de um jantar leve, ainda coube no programa uma ida ao Teatro Dora Stratou, no sopé do monte Filopappos, para um programa de turista: ver danças típicas. Mas devo dizer que, ao contrário do que se vê por aí (preços altos, num restaurante medíocre e dançarinos de habilidade duvidosa), este é um programão, ótimo para quem gosta de um toque folk na viagem, como eu: num teatro ao ar livre em meio a um belo jardim, dançarinos e músicos apresentam vários ‘pedaços de Grécia’.
O espetáculo é dividido em várias partes, cada uma mostrando música, instrumentos, dança e roupas de lugares como Kós, no Dodecaneso, ou alguma aldeia na Macedônia. Dora Stratou, a fundadora do grupo, durante toda sua vida pesquisou e registrou, em livros, discos e em camarins, a memória do folclore grego. Seu trabalho com a criação do ‘museu vivo’ é internacionalmente reconhecido e respeitado.
As seis danças são trocadas freqüentemente e, pela variedade no pouco visto, são só um gostinho do que é a diversidade cultural grega. Para quem gosta, com certeza vale a pena e as apresentações só acontecem no verão.
E depois de um dia inesquecível…voltar para a ‘casinha’. A pé, já que foi difícil um táxi disponível 🙄 Será que um dia me acostumaria? 😛
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Verdadeiros clássicos

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Atrações importantes exigem preparação: para visitar a Acrópole, a primeira coisa que queria era chegar cedo. No dia anterior, vi do café da manhã muitas e muitas formigas já andando para lá e para cá no topo, mesmo não sendo alta temporada.
Consegui um taxista razoavelmente amigável que levou até o topo (é possível também ir a pé, com tempo e pique). Lá, mais preparativos: água (às 8 da manhã o sol já estava de rachar mamona) e mais um guia…impresso, pois os de carne e osso queriam a bagatela de 80 euros  🙄
Como já disse antes em algum outro post, eu me peguei nesta viagem com uma certa preguiça dos grandes pontos turísticos. Muita gente, tudo muito caro…essas empreitadas exigem preparação de espírito e uma boa consideração dos aspectos práticos também. Mas a Acrópole era um caso especial…Vi esse lugar especialíssimo pela primeira vez num cartão postal que recebi quando era menina, de uma pessoa mais que especial também. Fiquei maravilhada com aquela imagem e, na minha ingenuidade, nem imaginei que um dia poderia vir a visitá-la pessoalmente.
Quando me vi ali, dentro do complexo, fiquei muito emocionada…e ainda fico, só de estar escrevendo sobre aquele momento: uma parte por estar concretizando um sonho de criança, outra por estar de cara com toda aquela beleza e muito por estar com saudades de duas figuras mais que amadas que ficariam muito felizes também por eu estar ali…
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E, por incrível que pareça, outra lembrança que esta visita me trouxe e que me acompanharia em outros lugares na Grécia foi a de Monteiro Lobato. Sim, que criança não sonhou em conhecer o país depois de ler O Minotauro ou Os doze trabalhos de Hércules? Naquela época, eu tinha construído uma Atenas dentro da minha cabeça e me teletransportava para lá… 😀
A Acrópole de Atenas (sim, porque existiam outras ‘cidades altas’, como a de Lindos, que visitei depois) foi um ponto ocupado desde o período pré-histórico e não era de se admirar, dada a sua posição ultra-privilegiada. Depois de muitas eras e templos construídos (e destruídos) em honra a Athena, deusa da sabedoria e responsável por dar aos homens a utilíssima oliveira (um belo mito), o complexo que finalmente vemos hoje foi fruto dos esforços do estadista Péricles.
Só a história desse moço daria motivos para volumes e mais volumes, mas basta por aqui falar que sua personalidade, polêmica e cercada de incertezas pela falta de biógrafos próximos, liderou Atenas como cidade-estado durante tempo e legado suficiente para dar ao período do seu governo o nome de ‘século de Péricles’. Reconstruiu a cidade depois das Guerras Médicas e a embelezou, incentivou as artes e a literatura, incentivou a união entre as cidades-estado gregas. Mas também criou animosidade entre Atenas e Esparta, explorou outras cidades-estado e desviou dinheiro público, entre outras acusações.
Qualquer que tenha sido realmente o resultado de sua passagem pela história grega, o fato é que a Acrópole e seus monumentos resistem desde o século V a.C., mesmo com os guindastes sempre lá, atrapalhando um pouco a paisagem. E a primeira destas estruturas que se vê  no complexo é justamente o Propileu, o portal de entrada com sua  imponente colunata. Ao seu lado direito fica o templo de Athena Niké, deusa da vitória, que não aparece na foto do Propileu abaixo, ao contrário de centenas de companheiros turistas 🙄 Ainda bem que, ao tirar essa foto, já estava de saída :mrgreen:
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Logo depois já pode ser visto à esquerda o Erecteion, templo dedicado à Athena, mas também a Posêidon e Erecteu, antigo rei ateniense. A sua característica mais conhecida é o pórtico das Cariátides, em que cada coluna foi substituída por uma escultura feminina, também chamada de koré (é a equivalente feminina do kouros, lembram-se?)  
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As mocinhas que estão hoje no templo, no entanto, são réplicas. As originais estão bem protegidas no Museu da Acrópole, criado para abrigar as peças encontradas na escavação do sítio e que não pude visitar, infelizmente. O edifício antigo está sobre a Acrópole, mas estava se tornando pequeno para a quantidade de peças que poderia ser exposta…Então, o museu está fechado desde 2007 preparando-se para a mudança para um novo espaço na base da colina (e exatamente atrás do hotel). A contrução do novo museu já se arrasta por décadas e por várias competições para escolher o arquiteto e projeto, mas agora se aproxima o final da novela. Ou quase, já que a data de inauguração original passou há um certo tempo 🙄
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Enfim…voltando ao Erecteion, ele tem um perfil interessante, já que foi construído num terreno irregular – portanto o pórtico do lado oposto ao das cariátides tem um pé-direito bem mais alto e é grandioso. E ainda abriga uma oliveira, para lembrar o vínculo da deusa com a cidade da qual é protetora.
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E finalmente, do lado direito de quem entra…o maravilhoso Parthenon.
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Principal construção na Acrópole e ícone do mundo grego clássico, o Parthenon era o templo principal dedicado a Athena e seu projeto foi entregue ao escultor Fídias, responsável pela estátua gigantesca da deusa que se encontrava no interior, feita de marfim e ouro. Desaparecida, claro. Mas ele também criou as obras de arte que são os frisos, internos e externos, e os frontões do templo.
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O tempo não foi muito amigo com as lindas esculturas do Parthenon…especialmente se se considera a destruição resultante dos ataques venezianos ao paiol de pólvora abrigado no seu interior (!) na época da ocupação otomana. Mas o grande vilão da história, para os gregos, é mesmo Lord Elgin, que no início do séc. XIX retirou as esculturas e as levou para a Inglaterra, com o intuito de ‘preservá-las’. O fato é que preservadas estão, mas no Museu Britânico – e o governo grego tenta já há algum tempo conseguir os frisos de volta, mas por enquanto o museu é irredutível.
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Hoje boa parte das peças vistas são réplicas e as últimas que restam devem provavelmente ser retiradas para exposição no novo museu da Acrópole. As pobres sofrem com a poluição pesada da cidade…
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Essas construções e esculturas todas só foram possíveis com o transporte de blocos de mármore desde o Monte Pentélico, perto da cidade. A pedra é muito bonita, branca e uniforme, mas que dá um tom dourado conforme a incidência de sol nela.
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Além de todas essas maravilhas de cair o queixo, a Acrópole ainda apresenta vistas incríveis de toda Atenas, como essa abaixo, do Monte Filopappos, o Pireus, ilhas (Salamina?) e o mar ao fundo.
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A essa altura do dia, o sol já estava ficando forte demais e, depois de aproveitar bem a visão que o dia claro proporcionava, me despedi da Acrópole e comecei a descer. Mas a colina ainda tem muito a oferecer, começando com o teatro de Herodes Ático.
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As construção dele é bem posterior ao restante da Acrópole, datando da época da ocupação romana, no II séc d.C.  Depois de muito tempo semi-destruído e coberto por entulhos, foi restaurado em meados do séc. XX e hoje recebe concertos e shows, como o Festival de Atenas, que acontece sempre no verão, de junho a setembro. Pena que não ter conseguido ingressos para as últimas atrações…
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Continuando a descida, é preciso olhar para trás em determinado momento para ver a Stoa de Eumenes…
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…antes de chegar ao Teatro de Dionísio. (O novo museu da Acrópole é esse prédio moderno à direita na foto.) 
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As grandes tragédias foram encenadas neste teatro, construído entre o séc. V e IV a.C., o mais antigo da Grécia e modelo para muitos outros construídos na época antiga. E, apesar de ainda restar pouco do edifício original, é possível ainda ver a orquestra, onde se apresentavam não só o coro e os instrumentos, mas também os atores.
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Algumas das cadeiras aparentemente reservadas às autoridades e convidados importantes ainda restam…assim como algumas figuras interessantes 😀
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É impossível não imaginar dramaturgos como Ésquilo, Sófocles, Eurípedes e outros grandes, possivelmente estreando suas tragédias aqui, neste mesmo espaço. As emoções experimentadas por todos aqueles que já passaram por aqui, impregnadas no ar e nas pedras da platéia. O único porém era o sol, queimando muito forte e dificultando a imaginação, já que devia ser muito difícil ter atividades neste teatro com o sol a pino…
A essa altura só restou terminar a descida da colina e entrar em Pláka e no mundo moderno, procurando uma cerveja desesperadamente 😉

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