Deslocados no espaço…e no tempo

              As fotos abaixo podem confundir os que observaram a categoria deste post e seus tags: o que mosteiros medievais têm a ver com Nova York?


              Um tem tudo a ver com o outro desde a década de 30, quando foi construído The Cloisters: um museu especialmente dedicado à arte medieval, ligado ao Metropolitan Museum of Art.

              O maior entusiasta e patrocinador deste início foi o industrial John D. Rockefeller Jr., que doou sua coleção particular para formar o acervo. O museu é excepcional por uma série de razões, sendo uma delas resultado também de sua iniciativa: após adquirir terras ao norte da ilha de Manhattan, ele as cedeu para a construção do Cloisters, um museu instalado no lindo Fort Tryon Park.
              Além do prazer de estar numa área tão bucólica e pouco conhecida dentro de Nova York, as vistas que se têm dos mirantes do museu são fantásticas: ele está num ponto alto, na beira do rio Hudson. E, como se ainda não bastasse, a outra margem é também um parque: um belíssimo conjunto de falésias e mata (também doado, com objetivo de preservação, por Rockefeller para New Jersey). É uma deliciosa sensação ter uma visão inesperada dessas numa cidade tão explorada/estudada/destrinchada turisticamente como Nova York!

              O mais curioso é que eu sempre recomendei a visita para quem me perguntava sobre a cidade, mesmo sem nunca ter ido ao lugar. Um grande amigo meu acatou a sugestão e voltou maravilhado…e surpreso por saber que eu ainda não o tinha visitado 😀  Eu não sabia deste anexo do Metropolitan na primeira vez em que estive na cidade, há uns 15 anos atrás, e nesta vez eu não perderia a oportunidade.
              Para começar surpreendendo-se, não espere um edifício convencional: o Cloisters é uma réplica de mosteiro medieval. E antes que soe como algo ‘disneyano’, a razão para isso é também justamente o porquê do nome – The Cloisters é justamente uma coleção de…claustros!
              O museu adquiriu de coleções particulares grandes partes de claustros franceses, além de outras estruturas medievais, e os remontou, estruturando todo o museu em torno deles. Com isso, ao andar pelo museu, você se sente em uma estrutura híbrida: paredes com blocos autênticos entremeados com réplicas, tudo muito bem sinalizado, demonstrando onde termina o original e onde começa o complemento atual, como se percebe claramente na parede da direita, na foto abaixo…

…além de portais de pedra medievais em paredes reconstruídas e outras combinações incríveis do novo recebendo o antigo.

              Surpresa e encantamento são as sensações de quando se entra no primeiro claustro, o de Saint-Guilhem-le-Désert, do mosteiro no Languedoc. A luz entra no ambiente por um belo teto de vidro que filtra de maneira etérea os raios de sol…

…lançando um jogo de sombras sobre a colunata esculpida no século XI: uma seqüência originalíssima de diferentes padrões de escultura – flores, ondas, padrões geométricos, folhas…

              Uma pequena fonte tem o poder de movimentar essa beleza austera com a sempre bem-vinda água, além de trazer um barulho suave ao ambiente, cheio de turistas boquiabertos e silenciosos.

              Sempre me fascinou o fato de se encontrar tão longe de sua localização original, num país de contexto histórico totalmente diferente e como tudo isso aconteceu. Na verdade, a história do claustro de Saint-Guilhem é a mesma de tantos outros mosteiros e construções religiosas na época da Revolução Francesa: os monges foram expulsos pelo movimento, suas obras de arte vendidas e a estrutura ocupada para fins produtivos ou simplesmente abandonada.
              Neste caso, as peças do claustro foram parte de uma saga que envolveu uma grande dose de descaso e mesmo de dilapidação (um construtor que adquiriu o lugar o usava como ‘pedreira’), com fases em que caíram em mãos interessadas na preservação: é caso do juiz que adquire, no século XIX, uma parte significativa do claustro, sendo revendido depois para um antiquário, vindo a cair finalmente nas mãos de um escultor americano, Georges Gray Barnard, de quem Rockefeller comprou a coleção, junto com as peças dos outros três claustros do museu.

              Até hoje a cidade lamenta a perda do patrimônio histórico, reivindicando que o claustro é melhor entendido dentro do contexto de Saint-Guilhem e de seus belos entornos, mas o fato é que é um verdadeiro milagre que uma parte deste claustro tenha sobrevivido a tantos eventos desgastantes. Seria realmente desejável que estivesse em seu lugar original, mas é um alívio saber que tais obras de arte estejam a salvo para que hoje possam ser admiradas e estudadas.
              O centro do museu é ocupado pelo seu claustro mais imponente, vindo do mosteiro beneditino de Saint-Michel-de-Cuxa, nos Pireneus. Quando se entra nele a impressão é de ter se transportado para o interior francês: mais que em outros claustros do museu, aqui se sente a força do desenho medieval, tanto na estrutura como na decoração.

              O sol do alto verão entrava com força total no jardim e transbordava para as galerias do claustro: com uma luz dessas, difícil não sentir o alto astral – o melhor a fazer é se sentar e apreciar. Uma bela fonte ao centro, as flores…






  

  …as colunas entalhadas com cenas bizarras, que se tornavam menos soturnas, curiosas até, com o brilho do sol sobre elas.

              O claustro, do século XII, tem uma história muito parecida com aquele de Saint-Guilhem, tendo sido também adquirido por Barnard depois de muito garimpar as peças na região do mosteiro e em Paris. Mas existe uma diferença fundamental: Saint-Michel possuía dois claustros, sendo que ainda existe um deles no mosteiro. A torre do Cloisters é uma réplica da original em Cuxa, assim como as telhas que cobrem as galerias: é fácil perceber em todos os detalhes a maneira cuidadosa como o museu foi concebido.

              O claustro de Bonnefont-en-Comminges tem uma bonita colunata, mas montadas somente em duas laterais (provavelmente não deve ter sobrado muito do original)…

…e o que realmente chama atenção aqui é o jardim que foi projetado no centro, além de uma réplica de capela gótica em um dos cantos e a linda visão do Hudson abaixo.




              O Cloisters teve o cuidado de compor seus jardins com plantas, flores e ervas cultivados na Idade Média, para tentar recriar o mais fielmente possível o ambiente da época. O jardim de Cuxa é principalmente ornamental, enquanto o de Bonnefont é o mais usado em cursos e tem a maior amostra de ervas medievais do museu.

              Ele realmente se parece mais com um hortinha organizada do que com um jardim. É muito aconchegante e familiar: nessa hora dá vontade de ter trazido um livro para se sentar numa sombra e curtir a visão do verde em primeiro plano no jardim e também ao fundo, na moldura que faz o parque.

 

              Um livro para curtir os jardins é requisito para aproveitar um dia inteiro no museu, mas não é preciso se preocupar com o almoço: é possível comer um sanduíche e outras coisinhas no café do Cloisters. Suas mesas ocupam a galeria do claustro de Trie-en-Bigorre e seu lindíssimo jardim: a idéia é recriar os campos de flores silvestres vistos nas tapeçarias medievais.

              Mas não é só de claustros que o museu é feito: seu acervo é enorme e engloba também a famosa série de tapeçarias com o tema do Unicórnio, vitrais (que decoram a capela gótica), coleção de esculturas, iluminuras e portais em pedra, entre muitas outras obras de arte.


              Uma das melhores salas é a abside da igreja de Fuentidueña, vinda por empréstimo do governo espanhol. O ambiente recriado da igreja expõe muitas peças, mas as preciosidades são mesmo este crucifixo do século XII, executado em policromia e muitas pedras incrustadas, e o afresco catalão da mesma época, retratando a Virgem e o menino Jesus, os arcanjos e Reis Magos. Aqui me lembrei de outro grande museu de arte medieval, o Museu Nacional d’Art de Catalunya, em Barcelona, com seus maravilhosos afrescos.








              Concertos de música medieval são também uma atração aqui e são realizados nesta mesma capela. Certamente uma experiência belíssima, assim como os concertos realizados em mais um museu referência na área, o Musée Cluny, em Paris: um privilégio que pude presenciar.
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              É possível chegar até lá pela linha A do metrô (Take the A train…) até a estação da rua 190 e andar um pouco ou pegar o ônibus M4 por somente uma parada. A alternativa é vir de táxi, pegando a via expressa que margeia o rio, cuja saída para o Cloisters fica logo depois da ponte George Washington.
              Em cartaz: Até o dia 13/06/2010 é possível ver a exposição The Art of Illumination: The Limbourg Brothers and the Belles Heures of Jean de France, Duc de Berry, no prédio do Metropolitan. Para quem está na cidade e não quer ir até a pontinha de Manhattan, esta é uma oportunidade para ver um pedaço do acervo.
(fotos de Arnaldo e Emília)

Um pezinho na Ásia


Religiosa e laica, moderna e cheia de história, enorme e acolhedora, européia e…asiática. Istambul tem em seus antagonismos uma de suas maiores atrações e boa parte do seu mistério vem exatamente de se encontrar metade em um cada continente. Para quem nunca esteve na Ásia, Istambul é um amuse-bouche do que o continente pode oferecer e mesmo sem atravessar o estreito, já que a maioria dos pontos de interesse está em solo europeu. Mas estar na cidade e não colocar os pés naquele pedaço asiático é uma judiação.
E o interessante é que, do outro lado do Bósforo, a cidade realmente tem uma cara diferente, menos turística e mais residencial, onde a maioria dos bairros é formada por pessoas vindas do interior da Turquia, especialmente em Üsküdar. Para chegar aos diversos pontos dessa costa, pode-se tomar um dos ferries que saem regularmente do pier de Eminönü e fazem travessias pontuais ou um dos navios da IDO (que também atua com ferries) que fazem o cruzeiro do Bósforo, parando em vários pontos nos dois lados do estreito.
Um destes últimos é a opção para se chegar até Anadolu Kavağı, uma vila de pescadores que é o último ponto do estreito antes de se chegar ao Mar Negro. Esta é a única parada longa do barco, onde se tem tempo para comer e também visitar o castelo bizantino, com sua construção típica de pedras intercaladas com tijolos (que também pode ser conferida nas ruínas das muralhas ao redor da cidade). Pouco resta da sua estrutura e não ajuda muito o fato de não ser vigiado: visitantes escalando as ruínas, cães sem dono rondando o lugar e um descaso geral com a manutenção dão a impressão de abandono.

No entanto, a posição privilegiada do castelo permite uma visão sem obstáculos da desembocadura do Estreito do Bósforo no Mar Negro.

Talvez esse seja um ponto de pouco interesse para um turista em sua primeira visita a cidade, mas o fato é que boa parte da atração de Istambul se deve à sua posição estratégica, controlando o fluxo comercial entre a Ásia Central, Rússia e países do Cáucaso até o Mediterrâneo, inclusive o explosivo petróleo, que vem do Mar Cáspio por oleodutos e segue pelo Mar Negro para o resto do mundo. Para mim, todas as regiões banhadas por ele têm um apelo irresistível e, ao olhar para a imensidão que se abria à minha frente, não pude impedir que minha mente viajasse um pouco pela Romênia e Bulgária, Rússia, Georgia (e um pouquinho mais adiante, Armênia, Azerbaijão…)

Pela sua importância estratégica, a região toda em volta do castelo é de ocupação militar, tendo suas bonitas praias acesso proibido. Mas nada impedia os ornitólogos de se fixarem sobre o morro, estudando as migrações dos pássaros da região…

É possível voltar no mesmo barco ou voltar de táxi ou ônibus (linha 15A), passando pela simpática vila de Beykoz. Uma boa alternativa aos rústicos restaurantes de Anadolu Kavağı (e cheio de chamadores de turistas!) é aquele que fica em Hıdiv Kasrı, um palácio pertencente ao último governante hereditário do Egito, que o usava como sua residência de verão.

O lugar é deslumbrante, começando pelos seus jardins extremamente bem-cuidados e a linda vista do Bósforo e da lado europeu da cidade. Mas impressionante mesmo é o palácio em si, uma construção suntuosa que mistura art nouveau e decoração otomana e foi recentemente restaurado. O restaurante é lindo e sua comida deliciosa (só não serve bebidas alcoólicas).

Pensando bem, todo o conjunto da obra é encantador e pede por mais tempo para andar pelos jardins e relaxar. Mas não há muito tempo se quiser pegar o mesmo barco que ficou na primeira parada e pode parar no vilarejo de Kanlica se voce pedir ao funcionário do cais para avisar ao navio. Pois é…ele pode parar só para você 😀

Enquanto espera o barco, é sempre bem-vindo um iogurte feito na vila, que faz uma concorrência séria aos deliciosos iogurtes gregos. É uma ótima companhia no contemplar do brilho do sol na água e da rotina tranqüila de Kanlica…

Daqui o barco segue para seu destino final, Eminönü, com uma última parada no cais de Beşiktaş. Descer aqui é uma alternativa se a idéia a continuar viagem tomando um ferry de linha para Üsküdar, atravessando novamente o estreito para estar praticamente na desembocadura do Bósforo no Mar de Mármara. O bairro é uma das ocupações humanas mais antigas da região, anterior mesmo à fundação de Bizâncio e hoje é um dos lugares menos turísticos da cidade e mais pé-no-chão, algo próximo do que esperar do dia-a-dia do istambulita médio, que volta do trabalho, vai fazer compras, segue para a mesquita…É o lugar também para observar os jovens que se reúnem à beira d’água, nas interessantes arquibancadas acolchoadas com tecidos e almofadas coloridos, jogando conversa fora no final de tarde…

Fica aqui neste bairro também o barquinho que faz a ligação com Kız Kulesi, uma torre do século XVIII numa pequena ilha entre a margem em Üsküdar e Saray Burnu, a ponta da península de Sultanahmet.

Desde o período antigo sempre existiram faróis e controles de pedágio pela localização na entrada (ou saída?) do Bósforo. Mesmo que uma função prática fosse mais que evidente, muitas lendas surgiram neste pedacinho de terra, entre elas o mito grego de Hero e Leandro: ele atravessava o estreito todas as noites para se encontrar com a sacerdotisa de Afrodite, na torre onde ela morava. Como punição por ter perdido a virgindade, a deusa um dia faz surgir uma tormenta e Hero vê Leandro se afogar, se atirando da torre em seguida, em desespero. Como já dissemos algumas vezes aqui neste blog, os deuses eram mesmo muito cruéis. Enfim, mesmo que estudiosos sugiram que o local mais correto do mito fosse o Estreito de Dardanelos, mais ao sul, um dos nomes da ilha continua a ser Torre de Leandro.

Outra lenda conta a história de uma donzela a qual um oráculo previu sua morte por envenenamento e seu pai a tranca na torre para evitar a tragédia. Mas ela recebe uma cobra entre frutas que um barqueiro oferece (os senhores pescadores da foto abaixo são inocentes!) e ela sucumbe ao veneno do bicho. (Ah, os contos de fadas só mudam mesmo de endereço, não?) Daí surgiu mais um nome do lugar: Torre da Donzela, que ficou até hoje e que é também a tradução do seu nome turco.

Mas para ser sincera, o que fisgou a curiosidade pela primeira vez foi um 007, O Mundo não é o bastante, onde Sophie Marceau e Robert Carlyle decidem explodir Istambul para controlar o comércio de petróleo na região. Mas assim como foi em Meteora, o local não tem nada a ver com os cenários do filme, claro.



Mas isso nem de longe é um problema, pois a principal atração da torre é mesmo uma vista maravilhosa do pôr-do-sol, tingindo Üsküdar de dourado e escurecendo Sultanahmet, o que só reforça seu lindo perfil. A torre tem um café no último andar, onde um chá é o acompanhamento perfeito para para descansar as pernas e os olhos, depois de um longo dia de explorações…

Com sabão, com afeto


O banho hammam está longe de ser uma unanimidade entre quem visita a Turquia. A idéia do banho coletivo, o constrangimento de ser esfregado publicamente, as dúvidas em relação à limpeza do local e a incógnita sobre a etiqueta do ritual: tudo isso afasta o turista da experiência, o que é uma grande pena. Para começar, é melhor escolher um lugar recomendado pelos guias: vai estar cheio de turistas como eu e você, mas é melhor para entender o espírito do negócio – depois fica mais fácil se aventurar pelos hammans freqüentados pelos locais. Duas boas opções e bem localizadas (em Sultanahmet) são o Cağaloğlu e o Çemberlitaş – este último foi o que escolhi. 
Pesou na escolha o fato dele ter sido construído no século XVI pelo grande arquiteto Sinan e ser famoso pela beleza das instalações. Pelo visual externo não dá para ter uma idéia, assim que se chega ao portãzinho escondido no meio de lojas, em plena esquina da Divan Yolu, mas o espaço é grande e ao mesmo tempo aconchegante, a começar pela salinha da recepção. É ali que se escolhe o tratamento e se paga: pode ser só o acesso ao hammam para sauna e banho, o serviço de banho ou este mais uma massagem. Fiquei só com o do meio, que era o ritual que me interessava.

Com uma fichinha indicando o serviço desejado e uma luva esfoliadora descartável nas mãos, fui conduzida ao lado feminino: para começar, uma área de descanso espaçosa, com sofás típicos, fonte e trocadores no mezanino. A escolha de ficar como veio ao mundo ou de calcinha é da freqüentadora, enrolando-se depois no pano que te oferecem, o pestemal. Um par de crocs e o modelito está perfeito para o banho. Uma porta pesada de madeira separa a salinha de descanso das senhoras que te lavarão da sala quente.

Esta é a principal área do hammam, composta de uma plataforma quente octogonal, com fontes de água quente e fria ao redor, lindamente decoradas, algumas dentro de salinhas mais privadas. O primeiro passo é achar um espaço entre outras turistas nessa plataforma central, estender a sua canga, digo, pestemal, e se deixar suar e relaxar…coisa que acontece muito rapidamente, posso garantir. A sensação de estar participando de um ritual histórico é empolgante e ajuda muito a beleza da sala, a sua cúpula vazada com vidro, deixando passar a luz de fim de tarde…Uma atmosfera muito própria para relaxar, meditar, se divertir.

Depois de um bom tempo na moleza, surgem as ‘lavadoras’, só de calcinha: elas entram e se posicionam em cada lado da plataforma e vão indicando com um gesto firme – ‘Você: aqui!’. Ao ver o porte delas, ninguém questiona, mas já pensa na esfoliação, ui! Você estica o seu pano na beirada e começa o processo com a luvinha que você entregou a ela: é uma esfregação vigorosa, mas no meu caso esteve longe de ser desagradável, não precisei dar um toque para relaxar a pressão. Aliás, é um alívio ver toda aquela pele morta indo embora. Depois de uns baldes de água, eu estava pronta para a segunda parte: um banho com muita espuma e uma leve massagem…É engraçada a sensação de alguém estar ali te esfregando, algo tão comum que nem damos a devida atenção ao banho no dia-a-dia. Aconselho a aproveitar.
Depois disso mais um enxágüe e ela te encaminha para uma das fontes. Sentada sobre o seu pano, ela vai lavar o seu cabelo e enxaguá-lo. Voilà! Está quase pronto o banho, agora é a sua vez de se recolher às salinhas com mais privacidade e lavar as partes íntimas.

Limpa e esfoliada, a dúvida agora é ir embora ou voltar para a plataforma e relaxar mais um pouco, bater papo com a mulherada, tomar mais um banho faça-você-mesmo e voltar a suar…É muito interessante o clima coletivo e íntimo ao mesmo tempo, uma coisa meio ‘fraternidade feminina’, apesar da clara divisão locais trabalhadoras – turistas branquelas relaxando. Não sei qual é o clima da ala masculina, mas as salas são parecidas, assim como os tratamentos – a única diferença é que os homens são convidados a manter o pestemal enrolado na cintura.
Caso você queria se aventurar pelo mundo dos hammans, sugiro que vá logo no primeiro dia: você pode até não gostar, mas se isso acontecer…vai querer ir todos os dias!
(Todas as fotos pertencem ao site do Çemberlitaş Hammam)

Caça aos vestígios bizantinos

Apesar de ter sido capital do império bizantino, muito pouco dele ainda resta preservado em Istambul. Um dos melhores exemplares fica num bairro distante do centro, no limite da antiga cidade,  junto às muralhas erguidas pelo imperador Teodósio no século V: a igreja de Chora, transformada em museu – Kariye Müzesi.

Chegar até lá exige um longo trajeto de táxi ou uma combinação de meios de transporte – de Sultanahmet toma-se o bonde no sentido Zeytinburnu (oposto ao que vai para Beyoğlu, afastando-se do Corno de Ouro) até a estação Yusufpaşa, de onde se vai, com uma caminhada pequena, ao metrô – estação Aksaray. Duas estações a frente, Ulubatlı e uma corrida de táxi de dois minutos e se está na Igreja de São Salvador em Chora (Parece coisa de maluco? Talvez seja, mas a blogueira aqui é uma grande entusiasta do transporte público – fiquei especialmente fã dos bondes modernos daqui – e nada empolgada com os taxistas locais, depois de cair no conto do vigário de um deles.)
Neste pequeno trajeto de táxi é possível dar uma boa olhada nas muralhas, ou o que restou delas, nos trechos em que não houve reconstrução: foram elas que ajudaram a cidade a resistir tanto tempo à invasão otomana no século XV. Apesar de imponentes e interessantíssimas do ponto de vista histórico e arquitetônico, não é recomendado o passeio a pé na sua extensão, por passar por trechos inseguros.
Aliás,  Edirnekapı, já distante do burburinho dos bairros mais turísticos, se revela bem mais tradicional e conservadora do que a Istambul cosmopolita de Taksim ou Nişantaşi, o bairro da moda. Os moradores aqui são originários, em grande parte, do interior e foi aqui o maior índice de abayas vistas na cidade. O ritmo é lento, as ruas são de paralelepípedo e as casas, de madeira.

(Um parêntese grande: a quantidade de mulheres em abayas é pequena – a grande parcela da população feminina se divide entre usar a roupa ocidental moderna ou a dupla véu + sobretudo, que normalmente é colorida e combinando entre si. O interessante é que não há divisão entre elas: um mesmo grupo familiar ou de amigas pode conter tanto o kit véu como barrigas de fora. Conversando com uma canadense que já tinha morado na Turquia, ela me confirmou algo que já tinha lido em várias fontes: hoje em dia as mulheres optam por usar o véu, mesmo em famílias não-conservadoras, como uma maneira de pontuar a sua posição política pró-Islã e também como forma de reforçar sua identidade cultural. Esse aumento no uso de véus é polêmico no país, uma vez que a Turquia insiste em manter as conquistas seculares de Atatürk, além de tudo o que envolve a questão do ingresso ou não do país na União Européia. Sobre esse assunto, recomendo a leitura deste post instigante da Flavia Penido.)



Apesar da igreja original ter sido erguida na época da construção da muralha, a construção atual é do século XI. Mas o que realmente interessa em Chora é o seu interior: a igreja inteira é tomada por mosaicos dourados, que contam histórias da bíblia com detalhes e uma delicadeza tocante, além de pedaços onde os afrescos são predominantes.

Toda essa decoração só veio ser completada três séculos depois por ordem do governante da época, Teodoro Metochites: aqui está ele num destes afrescos, oferecendo a igreja a Cristo.

A igreja teve uma história parecida com Santa Sofia: foi adaptada para ser uma mesquita após a conquista pelos otomanos, com todas suas imagens cobertas com gesso. Foi transformada em museu em 1948 e a restauração que se seguiu revelou estas obras de arte, sendo que algumas das mais bonitas são as cúpulas, como esta de Cristo Pantocrátor e a sua árvore genealógica.

A maior parte dos mosaicos da Kariye Müzesi é sobre as vidas de Maria e de Cristo e são de uma grande delicadeza. É muito fácil reconhecer as cenas aqui e ali: Joaquim e Ana apresentando a pequena Maria ao templo…


…o emocionante encontro de Ana e Joaquim – os dois quase num beijo, o nascimento de Cristo, a fuga para o Egito, as cenas horríveis dos infanticídios por ordem de Herodes, os milagres de Cristo, como as bodas de Caná…

Existe a dificuldade de tirar fotos, já que essas cenas estão em sua maioria no teto e paredes altas, mas é grande a diversão em olhar os mosaicos e ver as histórias, como se fosse uma grande história em quadrinhos medieval…além da delícia que é ver tanta beleza concentrada.

Alguns deles ocupam paredes inteiras e, como se não bastasse o tamanho e a proximidade, são ainda obras primas… destas, acredito que a mais impactante seja a de Cristo Khalke: o rosto é tão maravilhosamente trabalhado que parece uma pintura, não mosaico. A expressão do seu rosto atrai e é difícil desviar o olhar. A roupa tem caimento e brilho (minhas fotos não fazem justiça, vocês vão ter que acreditar em mim 😉 )

Em comparação com o nártex interior e um dos externos, que brilham com o dourado dos mosaicos, a nave fica pobrezinha. Seria uma sala vazia se não fosse por umas poucas obras, entre elas uma bonita versão da assunção de Maria.


Depois de tal overdose de beleza, ainda falta conferir o lado B de Chora: o outro nártex, inteiro tomado por afrescos incríveis…

…sendo que o mais famoso é o Anastasis, onde Cristo levanta Adão e Eva dos seus túmulos…impossível não admirar as cores e o movimento das roupas…


…os rostos desenhados são cheios de emoção, tão delicados…

Os afrescos são da mesma época dos mosaicos e muitos foram recuperados: apesar dos pontos irrecuperáveis, é bom saber que a maior parte foi trazida de volta à vida.

Chora é um desses lugares onde dá para ficar horas fuçando, de boca aberta, e ajuda no clima o fato de ser pouco visitada. Se depois de tudo a fome apertar, a sugestão é descansar as pernas e comer logo ao lado, literalmente, no Asitane. A proposta do restaurante é resgatar a cozinha palaciana do período otomano: saber se as receitas são autênticas está fora da minha alçada, mas a comida é deliciosa, sofisticada, cheia de aromas. Aprovado por esta blogueira.

Uma possibilidade de roteiro (que eu não segui por falta de tempo) é continuar o passeio por este canto da cidade pouco explorado, visitando os bairros de Balat e Fener, onde convivem comunidades judaicas e gregas. Igrejas ortodoxas, sinagogas e mesquitas à vontade para escolha, mas o ponto mais famoso dessa região é a mesquita do bairro de Eyüp, um ponto de peregrinação e de circuncisão de meninos aos domingos. Depois de tudo, é recomendada uma parada para uma bela vista no Pierre Loti Café.

No reino sufi


Há muito tempo, eu me lembro de ter visto uma cena dos dervixes rodopiantes e aquilo me fascinou, que cena de grande beleza… Passou muito tempo e, quando estava pesquisando a cidade, vi que existiam alguns lugares em que a cerimônia sufi (uma corrente mística islâmica), chamada sema, era aberta ao público.
Na verdade, a cidade base da ordem mevlevi – a mais conhecida ordem sufi – é Konya, onde viveu e se estabeleceu Rumi, teólogo e fundador da ordem no século XIII. Mas ficam em Istambul também alguns mosteiros, como o Mosteiro Mevlevi em Galata, onde o cenário é perfeito para entrar no espírito da cerimônia.

(foto de www.igougo.com)
Infelizmente o mosteiro estava em reformas e fui para a segunda alternativa. Aliás, alternativa mesmo: um mosteiro num bairro distante de Istambul, poucos turistas…mas o meu timing na cidade não permitia (informações com o pessoal da Les Arts Turcs).
A terceira opção era uma cerimônia numa das salas da estação de trem de Sirkeci, à beira do Corno de Ouro. Essa era a estação final onde parava o lendário Expresso do Oriente. Àquela época os glamurosos passageiros deveriam parar neste restaurante para se refrescar ao sair do trem…

…antes de cruzar a ponte de Galata, ali pertinho, rumo ao Hotel Pera Palas, do mesmo grupo. Puro luxo.
Hoje Sirkeci é base para várias linhas urbanas de trem e também para trens com trajetos longos. Nada lembra aqueles tempos áureos, mas para mim estações de trem têm um apelo irresistível, herança do meu querido pai, que adorava conferir as máquinas, ver o fluxo de pessoas e curiosar sobre os destinos…

Neste final de tarde, a velha locomotiva da TCDD (a companhia estatal turca de trens) estava acoplada a uma série de vagões talvez tão antigos quanto, da OSE (a sua equivalente grega), num roteiro Istambul-Thessaloniki que depois seguiria seu caminho com muitos turistas orientais a bordo.

Já havia fila para entrar no salão e pegar os lugares da frente…apesar de ter conseguido um bom lugar, as fotos ficaram péssimas 🙄 , mas seguem apenas para dar uma idéia do ambiente.

A primeira parte da apresentação é de música sufi, instrumental. Ali já se percebe um pouco o tom solene: a percussão, o toque oriental, o coro. Logo em seguida entram os dervixes, silenciosamente, portando a roupa tradicional da cerimônia, onde cada peça tem significado: o chapéu pontudo representa a lápide do ego (as lápides em cemitérios muçulmanos têm esse formato) e a saia branca rodada é a mortalha do mesmo. A entrada é feita com uma longa capa preta e, quando cada dervixe chega ao seu lugar de início, ela é retirada, simbolizando o renascimento do espírito. Um dos pontos essenciais para o rito sufi é a negação do ego para que se possa entrar em contato com o divino.

E então…começam o movimento de rodar, as mãos cruzadas no peito vão subindo como em um balé, os braços se desenrolando até se esticarem na altura da cabeça, a direita virada para o céu, para receber o amor divino, a esquerda para baixo, distribuindo esse amor entre os presentes à cerimônia e estendendo a toda a humanidade. Cada um tem sua vez de começar, até que todos estejam realizando um rodopio suave, contínuo.
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O processo todo é longo e cheio de detalhes e ele se repete algumas vezes durante cada cerimônia. O girar é ininterrupto e é difícil acreditar que eles possam realizar o movimento durante tanto tempo, equilibradamente: somente o transe explica poderem girar sem perderem o equilíbrio, com tanta harmonia. Pode parecer que o tédio toma conta, mas o efeito é hipnótico, ao ver o efeito e os detalhes de movimento de cada dervixe…um em especial era tão concentrado e leve que quase captava toda a atenção. Também não há como não se deixar tocar por essa jornada espiritual rumo ao divino, que é a essência da sema.
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A cerimônia termina e, um a um, vão deixando o salão…todos saem em silêncio, ainda sob a impressão do que se viu e ouviu. Para manter o espírito da noite, nada como sentar no banco da estação a tempo de ver, a partida do trem ao som da locomotiva e seus apitos, todo ele sumindo na curva, no escuro…

Sultanahmet: tudo acontece por aqui

Enfim, hora de ver os dois maiores símbolos de Istambul, ícones desta cidade que pode se gabar de ter duas das atrações interessantíssimas: Santa Sofia e Mesquita Azul.

As duas estão em todos os cartazes de divulgação turística e com certeza serão aquelas que você já deve ter visto nas primeiras páginas de qualquer matéria sobre Istambul em revista de turismo. E com razão, é difícil sair do clichê aqui: as duas formam um conjunto belíssimo, gigantesco e harmonioso, divididas pela deliciosa praça de Sultanahmet.
Começando pela incomparável, fantástica, única (a quantos clichês é permitido o uso a uma blogueira, hein?  😉 ): Santa Sofia.

As filas já estão a todo vapor logo cedo, os ônibus estacionados em frente, mas ela é grande (grandiosa é a melhor palavra) e acolhe com calma turistas de todas as nacionalidades, guias nas mãos ou à frente, com guarda-chuva ou bandeira, explicando tudo tintim por tintim. Santa Sofia, ou Ayasofya em turco, é uma atração turística com tudo a que se tem direito: muitos fãs e toda a razão em tê-los.

É uma construção que vem embasbacando pessoas há quase quinze séculos, pela sua beleza, monumentalidade, engenhosidade. Desde que foi planejada pelo imperador bizantino Justiniano para ser a principal igreja ortodoxa da capital do império e completada em 537 d.C., Santa Sofia permaneceu durante quase um milênio como a maior construção cristã do mundo. E teria ainda sido por mais tempo se não fosse pela conquista de Constantinopla pelos otomanos em 1453 (Vocês sem lembram? Queda do império romano do Oriente? Pois é, voltei ao meu tempo de colegial.) Foi aí que o principal templo cristão da principal cidade do mundo, na época, foi transformada em mesquita.

Muita coisa mudou em Santa Sofia com esse evento histórico: a construção de minaretes, alterando a estrutura externa do edifício…

…a adição de um mihrab, um minbar e outras estruturas próprias ao funcionamento da mesquita, e a cobertura de seus magníficos mosaicos dourados, retratando cenas bíblicas, com gesso – já que o tema não condizia com a condição atual de mesquita, além do islã proibir a representação de figuras humanas.

No início do século XX mais uma mudança: Atatürk (sobre quem eu já falei aqui neste post) decide que ela não será mais catedral cristã ou mesquita e transforma Santa Sofia em museu. E a partir daí começaram alguns processos de restauração que, graças a eles, turistas como eu e você podem ver alguns dos mosaicos mais lindos do mundo, recuperados depois de séculos em reclusão.

Mas vamos começar de maneira correta, o que significa admirar calmamente o seu exterior. Ela não passa despercebida, é uma senhora robusta e bonita em seu rosado de vários tons…Mas gostoso é mesmo se deixar levar por onde os olhos pararem: na cúpula imensa, na sua cor esmaecida, nos minaretes – diferentes uns dos outros. No próprio gigantismo. (Bom mesmo é poder observá-la em todas as luzes: de manhã e no final da tarde, com sol e no finalzinho da chuva…)

Uma vez dentro dos portões, dá para ver melhor os contrafortes adicionados ao longo do tempo para sustentá-la, uma vez que o edifício esteve muito dilapidado em várias etapas de sua vida. É possível também ver as escavações mostrando as basílicas anteriores à atual construção. Mas quando se adentra o nártex exterior e o interior é que se começa a ter idéia das dimensões da Ayasofia, além de oferecer ainda, como um aperitivo, um lindo mosaico sobre o Portão Imperial, de Cristo Pantocrator (onipotente).
Mas a passagem pelo Portão, em uma certa época restrita aos imperadores, revela uma das mais engenhosas obras já realizadas: a nave, onde a enorme abóboda flutua, apoiada em semi-abóbodas menores, padrão que ainda continua por mais dois patamares, até se ver que não existem pilares aparentes sustentando todo esse exagero: Santa Sofia foi planejada para que desse a impressão de estar sustentada pelos céus, e não plantada firmemente em terra.

(Difícil uma foto boa da abóboda, segue uma emprestada: www.tufts.edu)
A nave praticamente não ocupada (a não ser pelos andaimes, claro), juntamente com a luz que entra suave e rarefeita, ajuda a sentir a beleza do ambiente e é inevitável imaginar como teria sido a reação daqueles que estiveram presente à sua inauguração: sua incredulidade e maravilhamento.

Mesmo com os belos acréscimos islâmicos, o melhor aqui é se deter nos mosaicos: de longe o mais impressionante é o Deësis, do século XIII. O rosto de Cristo é fascinante, não se lembra do material de que foi feita a obra de arte, tal é o nível de detalhes e a sua expressão.

Ele fica na galeria superior, onde se pode ter também uma visão melhor da Virgem com o menino Jesus na principal semi-abóboda …





…além de outros mosaicos de parar e babar: o da Virgem com os imperadores João e Irene Comnenus, lindas expressões, serenas – século XII…

…e outro um século mais antigo, retratando Cristo Pantocrator com a famosa imperatriz Zoe e o seu último marido, Constantino. (Contam as lendas que o afresco teve o rosto masculino modificado algumas vezes para acompanhar a troca de maridos da poderosa e difícil Zoe…)

Ainda existem outros menores e com padrões geométricos, mas não se deve esquecer de virar para trás na hora de sair: um belo mosaico está na última câmera antes de voltar ao jardim – a Virgem e o Menino ladeados por  Constantino e Justiniano (este último com um modelo de Santa Sofia, consagrando-a).
Depois de tão importante visita e ainda ruminando o que tinha acabado de ver, apenas atravessei a rua para conferir um dos lugares sobre o qual eu mais tinha curiosidade: Yerebatan Sarnıcı ou a Cisterna da Basílica.

Construída por Justiniano no século VI (de novo ele…), ela armazenava água vinda de uma região próxima ao Mar Negro, através de um aqueduto que pode ser observado ainda hoje, pelo menos em parte (próximo à mesquita Süleymaniye). Esse reservatório de 80 mil metros cúbicos de água supria principalmente o Grande Palácio bizantino e boa parte do que é hoje o bairro histórico.

Pensar que essa espetacular obra tenha ficado desconhecida por tanto tempo…até o século XVI, quando um historiador francês ouviu histórias de moradores que coletavam água nos seus porões, misteriosamente, muitas vezes os baldes vindo com peixes! Sua entrada foi descoberta, mas infelizmente para a cisterna, a população e as autoridades não deram a devida atenção e durante alguns séculos virou depósito de lixo e outras coisas mais. Finalmente, em meados do século XIX começaram as restaurações e limpezas, que se desenrolaram até o final do século passado, quando foi aberta ao público em 1987. Até os peixes voltaram a dar o ar da graça…

Visita-se a cisterna por passarelas, atravessando boa parte dela através de suas mais de 300 colunas, dos mais diversos estilos arquitetônicos, mais algumas sem nenhum estilo e outras diferentonas, como a dos relevos de lágrimas. Existem ainda duas Medusas num canto da estrutura, sustentando colunas: uma foi colocada de ponta-cabeça, a outra de lado. Não se sabe o porquê dessa disposição, mas as duas moças ajudam a ressaltar o ambiente misterioso e calmo, ressaltado por uma bela iluminação, pelas gotas de água que de vez em quando caem na pele e pelas sombras dos movimentos dos peixes, na água logo abaixo.

Da cisterna até a Mesquita Azul é uma caminhada curta atravessando a agitada praça de Sultanahmet, especialmente se é feriado: famílias inteiras passeando entre as árvores, não resistindo ao cheiro delicioso das castanhas assadas…

…ou às fotos junto à fonte. É um lugar privilegiado para se sentir rodeado de istambulitas aproveitando o tempo livre, ver as crianças brincando, moços e moças numa paquera sutil…


O trecho é curto e interessante, e logo se está aos pés da Mesquita Azul, opondo-se à Santa Sofia, competindo entre si e completando-se mutuamente.


Olhando para a dupla, é difícil imaginar que uma construção tenha sido completada mais de mais mil anos depois da outra, dada a escolha de sua localização e a coincidência de volumes e formas. Que na verdade não foi uma coincidência, mas uma vontade expressa do sultão Ahmet de construir um centro religioso que fizesse frente à grandiosidade e sofisticação arquitetônica de Santa Sofia. Para isso, contratou um arquiteto que foi discípulo do grande Sinan e supervisou ele próprio as obras para garantir a magnificência do projeto.


Apesar de não ter a leveza da abóboda de Santa Sofia, a grandiosidade da mesquita Süleymaniye e os azulejos preciosos da Rüstempaşa, a mesquita do sultão Ahmet tem uma beleza incrível, graças em boa parte à quantidade absurda de lindos azulejos que recobrem suas imensas áreas internas e cuja cor predominante a batiza. Se dependesse de mim, o nome teria sido bem diferente, já que o vermelho não fica atrás e faz uma composição de cores fascinante com o badalado azul.

Além da beleza que está na cara, a Mesquita Azul também tem um clima muito interessante, uma mistura pacífica de fiéis orando e turistas…turistando, uma agitação contínua no ar, dando a impressão de este ser um lugar querido entre todos. Talvez eu tenha sido influenciada pelo fato de esta ser a minha primeira mesquita ou talvez fosse a maciez do carpete embaixo dos meus pés ou o eco do muezim ainda reverberando dentro da minha cabeça depois de ter me acordado bem antes do que eu tinha planejado…

Santa Sofia é etérea em comparação, mas a Mesquita Azul ganha em vivacidade. Enfim: é um lugar esplêndido, que fica ainda mais admirável quando se conhece todo o complexo, que inclui ainda um pátio do mesmo tamanho que o interior da mesquita…

…com portais e detalhes lindamente ornamentados…


…a tradicional fonte para as abluções…

…e de onde se pode apreciar mais de perto os famosos minaretes e também polêmicos na época de sua construção: com seis torres, a Mesquita Azul rivalizava apenas com Meca, o que foi considerado como pretensão por muitos.

A sensação gostosa continua no jardim, lindo com suas cores outonais, um sol que brilhava depois da chuva e a visão sempre bem-vinda da ‘concorrência’ logo a frente.




É bom lembrar que a Mesquita é um local de oração e seu acesso é controlado, não sendo permitida a entrada de turista durante um dos cinco horários de oração durante o dia. Deve-se manter o silêncio, pois mesmo fora deles há sempre muita gente orando, em locais especialmente reservados (homens e mulheres cada qual com o seu, sendo o delas sempre no fundo…o deles no centro do salão). Os pés estarão necessariamente descalços (eles providenciam um saquinho para carregar seus sapatos) e o uso de véus para mulheres é opcional, mas uma medida simpática, assim como deixar uma contribuição na saída.
Este centrinho é todo compacto, cheio de atrações de impacto e o Hipódromo é mais uma delas, correndo ao longo da própria mesquita e do parque de Sultanahmet. Essa área alongada deveria estar para os impérios bizantino e otomano assim como a Ágora estava para a vida política e cultural da antiga Atenas: muitos eventos cruciais nesse decorrer da história tiveram seu lugar ali. A área hoje não deve lembrar em nada o que era originalmente, tanto em seu tamanho como formato, composição…: os seus elementos de destaque hoje são três colunas: um obelisco egípcio impecável, parecendo ter sido esculpido hoje (na verdade tem mais de três milênios), uma coluna grega em espiral, do V século a.C. (e com boa parte de sua estrutura desaparecida) e uma obelisco rústico, de origem desconhecida.

(A chuva quando passava pelo Hipódromo e a conseqüente falta de fotos me obrigou ao empréstimo de uma: foto de coolistanbultours.com)
Do outro lado da Mesquita Azul está o Arasta Bazar, antigas cavalariças que hoje formam um corredor agradável de lojas, especialmente algumas com excepcionais cerâmicas ou peças bordadas em seda de babar. O Arasta é uma oportunidade mais light de compras do que o Grand Bazaar…também pode ser um treino para este último 😉
Sultanahmet é inteira cravada de atrações e são tantas que é necessário estabelecer prioridades. Além destas mais famosas, ainda é possível (e imperdível) visitar todo o complexo Topkapi (que exige um dia para uma visitação completa e merece um post próprio), o Museu de Mosaicos, o Museu de Arqueologia, o Museu de Artes Islâmicas, a Küçük (pequena) Aya Sofia, as tumbas na Divan Yolu. Ou simplesmente se perder nas pequenas ruas que envolvem o centro do bairro, observando especialmente os simpáticos prédios de madeira, bem característicos. E ainda tem as escavações do Grande Palácio de Constantino…quem sabe daqui a pouco o bairro não ganha mais uma atração? Não que precise: só Sultanahmet já preenche uma viagem inteira…

Para entrar no clima…grandes surpresas

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O primeiro dia de verdade em Istambul deve ser sempre dedicado ao bairro histórico de Sultanahmet e às duas grandes: Santa Sofia e Mesquita Azul, certo? Bem, preferi fazer um pouco diferente e decidi deixar o dia correr mais tranqüilo, caminhando aqui e ali. Tinha tempo suficiente para me dar ao luxo de um dia mais relaxado, antes de partir para as grandes atrações.

E, de qualquer maneira, veria a praça central de Sultanahmet todos os dias, estando hospedada a apenas dois quarteirões da embasbacante Santa Sofia: passaria pelo ‘centrinho’ sempre a caminho do ponto do bonde. Devo dizer que essa rotina aumentou muito o prazer da minha passagem pela cidade…Já outro pedaço de rotina não chegou a ser totalmente absorvido: o poderoso chamado da Mesquita Azul para a oração, às seis da manhã :mrgreen:
Seguindo a pé até o Grand Bazaar (Kapalıçarşı), levei cerca de 15 minutos desde o hotel – uma caminhada fácil pela Divan Yolu, a principal rua comercial do bairro histórico, cheia de lojas de suvenires, agências de turismo e câmbio. Passando pela tumba do sultão Mahmut, pelo célebre hammam Çemberlitaş e pela mesquita Nuruosmaniye, cheguei a um dos principais portões de entrada do complexo, que é um dos maiores e mais antigos souks do mundo, construído no século XV.
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É uma teia de ruas, dezenas de portões de entrada, mais de mil lojas, distribuídas aproximadamente de acordo com a atividade: ouro, tapetes, suvenires, cerâmica, couro, antigüidades, tecidos…Não dá para ficar indiferente ao entrar no Grand Bazaar pela primeira vez: o seu queixo caído e um sorrisinho bobo logo vão atrair os vendedores ansiosos por vender tudo o que você deseja e aquilo que você definitivamente não precisa. Não tem problema: um sorriso e um ‘não’ firme dão conta do recado e os lojistas, apesar de insistentes, são gentis.

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Aliás, algumas horas ali podem não ser tão relaxantes assim se o seu objetivo for realmente comprar: é preciso pesquisar bastante os preços e qualidade do produto, ser paciente com os vendedores e, por último, pechinchar bastante. E não tem jeito: você sempre sai da loja achando que poderia ter feito um negócio melhor, especialmente se o dono é todo sorrisos, conversas e chá depois de tudo encerrado 🙄 Depois de duas experiências comprando tapetes ali e uma no Arasta Bazar (ao lado da Mesquita Azul, menor e mais tranqüilo), verifiquei que ainda preciso de muitas idas a Istambul para poder negociar decentemente :mrgreen:
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Há duas possibilidades de se explorar o labirinto e eu comecei pela mais relaxada, caminhando sem planos olhando o que desse vontade e entrando nas vielas. Só que esse plano se revelou furado quando eu sempre acabava voltando para o mesmo lugar…e aí entrou em ação o meu eu mais comum: com a cara enfiada num mapa 😉 Assim é mais fácil visitar um pouco de cada região do mercado, especialmente aquelas mais nos cantos onde os turistas quase não chegam e é mais fácil ver os locais fazendo compras.

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Mas o verdadeiro lugar de compra dos istambulitas não está na área coberta da bazar, mas no bairro de Tahtakale, que cerca sua parte norte e vai até a beira do Corno de Ouro. Passear por aqui é um choque e vai fazer o Grand Bazaar se parecer com um shopping sofisticado: ruazinhas estreitas de comércio popular, cheias de compradores. Artigos para cozinha, armas de fogo, roupas de circuncisão, bugigangas à la 25 de março ou Saara – nada turístico, mas interessantíssimo e recomendado para quem não tem frescuras.
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Quando você se dá conta, já está em Eminönü e poderia terminar a tarde ali, visitando as suas atrações, que são muitas. Como já tinha caminhado um pouco pela parte antiga, a idéia era atravessar a ponte de Galata até Beyoğlu e conhecer a ‘cidade nova’. Bem…o adjetivo ‘novo’, nessa cidade movimentada desde o século VII a.C., adquire um significado mais abrangente do que estamos acostumados a usar. Por exemplo: Galata, a região mais próxima ao Corno de Ouro, foi colonizada por genoveses desde o século XIII . Beyoğlu, mais acima, teve seu desenvolvimento especialmente no século XIX. Nada muito recente, mas pode ser se considerarmos Bizâncio / Constantinopla / Istambul.
Considerando a geografia do bairro, o melhor seria ir ao ponto mais alto (e também mais distante) e descer em direção ao Corno de Ouro. Nada melhor do pegar um dos super bondes que cortam as partes de Istambul que mais interessam: passam pela Divan Yolu, Sultanahamet, Sirkeci (onde há um ponto bem em frente à estação de trens), Eminönü, atravessa a ponte de Galata e continua margeando o lado europeu do Bósforo até quase chegar ao Palácio Dolmabahçe.
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(Para melhor visualização, clicar no mapa.)
A linha que mais interessa no mapa é a azul escura que vai de Zeytinburnu até Kabataş, o ponto final dos bondes e também para mim, que ainda pegaria o novíssimo funicular até a Praça Taksim. A passagem para cada trecho de bonde é uma ficha (token) que pode ser comprada na cabininha existente em todas as estações (procure por Jeton Gişesi)
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A Taksim é uma praça grandona e sem graça, com um monumento em estilo soviético erguido em homenagem ao onipresente Mustafa Kemal Atatürk (pai dos turcos). Para entender porque a Turquia é um país com um pé no ocidente é preciso saber quem foi esse homem e o papel que ele teve na história do país: Atatürk foi o responsável pela transformação do Império Otomano em República da Turquia (na ressaca da 1a. Guerra Mundial) e também seu primeiro presidente.

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(imagem de www.freewebs.com/medialogy)

Conduzindo uma corrente nacionalista turca, ele foi o responsável, ao mesmo tempo, por modernizar o país, transformando-o em um Estado secular. E ainda se cercou de outras mudanças que reforçariam a principal: Atatürk ainda aboliu o fez, desestimulou o uso de roupas tradicionais (inclusive véus para mulheres), substitui o alfabeto árabe pelo latino. Apesar da oposição das parcelas mais conservadoras da sociedade turca, era um governante bem-sucedido e popular, sendo que o culto à sua figura ainda é comum no país até hoje. Imagens suas são comuns em lojas, restaurantes, em áreas públicas da cidade.
Portanto, nada mais justa a homenagem em um ponto da cidade que deveria refletir bem o espírito modernizador do governo Atatürk, além de partir dali, da praça Taksim, a principal e mais famosa via do bairro de Beyoğlu: a Avenida da Independência ou Istiklal Caddesi (pronuncie djadesi).

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Seu nome antigo era Grand Rue de Pera, que era o nome do bairro na época em que os grandes edifícios em estilo ocidental foram erguidos, entre o século XIX e o começo do XX. Ali se concentrava a elite européia em Istambul (já que os otomanos ocupavam Sultanahmet) e onde ficavam as embaixadas, os liceus e residências grandiosas: muitas destas construções ainda estão ali, exibindo traços neoclássicos, ecléticos, alguns art nouveau. Nessa área é interessante manter o olhar um pouco para cima, observando as fachadas que ainda restam…

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…mas sem se descuidar do bonde histórico que percorre a avenida desde Taksim até Tünel, onde um funicular construído no final do século XIX vence o desnível até chegar num ponto próximo à Ponte de Galata.
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Beyoğlu não é um bairro com grandes atrações turísticas, mas é perfeito justamente para bater perna, fuçar as bonitas galerias, como a Çiçek Pasaji (das flores), que dá no Balık Pazar (mercado de peixes) e na Avrupa Pasaji, com lojinhas de antigüidades. Deve-se reservar tempo para sentar num café e ver o movimento das pessoas indo às compras, dos jovens andando em bandos saindo da escola…Outra opção é sentar numa Mado e pedir um dondurmaOu até preferir algo mais substancioso e nesse caso eu recomendo fortemente o Haci Abdullah: um dos mais antigos restaurantes de Istambul, confortável e tradicional, serviço simpaticíssimo (descobri o nome em turco e até mesmo inglês para várias coisas) e uma comida deliciosa (estou me lembrando de um kebab de pistache com purê de berinjelas…ai, ai.) Só não servem álcool, algo abundante na vizinha Nevizade Sokak, uma rua cheia de tavernas que ficam lotadas à noite, com locais e turistas. Peça vários mezes (comidinhas) para acompanhar o seu raki ou qualquer outra bebida que você prefira.

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Outra alternativa à descida de um trecho da Istiklal é pegar a paralela Meşrutiyet Caddesi e fazer uma visita ao belo Museu Pera. Ele nem estava no meu Lonely Planet defasado e foi uma ótima surpresa e uma decisão melhor ainda parar para ver a exposição temporária sobre a visão das artes plásticas ocidentais sobre o oriente no século XIX. Fa-bu-lo-sa. Enorme e interessantíssima, especialmente a seção retratando o harém e a vida privada, a exposição ofuscava o pequeno acervo. E aparentemente tem recebido muitas outras temporárias de fazer valer a visita.

Atravesse a rua para ter uma grande vista da cidade e de um trecho do Corno de Ouro e continue descendo até chegar a uma atração clássica do bairro: o Hotel Pera Palas. Um hotel lendário, luxuosíssimo, conhecido por receber nobreza e celebridades: talvez sua ocupante mais famosa tenha sido Agatha Christie, que passava ali temporadas, junto com os hóspedes que chegavam no não menos mitológico Expresso do Oriente. Atatürk era também hóspede habitual e tinha, assim como a escritora, o seu quarto preservado como museu. O hotel está fechado há alguns anos para restauração e espera-se que no próximo ano volte com toda a pompa e mais um pouco. Fiquei decepcionada com todos os tapumes quando cheguei ali: devia ser tão visível a minha tristeza que o guarda me deixou entrar um pouco e me guiou para ver o salão principal. Mesmo no meio de bagunça dá para perceber claramente que, com um belo trabalho, o Pera Palas tem tudo para voltar a ser um hotel e uma atração turística arrasadores. Ah, um dia ainda beber algo no bar, admirando a linda arquitetura, recuperada…para uma próxima 😉

Acabei começando a descida íngreme do bairro de Galata, ao término da Istiklal, bem no final da tarde. Entre ruazinhas estreitas e decadentes me aparece a Torre de Galata, um restinho de Idade Média no meio do bairro, construída no século XIV pelos genoveses.

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Ainda dava tempo de curtir o dia mais um pouco antes de voltar para o hotel e descansar. Comprei o ingresso, subi pelo elevador e escadinhas claustrofóbicas até o terraço. E percebi que não estava preparada para o espetáculo que estava começando ali, naquele momento: um pôr-do-sol perfeito, tendo Istambul em 360º. Começando pela parte norte do Corno de Ouro (um ótimo ponto para observar os aviões em rota para o aeroporto)…

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…seguindo à direita com uma visão de Beyoğlu, do porto na beira do Bósforo, que se estendia em direção ao Mar Negro e ainda permitindo uma visão da Ponte do Bósforo…
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…continuando com o próprio Bósforo recebendo o Corno de Ouro à direita e seguindo seu caminho um pouco mais, até desembocar no Mar de Mármara (e aproveitando para observar a Ásia, logo ali em frente). Já na nossa frente, Sarayburnu (ou Seraglio Point), a pontinha da península histórica de Sultanahmet…
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…do qual a primeira visão que se tem é a do Palácio Topkapi e o parque Gülhane…
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…logo surgindo as duas grandes: Santa Sofia e Mesquita Azul…
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…mais um pouquinho à direita a Ponte de Galata e o bairro de Eminönü, onde se pode ver a Yeni Camii (mesquita) e o Bazar Egípcio ao lado. E completando a volta inteira.
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Não sei muito bem quanto tempo fiquei ali em cima na torre. Perdi a noção enquanto me deixava encantar e me emocionar com uma das visões mais lindas que já tive na vida. Ali em cima, sozinha, dei risada e chorei. Me lembrei dos meus queridos distantes, que eu adoraria que estivessem ali comigo dividindo aquele instante, um em especial que saberia apreciar aquele lugar como poucos (e que infelizmente não teve tempo suficiente aqui para conhecer lugar tão mágico). Fotografei muito, mas observei ainda mais, e atentamente, para gravar fundo na memória. Tive plena consciência da beleza milenar da cidade, do seu mistério, de sua grandiosidade. E também do privilégio de estar ali. E agradeci.
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Foi com muito custo que movi meus pés e desci a torre, descendo ainda mais pelas ladeirinhas sinistras de Galata até o ponto de bonde mais próximo, numa das extremidades da ponte. Na espera, mais um momento de arrepiar: um resto de luz que tocava o complexo Topkapi e os barcos cruzando o Corno de Ouro, o reflexo nas águas e um muezim distante chamando os fiéis. Deixei passar um bonde…e mais outro…
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Chegando em Sultanahmet e já me sentindo em casa nos arredores, ainda mais um presente: uma linda lua minguante pousada sobre a cúpula da Mesquita Azul. Como não se apaixonar por uma cidade dessas?
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Outubro Rosa – espalhando a idéia

Outubro Rosa

Na verdade esse post já vem bem atrasado, afinal outubro já está acabando, o mês da campanha mundial para conscientização sobre o câncer de mama (organizado no Brasil pela FEMAMA – Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama) e tema da blogagem coletiva, convocada por blogueiras como a Flavia Penido e Sam Shiraishi. Mas uma boa causa  não tem tempo nem limite e, apesar deste ser um blog sobre viagens, acredito que uma boa parte, se não a maioria, dos meus leitores é do sexo feminino (pelo menos elas são a maioria de comentaristas!). E quanto aos meninos que me lêem, com certeza têm muitas mulheres queridas e próximas que devem estar atentas.
A iniciativa do Outubro Rosa é louvável não só pela organização do evento, com ações em todo o país e ampla divulgação em diversos meios, com destaque para a internet. Ela é fundamental porque toca num ponto chave, que é a importância da mamografia para a detecção precoce, o que proporciona elevadas chances de cura. E o evento tem ainda maior impacto neste ano, quando foi a aprovada a Lei nº 11.664/2008, assegurando mamografia no Sistema Único de Saúde – SUS para mulheres a partir de 40 anos de idade.
A notícia é muito boa, mas precisa de divulgação para que seja aproveitada por quem realmente precisa: as mulheres que dependem do SUS para atendimento de saúde. Além da necessidade da notícia chegar a quem precisa, ainda deve-se exigir o atendimento que a lei estabelece e com qualidade, o que nem sempre é fácil: quem já acompanhou histórias de quem passou por infinitas visitas a postos de saúde e hospitais do SUS para fazer um tratamento ou simplesmente conseguir um diagnóstico sabe das dificuldades que enfrentam as pessoas que dependem da saúde pública.
Há que se fazer disseminar a notícia e exigir o cumprimento pelos órgãos responsáveis. Mas, mais basicamente, deve estar na cabeça de cada mulher a necessidade absoluta da mamografia anual – ainda é pequeno o número das que realizam o exame com a periodicidade ideal. O descuido tão comum derivado da famosa idéia de que é algo distante do nosso universo…até acontecer com um amiga próxima, com uma tia, com a mãe. Muito sofrimento pode ser evitado com doses de cuidado. E agora cuidado um pouco mais fácil para a maioria da população feminina.
Vale a pena entrar no site da FEMAMA e do projeto para saber mais sobre o Outubro Rosa. E passar a palavra adiante.

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Deixando o coração em Istambul

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É engraçado…a empatia inicial muitas vezes determina os rumos de um relacionamento, de que natureza for. Muitas vezes nem conhecemos a pessoa e já gostamos de pronto: só de ouvir falar, de ver uma foto…ou não vamos com a cara, direto assim.
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Comigo aconteceu também, mas com uma cidade. Istambul me conquistou de mansinho…de leituras de adolescente, de fotos vistas em revistas. Ao longo do tempo você acompanha as notícias com interesse, vê matérias inspiradoras e pensa em materializar aquela simpatia toda, que não saberia se seria mútua.
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Aí começa a pesquisa, a compra de guias (plural mesmo) e o delicioso planejamento. O que era para ser um apêndice de viagem, começa a tomar outra dimensão e, com a empolgação com o destino, até as pessoas perguntam: ‘Mas…não era mesmo para a Grécia que você estava indo?’
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A expectativa era enorme e eu não gosto disso, o decepção está sempre ali atrás da porta. Dito e feito.  Chegar em Istambul foi um choque: gente demais nas ruas (feriado…), sujeira, véus, taxista enganador, serviço inexistente no restaurante. Eu tinha subestimado a cidade. Na verdade, eu tinha alimentado fantasias de uma cidade em boa parte ocidental e Istambul foi, para mim, pura Ásia.
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No auge da crise (mau-humor também com o hotel medíocre), resolvi ver os barcos à beira do Corno de Ouro e tive que atravessar a avenida por uma passagem subterrânea: caos, caos, caos.
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No meio daquela massa e calor me deu vontade de dar risada. Eu estava sendo ingênua no meu primeiro contato com o Oriente. Admirando a Ponte de Galata e o reflexo do final de tarde nas águas, revi minhas posições e meus sonhos com Istambul e comecei a aproveitar o acontecimento maravilhoso que era estar ali, naquele momento.
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Reconhecendo o encantamento que tinha tomado conta desde sempre, tomei fôlego e, resolvida a viver aquela paixão, atravessei o Bazar das Especiarias e subi em direção a Sultanahmet…
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Grécia: Índice

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Atenas
Atenas – Αθηνα: reconhecimento de terreno – Museu Arqueológico Nacional, Psiri, Monastiraki e Pláka.
Verdadeiros clássicos – Acrópole.
Devaneios privados em espaços públicos – Ágora Antiga e Romana, Monte Lycabettus, Teatro Dora Stratou
Raspa do tacho – Templo do Zeus Olímpico, Museu Benaki, Parlamento, Pláka.
Delfos
Delfos – Δελφοί ou A pitonisa leu o meu destino – Santuário de Apolo
Meteora
Meteora- Μετέωρα ou Cadê o sol que estava aqui? – Mosteiros Megalo Meteoron, Varlaam, Agias Triadas, Agios Stefanos.
Milos
Milos – Μήλος: A primeira ilha grega a gente não esquece – Pollonia, Papafragkas, Sarakiniko, Tripiti.
Vilarejos mil: fotopost – Klima, Firopotamos, Fourkovouni, Mandrakia, Plaka.
Para gostar de Milos – Passeio de barco, Sykia, Kleftiko.
Santorini
Santorini – Σαντορίνη: É tudo verdade – Oia.
No centro da caldeira – Passeio de barco pela caldeira.
Aqui, ali e em toda a ilha – Fira, praias, Ammoudi, vinícolas.
Mykonos
Mykonos – Μύκονος: …sem balada – Cidade de Mykonos.
No centro do mundo: Delos – Δήλος – Sítio arqueológico de Delos.
Um guarda-sol para chamar de meu – Platys Gialos, Paradise, Super Paradise, Ano Mera.
Rodes
Rodes – Ρόδος: Para voltar, um dia… – Introdução à ilha.
Perdida na cidade antiga – Cidade antiga de Rodes, Porto, Cidade Nova.
Despedida da Grécia: interior de Rodes – Lindos, vilarejos, Monolithos, Monte Attavyros.
Informações práticas
Grécia: Páginas Amarelas

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