Estrada para o Oriente

            Eu tenho um fraco por paisagens vistas das janelas de aviões: sempre procuro por lugares conhecidos. Nesta busca já fui acompanhada pelos Andes num voo Lima – Santa Cruz de La Sierra e pude ver o Himalaia surgindo grandioso acima das nuvens na rota Paris-Bangkok (e o veria mais de perto num voo Katmandu – Delhi).

            Tive a sorte de olhar pela janelinha do corredor, na fila para o banheiro, no momento certo: uma montanha nevada bem próxima me fez questionar se seria o Ararat ou o Elbrus. Um gentil comissário deve ter levado a pergunta ao comandante porque logo em seguida ele anunciava o monte da Arca no alto-falante.

            Numa das visões mais lindas, vi surgir em meio à névoa da madrugada que se transforma em manhã as formas inconfundíveis da Torre Eiffel, com a Montparnasse ao fundo, pouco antes do último pouso no Charles de Gaulle.

            Dessa vez não foi diferente: o voo saiu com a noite já tendo descido sobre Istambul e a curva do avião sentido leste fez com que sobrevoássemos o mítico Bósforo com suas margens iluminadas e as duas grandes pontes ligando a Europa à Ásia.

            O período na cidade tinha sido de pouco mais de 24 horas, o suficiente para uma animada noite de sábado em Kumkapı, o antigo bairro dos pescadores, e uma caminhada sem compromisso por Sultanahmet e Eminönü para uma passada de olhos em todos os lugares já queridos: Mesquita Azul e Santa Sofia, a descida até o Corno de Ouro para uma breve visão dos barcos em direção ao estreito e de Beyoğlu, do outro lado da Ponte de Gálata. Ainda coube uma breve visita à Mesquita Nova e ao Bazar das Especiarias antes da partida.

            Istambul é sempre estrela, ela não tem vocação para coadjuvante e te lembra disso a todo momento, seja nos minaretes de contos de fadas que se erguem por toda a cidade, seja na lua cheia que ilumina o Mar de Mármara com seus inúmeros navios e a margem asiática do outro lado.

            Mas dessa vez, o foco e a ansiedade estavam muitos quilômetros a oriente, numa terra que guardava raízes históricas nos antigos reinos turcos que a dominaram junto com macedônios, persas, mongóis e russos, entre outros.

            O nosso avião seguia pela noite em direção a Tashkent, capital do Uzbequistão, país que mais simboliza o sonho da Rota da Seda. Na verdade, a rota era uma rede de caminhos, que seguiam do extremo oriente chinês até a Turquia atual e depois mais à frente até Veneza: o sentido inverso foi trilhado pelo veneziano Marco Polo, talvez o mais famoso explorador dos caminhos da Ásia Central.

            Antes que ele próprio seguisse em suas aventuras, seu pai e seu tio já tinham chegado à misteriosa Xanadu (Shangdu) de Kublai Khan, passando por Bukhara. A região hoje englobada pelo moderno Uzbequistão tem três cidades emblemáticas – Samarkand…


            …Bukhara…

            …e Khiva…

             …e era, desde pelo menos o século VI, uma encruzilhada comercial e cultural entre a Pérsia, Índia e China.

            O cosmopolitismo e a riqueza trazidos por esse fluxo incessante de povos fez florescer avançadas sociedades, que por sua vez atraíram também a atenção de conquistadores. Alexandre, o Grande, ficou apaixonado por Samarkand no século IV a.C. Depois de sucessivas ocupações, a Transoxiana (região além do Rio Oxus, o atual Amu-Darya) sofreu nas mãos de Gengis Khan, quando a maioria das cidades da região foi posta ao chão, antes de sua marcha destruidora rumo ao ocidente, no século XIII.

            Um século depois, era a vez de Timur (ou Tamerlão) reconquistar a região da mão dos mongóis e manter seu próprio padrão de barbárie no restante do império. Enquanto isso, em Samarkand, artistas de todo o mundo criavam a sua imponente capital, que até hoje evoca uma época de aventura, quando as grandes caravanas de camelos percorriam o deserto levando cargas preciosas de seda e papel, parando nos caravanserais das cidades para descanso e comércio.

            No século XIX, foi a vez dos russos se apoderarem do território e, com a revolução bolchevique, mais uma vez os reinos locais sofreram com a imposição de mais um ditador, desta vez Stalin. Depois de suas independências, os países da região tentam seguir com suas próprias pernas e retomar suas identidades, apesar de muitos ainda estarem nas mãos de ditadores.

            Mesmo com tantas perdas, a herança cultural ainda está viva e o espírito de hospitalidade permanece, algo natural para um povo que se acostumou a estar no centro do mundo. Estão ainda vivos também a história e o romantismo que os aventureiros souberam tão bem transmitir: para mim, as influências são tão antigas quanto Marco Polo e tão novas quanto William Dalrymple e seu ‘In Xanadu’ e Carl Barks e seus adoráveis patos em missões do Tio Patinhas ao ‘Patuquistão’.

            Pelo nosso tempo restrito, escolhemos nos concentrar no coração cultural da Rota da Seda, o Uzbequistão, e em sua contrapartida natural, o Quirguistão, por onde todas as caravanas passavam por conta dos passos de montanha, como o Torugart: eles permitiam o trânsito das caravanas através das cadeias do Tien Shan e do Hindu Kush.

            Na nossa rota estão marcadas passagens pelos bazares agitados e multicoloridos, que ainda guardam o espírito local e a essência do comércio que fez a fama da região…

            …encontros com pessoas sorridentes, gentis, curiosas e acolhedoras…

             …que vivem ainda de maneira tradicional…

            …arquitetura monumental e reveladora das habilidades dos artesãos mais inspirados…

            …caminhadas por montanhas cercadas de neve, folhas de outono e rios de água limpa.

            Não consigo dormir e meu coração bate cada vez mais rápido com a ansiedade de finalmente conhecer em um lugar sonhado desde menina. Não me lembro de ter ficado tão emocionada em uma chegada. Às duas da manhã, pousamos em Tashkent.

Gostinho de Yucatán

(foto de Arnaldo)

            Descemos no aeroporto de Cancún. Tudo muito organizado, mil balcões de informações: hotéis, aluguel de carros, atrações turísticas…A estrutura é própria de um grande destino de férias, que sabe que sua renda vem predominantemente do turismo e se prepara para isso, de maneira profissional.

(foto de Arnaldo)

            No entanto, a van que nos espera não segue em direção ao Boulevard Kukulkan, zona hoteleira de Cancún. Ela nos levaria ao sul, numa pequena viagem de uma hora e meia por boas estradas, até a cidade de Tulum. Poucos dias de relaxamento à beira-mar pediam um lugar calmo, praias pouco habitadas, sossego. Cancún parecia ser exatamente o oposto disso e, embora saiba que se trata de um destino querido por todos que já o visitaram, achamos que combinava mais com uma viagem com família ou amigos do que em casal. Pelos relatos, achamos também que Playa del Carmem tinha um perfil mais de badalação e decidimos descer um pouco mais.

            Conforme íamos nos aproximando do nosso hotel, víamos que o nosso objetivo ia ser atingido: pela estradinha, poucos hotéis no meio de uma mata baixa de litoral, um restaurante aqui e outro ali, o mar azul visto entre as folhagens. E quando finalmente chegamos, confirmamos que era exatamente isso que tínhamos procurado: uma pousada charmosa, totalmente pé na areia, poucas pessoas à vista, massagens na praia, um bom restaurante tailandês, gente calorosa.

(fotos de Arnaldo)

            No enorme varanda do quarto, noites inacreditavelmente estreladas davam lugar ao sol que nascia e nos acordava pelas janelas abertas, que deixavam entrar também o som do mar.

(foto de Arnaldo)

            Eu precisava de descanso e sentia ter só cinco dias. E poderia ter ficado todos ali no hotel, alternando um mergulho com leitura na varanda e um curry de camarão, repetindo tudo de novo. Mas a questão é que, estando no México, e mais especialmente no Yucatán, fica difícil resistir aos apelos de tanta diversidade natural e cultural. Para começar, a longa história de ocupação da península passa por uma série de povos pré-colombianos, sendo que destes os mais famosos habitantes foram os maias. Mais difícil ainda resistir (e nem se deve, na verdade) quando uma das mais bonitas de suas ruínas está a uma caminhada de menos de uma hora do hotel.

            Tulum é, talvez, a imagem mais conhecida da Riviera Maia: ruínas de uma pirâmide contra o mar turquesa do Caribe. Era um porto movimentado na época de sua ocupação e os poucos edifícios que sobraram em meio ao gramado dão uma sensação pacífica que não devia ter correspondência no seu período áureo.

            A sensação também se perde quando a manhã corre em direção ao meio-dia e os ônibus com as excursões vindas de Cancún chegam. É hora então de bater em retirada e aplacar o calor naquela linda prainha que se vê do promontório do ‘Castillo’, principal construção do sítio.

            Praias bonitas não faltam neste trecho da Riviera Maia, região do litoral que vai desde o norte de Playa del Carmen até Punta Allen, canto pouco turístico ao sul de Tulum. Algumas das mais bonitas estão mesmo em Tulum, uma série de pequenas baías com água incrivelmente turquesa, alguns trechos mais longos, outros cortados por pedras. É ao longo da estradinha simples que corre paralela à praia, rodeada de mata e coqueiros, que ficam os hotéis mais charmosos da cidade – todos com arquitetura rústica, muitos oferecendo yoga, massagens na praia e outras atividades zen.

            A maioria dos restaurantes está dentro dos hotéis e são pé-na-areia, juntando a fome com a vontade de ver o mar. Junte algumas lojinhas alternativas, areia que ameaça invadir o asfalto, pés de hibisco e iguanas correndo de um lado para o outro: esse é o clima pacífico e alto-astral de Tulum.

            Puro sossego, lugar certo para quem quer idílio à beira-mar ou acabar com o stress de um período pesado de trabalho, ou quem sabe fazer um retiro de yoga. A pouca agitação acontece nos happy-hours dos bares dos hotéis e na avenida principal de Tulum pueblo, a verdadeira cidade. E mesmo assim é um movimento leve, de cidade de interior que descobre sua vocação turística desajeitadamente: lojinha de suvenires entremeada de mercadinho e farmácia, com um restaurante espetacular em seguida (como o Cetli, na casa da simpática chef Claudia).

            Como contraponto à água salgada, o Yucatán oferece uma raridade: os cenotes. A maioria dos rios da península é subterrânea, correndo por rocha calcária que filtra a água, aparecendo cristalina quando aflora à superfície, muitas vezes pelo desabamento do teto da caverna. A primeira vez que ouvi falar neles foi numa conversa com uma mexicana, muito tempo atrás que, conhecendo meus gostos em viagens, me recomendou vivamente que não deixasse de conhecê-los um dia. A descrição desses buracos misteriosos, com plantas descendo pelas paredes e a água turquesa exposta, me deixou em desassossego.

(foto de Saspotato)

            Difícil é escolher com tantos cenotes ao redor de Tulum, um doce problema. Optamos por começar com o Dos Ojos, um complexo de cenotes e cavernas que se interligam num sistema de dezenas de quilômetros. O nome vem das duas aberturas de afloramento: de uma delas, mergulhando alguns poucos metros para vencer uma barreira de estalactites, é possível ver a outra abertura, a água brilhando com a luz do sol, cena linda. O tour de snorkel pelas câmaras fechadas é feita com o guia e, no meu caso, o Juan se provou não apenas correto, mas de uma grande simpatia: me contou que a administração de Dos Ojos está toda na mão da comunidade maia que cuida da terra em sistema de cooperativa (chamado ejido) – ele era um deles. Há também muita procura por quem quer fazer mergulho autônomo: com o snorkel é possível ver os mergulhadores passando pelos canais muitos metros abaixo.

(foto de Cenote Dos Ojos)

            Os cenotes eram utilizados em cerimoniais maias, como sacrifícios, e esqueletos e jóias foram descobertas no cenote sagrado de Chichén Itzá, o grande centro urbano e força econômica no apogeu dos maias. Hoje seu sítio arqueológico se tornou a maior atração turística da região e compreende uma área extensa com muitos edifícios restaurados de diversas épocas. Decidimos contratar um dos guias oficiais: um senhor gentil nos acompanhou e enriqueceu muito a nossa visita, dando uma idéia da progressão histórica, mostrando os detalhes das construções e até mesmo mostrando a flora do local.

            O local mais impressionante é o Castillo, a famosa pirâmide que é a imagem-símbolo de Chichén Itzá: um templo construído sobre outro mais antigo. Sendo o templo dedicado a Kukulkan, o deus-serpente, a praça ao redor do castelo fica lotada nos equinócios, quando o sol dá a ilusão de que uma serpente desce a escadaria.

            Mesmo em dias normais o sítio fica lotado e decidimos madrugar para chegar o mais próximo da hora de abertura (e evitar o sol mais forte), o que foi recompensador: tivemos o Castillo quase que só para nós. Visitamos com tranquilidade o campo principal de ‘pelota’ (com direito a testes acústicos)…

            …o Templo dos Guerreiros, com seu imponente chac mool e o Templo das Mil Colunas.

            Antigos caminhos de pedra sombreados, chamados sacbeob, levam até o grupo de templos mais antigos, como o Osario, o Caracol (um observatório)…

            … e os belíssimos Las Monjas e La Iglesia.

            Os desenhos em pedra nas fachadas detalham padrões geométricos e máscaras, especialmente da divindade das chuvas Chaac, facilmente identificável por seu longo nariz. Chichén Itzá exige umas duas horas de estrada para quem vem de Cancún e um pouco menos de Tulum, mas recompensa totalmente quem chega para conhecer o sítio.

            Saímos tão empolgados que tivemos vontade de passar por Cobá, no caminho de volta. Mas a decisão de parar na encantadora Valladolid para almoçar nos impediu.

            A idéia era uma parada rápida, mas não contávamos com as ruas cheias de casas coloniais, mexicanas com vestidos típicos, igrejas de pedra…

            …um convento do século XVI…

            …galerias com arcos ao redor de uma praça cheia de árvores floridas e crianças sorridentes.

            E também não contávamos com a gula com que atacamos nossos espetaculares poc chuc e cochinita pibil: eu não resisto a um porquinho e não sosseguei desde que vi este post aqui. Achei o meu num lindo pátio, com direito a cervejinha para aplacar o calor e muita preguiça.

            Nossos ritmos combinavam com o do nosso carro, um Tsuru vermelho desbotado que com muito sufoco chegava aos 100 por hora. Cobá ficou para uma próxima vez.

             Praias de água turquesa, pirâmides maias, boa comida em todo lugar, cenotes, pessoas recebendo com genuíno prazer e simpatia. Nada poderia ficar melhor do que isso, mas a Riviera Maia ainda tem algumas praias com habitantes muito preciosos: tartarugas.

(foto de sgt fun)

            Numa das praias mais lindas da região, Akumal, é preciso somente que se nade algumas dezenas de metros baía adentro, na água transparente e quente, para que se veja uma, duas…dez, quinze tartarugas! Ou mais, dependendo do pique.

(foto de sgt fun)

            Essas criaturas magníficas fazem do leito marinho o seu refeitório, pacientemente arrancando as algas com seu bico, preferindo as mais tenras, verde claro. Em algum momento ela vai precisar subir para respirar e você pode acompanhar seu vôo suave pelas águas nadando ao seu lado, guardando a necessária distância, tirando a cabeça da água quando ela também tirar e aí você poderá ouvir o som doce da tartaruga que toma fôlego. E desce novamente.

(foto de sgt fun)

            Era nosso último dia. Saímos daquela praia perfeita com sorrisos bobos e aquele poderia ter sido o desfecho perfeito. Mas ainda decidimos testar uma última dica: um cenote pouco conhecido, o Casa Cenote ou Cenote Manatí. À beira de uma estradinha de terra, vimos um lago escandalosamente azul, cercado de vegetação de mangue. Do outro lado, uma faixa de terreno e a praia: este é um cenote diferente, raso, formado por vários pequenos interligados. Ele termina no mar, através de uma passagem subterrânea por baixo da estrada – vimos mergulhadores acabando de fazer esse trajeto.

            Uma cabana de madeira serve de refúgio para um mocinho e alguns caiaques: alugamos um para explorar os canais, percorrendo as águas transparentes que permitiam ver o fundo calcário, branco, a vários metros de profundidade.

            Caranguejos e pássaros eram a nossa companhia no passeio, no final de tarde quente. Uma pena os peixes-bois que dão o nome ao cenote terem desaparecido há tempos.

            E por fim, deixamos o equipamento para nadar na água mais deliciosa, refrescante, bonita. Sair dela era uma tortura, tal o prazer. E sair dali representava o fim de nossa viagem. Que terminava ali, mas poderia ter tido vários outros finais felizes.

 PS: Um grande obrigado ao meu querido, que me emprestou várias de suas fotos maravilhosas para compensar algumas lacunas das minhas.
 

Siracusa, a misteriosa ou Como é bom se apaixonar

            Toda viagem é uma oportunidade. Oportunidade de se divertir, de ver o belo, de aprender, de amar, até de se irritar e ter histórias para contar, enfim: de viver intensamente. É quando nossa mente está presente no mesmo local que nosso corpo e os anseios normais da rotina dão um descanso, esse é o momento que tanto queremos (ao menos os que compartilham do vício de querer estar sempre em movimento pelo mundo).

            É por conta desse privilégio que eu sempre viajo pronta para gostar. Pode ser que o lugar não me encante, mas sempre há algo que vale a pena: seja o povo, a comida, um ponto turístico, seja como curiosidade. No mínimo é uma experiência, que se conecta a outras e as complementa. Mas eu tenho sorte, pois não me lembro de nenhuma viagem que não tenha voltado com grandes memórias.

            Em compensação, quando o lugar te toca de maneira especial, a recompensa é certeira. E isso é um fato: há lugares e lugares. Lugares que deixaram boas lembranças e lugares que te dão uma dor no coração quando se lembra deles. De onde você quer absorver cada detalhe e viver plenamente cada segundo. Lugares para onde você pode voltar várias vezes, sem lugar para o tédio, e onde vai se sentir cada vez mais em casa.

            Eu tenho vários desses lugares, queridos ao coração e a todo o corpo. Paris é um deles, e de quem não é? Sinto saudades doídas da cidade e gosto das placas de ruas, dos azulejos do metrô e até do seu cheiro particular, que sinto assim que coloco os pés na rua. É assim também com Istambul, cidade que me esperará sempre com novidades e com as preciosidades de sempre. Penso em coqueiros nos morros de Minas e me dá um aperto. Qualquer canto da Grécia, qualquer um. Sevilha, Udaipur e, claro, Roma, sugando a cidade em apenas 24 horas nesta última visita e relembrando: como é bonita a danada!

            Voltamos há pouco tempo da Sicilia e tinha expectativas, sem dúvida: como me sentiria em Palermo, considerada uma cidade difícil, reduto da Máfia? Muitíssimo bem, tanto nos finais de tarde e noites ao redor da bonita Via della Libertà, quanto nos passeios pelos degradados La Kalsa e Vucciria. E quanto à badalada Taormina? Bem, é essa exatamente a sua definição: compras no centrinho medieval, banhos de mar em Isola Bella e ver-e-ser-visto em toda parte. É linda, muito linda.

            Mas não tinha nenhuma grande expectativa em relação a Siracusa. Escolhemos ficar duas noites na cidade por conta de sua posição estratégica dentro do nosso roteiro. Tendo visitado as espetaculares Segesta e Agrigento, não me empolgava tanto com o Parco Archeologico da cidade. Suas ruínas (que são muito interessantes, descobri depois) são quase tudo que restava da gigantesca colônia grega que se estabeleceu ali no século 8 a.C., uma das maiores do mundo antigo. O primeiro assentamento desses colonizadores foi na ilha de Ortigia, o começo de tudo em Siracusa. É ali que está localizado o centro histórico, que tem poucos resquícios desta época e é predominantemente barroco.

            Talvez a minha falta de interesse com a cidade tivesse origem no fato de este não ser o meu estilo arquitetônico favorito, mas de qualquer maneira escolhemos nossa hospedagem em Ortigia. Nossa primeira impressão foi muito boa, enquanto atravessávamos a ponte para chegar ao nosso hotel, numa pequena praça separada do mar abaixo por um muro. De nosso balcão observávamos o final da tarde refletido no mar.

            Como espectadores, podíamos ver as luzes do dia perder forças, enquanto aumentavam as das lâmpadas amareladas nas vielas, ressaltando as pinturas manchadas e rebocos descascando dos palácios decaídos. Plantas cresciam nos balcões de ferro trabalhados e pendiam sobre as calçadas. As ruas, desertas. Foi ali que percebi que Siracusa era uma cidade fora do comum.

            O que era para ser um jantar rápido no restaurante mais próximo do hotel, devido ao cansaço do dia cheio de estrada, se tornou um passeio completo, passando por cantos vazios até chegar às piazzas cheias de gente, em pleno aproveitamento da passeggiata. Assuntamos restaurantes, compramos azeites em uma loja de expatriados franceses que nos explicaram sua paixão pela Sicilia e terminamos a noite numa pasticceria, junto aos locais que tomavam sua última xícara de café. Ali é que pudemos perceber que Ortigia não é um museu para turistas: seus moradores são os protagonistas da ação, que fazem de uma cidade aparentemente em abandono um lugar cheio de energia.

            Pudemos constatar isso de manhã cedo, numa visita à feira livre que se instala todos os dias entre o prédio do mercado e a praça das ruínas do Templo de Apolo. Não é muito extensa, mas serviu como comprovação do sabor que estávamos sentindo em nossa viagem – a culinária siciliana se baseia na excelência das matérias-primas e ali estavam os legumes impecáveis, apalpados pelas matronas. Frutas apetitosas e tomates de todos os tipos, tão perfeitos que não pareciam reais (e me fizeram lembrar com tristeza da minha pobre plantação em casa), entre eles o famoso ciliegino di Pachino.

            O mar estava presente, como sempre, na forma de longos peixes-espada dobrados e caixas de vôngoles que esticavam suas pequenas trombas e cuspiam água nos desavisados que chegavam mais perto.

            Apesar do movimento do mercado, a cidade ainda não estava totalmente desperta. Retomamos nossas bicicletas (que o hotel coloca à disposição) e seguimos para o miolo de Ortigia, tentando evitar as ruas maiores, sem preocupação de se achar pelos labirintos da cidade velha: a ilha não é grande, em um momento ou outro se chega e uma rua ou praça conhecida. Imaginei que o mistério que impregnava o ambiente noturno se dissiparia com a chegada do dia e eu veria a cidade inteira em plena atividade, mas não. Os becos continuavam desertos e em algumas ruas apenas um gato ou um cachorro perdidos. Estariam os moradores dormindo, se recuperando da atividade noturna? Ou será que a maioria daquelas casas e palácios estava vazia? E como se deixou um patrimônio espetacular chegar a esse ponto?

            É um sentimento contraditório: apreciar a beleza da decadência, mas lamentar o quanto se perdeu no processo. Quando nos aproximamos do eixo principal da cidade é que percebemos o quanto Siracusa é grandiosa em toda a sua essência barroca.

            Os edifícios restaurados fazem contraste às ruelas internas, seguindo desde o Corso Matteotti até a praça Piazza Archimede…

            …e à piazza do Duomo.

            Por esta praça alongada, que já foi a Acrópole da Siracusa antiga, estão construções veneráveis, como o Palazzo Municipale ou a igreja de Santa Lucia, mas o edifício que mais impressiona é a própria catedral.

            Você pode vê-la pela primeira vez vindo pela própria praça e admirando sua bela fachada ou pela lateral, passando pelo Caffé Minerva e observando as colunas gregas que extrapolam a sua estrutura.

            E também pode apreciá-la com a iluminação noturna, jantando em um dos restaurantes à sua frente ou com a luz da manhã, quando a praça está completamente deserta.

            Imprescindível é entrar para conferir os detalhes de uma das igrejas mais incrivelmente originais: no local do templo grego dedicado a Atena (do século 5 a.C.), suas sólidas colunas se mesclam ao mosaico bizantino do chão e ao restante barroco: uma mistura da fé pagã com a cristã. Em todo lugar, a lembrança da história complexa da formação do povo siciliano.

            Falando em barroco, posso dizer que a Sicilia me forneceu lentes novas para apreciá-lo, com sua linha mais discreta e monocromática de pedra dourada, especialmente quando chegamos a Siracusa e as lindas cidades montanhosas do sudeste. Destruídas em grande parte pelo terremoto de 1693, foram reconstruídas neste estilo e são reconhecidas pela Unesco. Estivemos em Noto, que possui um centro muito bem preservado, com graciosas igrejas e palácios, além de um bairro antigo labiríntico, que exploramos com a pequena Piaggio do simpaticíssimo Sr. Corradino.

 (foto de Arnaldo)

            Belíssima também é Ragusa, empoleirada numa crista de montanha, com suas torres que podem ser vistas do outro lado do rio. Cheia de vielas que se emaranham a caminho do Duomo e sua fachada grandiosa, na parte mais alta da cidade, Ragusa é poética no seu silêncio, no cheiro dos limoeiros e na luz quente de final de tarde que bate nas suas casas, nas roupas estendidas.

(foto de Arnaldo)

            Final de tarde também é um horário precioso e imperdível em Siracusa: perfeito para, depois da sesta, caminhar nas calçadas que margeiam o mar turquesa que resvala entre pedras.

            No nosso caso, as bicicletas foram companheiras por uma volta à ilha, passeio inesquecível numa viagem em que não faltaram momentos também inesquecíveis.

            Seguimos os quatro (porque nesta viagem tivemos a companhia do meus amados irmão e cunhada), observando o brilho do mar e as luzes da cidade se acendendo e dourando as fachadas. É o horário de toda gente sair à rua para passear ou se exercitar, e o clima gostoso de noite de verão é convidativo.

            Depois de contornar a ponta da ilha, o Castello Maniace, chegamos à outra margem bem a tempo de pegar os últimos cinco minutos de sol no horizonte. Muita gente critica o clichê e o piegas que há em um pôr-do-sol, mas acredito que poucos sejam imunes a um especialmente bonito. E esse era um deles: o céu completamente róseo refletido na água da baía, cheia de veleiros. Comprovando a teoria, cheia também estava a promenade, turistas e locais, velhos e crianças, casais e amigos, todos sabendo apreciar o momento.

            Ortigia não tem praias, quem quer tomar banho no (lindo) mar tem que descer até às pedras, mas em compensação possui uma ‘praia’ deliciosa na costa oeste – vários restaurantes e bares badalados, com uma deliciosa vista. Junto a este centrinho, quase ao nível do mar, fica uma das atrações mais curiosas de Siracusa, a fonte Aretusa. Ela está aqui desde tempos antigos, quando era a principal fornecedora de água doce da ilha e hoje é cheia de peixes e papiros.

            Depois deste trecho, mais algumas pedaladas e se chega à marina…

            …com seus belos barcos e de onde se tem uma boa vista dos casarões à beira-mar, e depois à principal ponte de ligação com a terra firme. Vale a pena atravessá-la para ter uma ideia do conjunto de casas no caminho por onde se passou antes.

            Dali, nada melhor que voltar pelo caminho das ruínas do templo de Apolo, iluminadas em meio a um grande jardim…

            … e seguir por mais algumas das ruas desertas, tão antigas e cheias de atmosfera…

            …rumo a mais uma noite inesquecível na praça do Duomo, mais uma vez observando o passeio noturno, mais uma vez sentindo o sabor da comida siciliana, querendo, mais do que uma vez, poder voltar a Siracusa.

Cantos da laguna

            Fazia quase vinte anos que eu tinha visitado Veneza pela primeira e única vez. Eu era uma mocinha, adolescente, e estava com a minha família numa daquelas excursões de 30 dias pela Europa, com pouco mais de um dia para explorar a cidade. Veneza, praticamente um mito do turismo. Contra mim, justamente esses dois fatores: o tempo e a inexperiência.

            Com relação ao primeiro, não pense que cuspo hoje no prato que comi: apesar de meu estilo de viajar hoje ser completamente oposto ao esquema de excursões, acredito que muitas pessoas podem se beneficiar delas e aproveitar muitíssimo – assim como eu e meu irmão aproveitamos naquele verão. Descobrimos ali as atrocidades TV italiana, a deliciosa comida austríaca e as alegrias de ver o Brasil campeão do mundo comemorando com uma multidão em plena Piccadilly Circus. E Paris…

            Tivemos ainda a felicidade termos nossos pais como companheiros de descoberta, que viam tudo com olhos ainda mais infantis e brilhantes que os nossos. Eu me lembro claramente da alegria da minha mãe em meio à beleza de Viena e vendo os moinhos holandeses, assim como me lembro da admirável capacidade de localização que meu pai tinha em qualquer cidade e suas lições sobre geografia e economia por onde quer que passássemos.

            Enfim…aquela seria a primeira de muitas outras viagens ao continente e a inexperiência, o outro fator, viria ainda outras vezes à tona, mas os erros ajudaram na melhora das questões práticas e o tempo trouxe mais maturidade para entender exatamente o que me faz feliz ao viajar.

            Naquele verão veneziano, eu tinha os dois fatores contra mim, mas estava feliz, muito feliz enquanto tomava meu café da manhã à beira do Canal Grande, flutuava em um passeio noturno de gôndola e sentia o chão irregular de San Marco sob meus pés. Um sorriso bobo ficava na boca o tempo inteiro, assim como uma sensação de incredulidade que às vezes ainda toma conta de mim: eu estava mesmo ali? Em Veneza, sonho de todos os viajantes?


            O sorriso e a sensação tomaram conta de mim novamente enquanto percorria a laguna no táxi que nos levava ao hotel. E não saíram de mim durante os cinco dias em que estive na cidade, o primeiro se misturando a lágrimas enquanto me emocionava no mesmo táxi que nos levava de volta ao aeroporto.

            Apesar dos reconhecer pouco a pouco os lugares, aquela parecia minha primeira vez e nada diferenciava meu entusiasmo daquele de tantos anos atrás, adolescente. Era verão de novo e a cidade fervilhava, turistas saindo como lava de estação de Santa Lucia e rolando pelos canais, a maioria tendo como destino a praça de San Marco, claro. Com exceção dela, onde a lotação não permite a apreciar de verdade, a cidade parece ser impermeável ao fluxo de turistas e se mantém independente, como se eles não pudessem se misturar a ela. Mas se quiser ter certeza de ter espaços vazios, nada como se afastar da praça e do Grande Canal para sentir aos poucos que existe uma vida veneziana que segue seu ritmo natural, ou quase.

            Qualquer um dos bairros pode oferecer tranquilidade. Mesmo em San Marco, só é preciso se afastar um pouco das principais ruas do bairro para se maravilhar com campos e mais campos (pequenas praças), flores na janela, sotoportegos e surpresas com a Igreja Santa Maria dei Miracoli. Um caminho lindo em direção a Fondamenta Nuove, uma das mais importantes estações do vaporetto.

            Se estiver em Santa Croce, pode procurar pela Igreja de San Giacomo Dall’Orio e sua encantadora praça, cheia de velhinhas falantes pelos bancos. Ela em si é uma jóia, uma das mais antigas igrejas de Veneza, cheio de belas obras renascentistas e um teto em madeira excepcional. Seu silêncio e interior refrescante são preciosos em meados de agosto.


            Seguindo em direção a Dorsoduro as ruas ficam mais cheias de gente ao se aproximar da imponente Santa Maria dei Frari, mas é só continuar em direção às Zattere, um longo passeio à beira do Canal de Giudecca. O final de tarde ali é calmo, com longas caminhadas e sorvetes ao pé da água.


            Ali perto ainda está o Museu Peggy Guggenheim, programa delicioso que pode ficar ainda melhor se feito no final da tarde, próximo ao fechamento. Tudo ali vale a pena, mas reserve um tempo para curtir o seu jardim, um luxo raro na cidade.


            Andar por Veneza à noite é garantia de ruas desertas e um ambiente sombrio e melancólico, que combina muito bem com as prédios tortos e suas fachadas descascadas, levemente iluminadas pelas por luzes fracas.

            Já acordar cedo é a sua melhor aposta para ver o Mercado de Rialto em sua melhor forma…

            Os restaurantes ao redor estarão fechados e suas arcadas desertas, mas em compensação os moradores estarão em peso ao redor das barracas de verduras e frutas com cores tão vibrantes que é preciso se conter e lembrar que está longe de casa…

 

            As bancas de peixes e frutos do mar estarão repletas de seres que saíram há pouco da laguna – alguns só são encontrados ali e as águas são ricas.

            Na procura por boa comida veneziana, acabamos em outro canto pouco visitado, Castello. As ruas são ocupadas por (pouca) gente da vizinhança, mas sentimos quando nos deparamos com o desejado restaurante fechado – queremos tranquilidade, mas isso já é demais. A sorte é que bem próximo havia outro restaurante que nos encantou: difícil achar algo melhor que uma longa degustação de frutos o mar em pratos frescos e impecáveis, num pátio cheio de videiras. Uma preciosidade. (Um adendo: acertamos muito em Veneza com os restaurantes da Associazione dei Ristoranti della Buona Accoglienza.)

            Mas por que ir a Veneza nesta época do ano, se o que se quer é paz? A viagem tinha um objetivo: comemorar meu aniversário. E justamente no dia resolvemos fugir ainda mais e atravessar a laguna em direção à ilha de Torcello. A balsa nos levou por uma viagem de 45 minutos que parou na estação do Lido (visitada naquela primeira viagem, mas não tinha causado grande impressão), passou ao largo de Sant’Erasmo (a ‘horta’ de Veneza) e parou para troca de barco em Punta Sabbioni, terminando em Burano.


            Antes de seguirmos para Torcello passeamos por esta ilha e seus pequenos canais, onde as casinhas de pescadores parecem de bonecas, pintadas em cores vivas. Burano também é famosa por suas rendas.



            Dali até Torcello é apenas uma travessia de barco pelo canal que as separa. A paisagem é muito parecida com o que se vê no resto da laguna: vegetação rasteira entremeada de canais com seus barcos. Quase não há habitantes na ilha, ao contrário do que acontecia no século VII, quando era uma metrópole bizantina e o primeiro lugar de assentamento humano na laguna veneziana.


            Um caminho ladeado por um canal…

            …passando pela Ponte do Diabo…

            …nos leva ao ‘centro’. Aqui paramos para um almoço de aniversário maravilhoso sob as parreiras…


            …antes de seguir para o motivo principal de nossa visita a Torcello: a catedral de Santa Maria Assunta e a igreja de Santa Fosca.

            Ela foi fundada no século VII, no início do período áureo da dominação bizantina na região e foi bastante modificada com interferências desde o século IX até o século XI. Sua torre domina o horizonte neste canto da laguna…

            …mas a sua característica mais marcante é uma verdadeira preciosidade: mosaicos da escola de Ravenna, alguns dos mais espetaculares que já vi.

(foto-mosaico de Duckmarx)

            O mosaico da Madona sobre o altar é lindíssimo, mas de cair o queixo é o Último Julgamento, tomando toda a parede interna da fachada principal. Sua grandiosidade é inesperada, dado o lugar remoto e pouco divulgado onde se encontra. Quando se observa de perto, se vê os detalhes executados com maestria, onde o próprio tema proporciona tanto enlevamento como arrepios.

(fotos de Prof. Mortel)

            Os campos ao redor convidam a um piquenique sob os pinheiros ou junto aos vinhedos.


            Junto a ela está a Igreja de Santa Fosca, uma singela igreja românica fundada no século XI, com um interior simples que convida a reflexões e agradecimentos, especialmente quando mais um ano se passa…

Cidade dos gênios

  

            Infelizmente não veria o monte Ararat (ou seria o Elbrus?) como da primeira vez: é inverno e o anoitecer precoce junto ao atraso no vôo me impedem de ver seu cume branco surgindo sobre as nuvens, pela janelinha do avião. Dentro de algumas horas estaríamos descendo em Delhi para comprovar que não havia sido um sonho e que de novo iríamos percorrer as grandes e arborizadas avenidas de Lutyens até o mesmo hotel onde nos hospedamos antes.

            A passagem pela cidade seria curta, mas a companhia a potencializaria: além de meu marido, companheiro incansável nas aventuras indianas, teria também uma nova visão sobre esta cidade da qual já tínhamos saudade, através das palavras de William Dalrymple no seu livro ‘City of Djinns’.

            Delhi é uma conhecida antiga de Dalrymple: tendo vivido lá várias vezes e tendo-a inclusive como sua atual moradia, seu olhar é certeiro, descrevendo o dia-a-dia dos delhiitas, profundo, ao pesquisar as encarnações da cidade e, acima de tudo, carinhoso e bem-humorado com suas experiências, uma mistura que é praxe em seus livros.

            Apesar de retratada freqüentemente com restrições (para falar o mínimo), Delhi nos encantou desde o primeiro momento, mesmo com a nuvem de poluição que envolvia as janelas do avião ao pousarmos – a gentileza dos que nos recepcionaram, a visão dos tuk-tuks e das luzes do Diwali, que perdemos por pouco. No dia seguinte, pássaros cantavam no jardim enquanto tomávamos café e logo em seguida Delhi iria começar a desfolhar suas camadas.

            A primeira que conhecemos foi a cidade muçulmana do século XII onde ainda está de pé hoje o formidável minarete de Qutb Minar, uma das mais antigas cidades-versão da Delhi atual.

            O terreno é extenso e as estruturas diversas: restos de palácios, uma madrassa, outro minarete, mas este inacabado. As colunas da mesquita abrigam delicadas esculturas com figuras humanas, impensáveis pelo islã, mas compreensíveis pelo fato de trabalhadores hindus terem se dedicado a tal trabalho.

            Neste anel em torno da capital haviam outras ruínas de Delhis passadas, como Siri, Tughlukabad, Feroz Shah Kotla e Purana Qila, esta uma visão impactante com seu sólido forte no alto e à beira de um lago, assentada sobre a primeira de todas as cidades: Indraprastha, a mítica cidade do Mahabharata.

            Mas a mais significativa versão de Delhi é Shajahanabad, a velha Delhi, capital mogol. Como o próprio nome diz, a sétima cidade foi criada por Shah Jahan depois de idealizar uma das mais belas expressões arquitetônicas do mundo, o Taj Mahal, e com a mudança de sua corte de Agra, no século XVII, Delhi se tornou o centro do império: o refinamento da cultura mogol atingiu sua melhor expressão aqui e a cidade se transformou num dos centros urbanos mais cosmopolitas da época.  Grandes mansões, as havelis, surgiram para abrigar a nobreza…

            …e a Jama Masjid, a maior mesquita da Índia, teve sua construção ordenada por ele, surgindo no centro da nova cidade. Ela se impõe aos edifícios menores ao seu redor, surgindo no alto das grandes escadarias rosadas, suas cúpulas-cebola como um contraponto harmonioso ao caos das ruas adjacentes.

 

            Chandni Chowk, a principal rua do comércio, segue sua vocação desde aquela época, além de acolher templos sikhs, hindus e jainistas em meio à confusão das lojas de roupas e badulaques e…

            …numa de suas pontas, mais um pedaço do mundo de Shah Jahan: seu palácio, o Forte Vermelho.

            Em nossa primeira vez na cidade, não pudemos visitar o forte pois estava fechado para uma visita oficial da família Obama. Acabamos nos familiarizando depois com os fortes indianos ao visitar o Forte de Agra (de onde se vê o Taj Mahal e que serviu de prisão para o próprio Shah Jahan no final de sua vida), o atmosférico e inesquecível Forte Amber, em Jaipur, o Forte Mehrangarh que víamos majestoso acima de nós do jardim do nosso hotel em Jodhpur, além de um forte que é uma cidade medieval habitada: a citadela de Jaisalmer.

            Cada um deles é magnífico ao seu estilo, mas com algumas estruturas comuns: as salas de audiência públicas e privadas (Diwan-i-am e Diwan-i-Khas, encantam com sua simetria de arcos), os jardins e a zenana (harem). No Forte Vermelho a surpresa é entrar em um bazar coberto antes de passar ao palácio, mas em comparação aos fortes rajastanis, ele parece sisudo e alterado demais pela ocupação inglesa. Mesmo assim, passar um domingo aqui fazendo piquenique é um programão para os delhiitas.

            Hoje o centro de Delhi guarda poucas semelhanças com o criado pela dinastia de Shah Jahan – a mesquita e o forte continuam, mas as havelis foram ao chão ou estão desfiguradas e as ruas onde passavam poetas e nobres mogóis hoje são tomadas desordenadamente por vendedores e compradores do comércio popular…

            …pelos motoristas de riquixás que engancham suas rodas e tomam quase toda a rua…

            …pelos restaurantes muçulmanos escondidos em portinhas…

            …pelas noivas que passeiam pelo Kinari Bazaar para suas compras de boda…

            …e o céu, já tão poluído, sofre ainda com a poluição visual.

            Dalrymple, um estudioso de longa data do império mogol, se deprime com a situação e tal descrição pode até mesmo assustar à primeira leitura, mas a verdade é que é difícil resistir à Velha Delhi. É hilariante a sensação de estar observando tudo, seguindo a pé com a corrente humana ou do alto de um riquixá: roupas penduradas quase roçando nos braços, pequenos santuários em todos os cantos, casarões antigos com hera crescendo em seus balcões, ligações de energia elétrica surreais, cheiro e barulho de fritura, buzinas e conversas no curioso hindi, bancas cheias de livros. Somos a atração, os olhos todos em cima dos dois branquelos: não me contenho e dou risadas com o absurdo e a intensidade da vida que passa ao nosso redor naquele momento.

            Depois do choque da gloriosa e decadente cidade mogol, a Nova Delhi de Lutyens surpreende pelos seus improváveis silêncio e ordem, pela simetria de seu planejamento, pelas grandes ruas ladeadas de árvores e suas sombras.

            Aqui estão os grandiosos edifícios concebidos para o poder britânico e que hoje são ocupados pelos governantes da maior democracia do planeta. O Rajpath, ligando o India Gate ao Rashtrapati Bhavan e aos dois Secretariat, transforma a Champs Elysées em uma avenida modesta.

            A descrição pode passar a idéia de uma cidade estéril, porém a Nova Delhi é agradável, animada, especialmente junto aos jovens e desejosos de consumo em Connaught Place e ao redor do India Gate aos domingos, programa imperdível para quem quer conhecer gente e ver as crianças andando de pedalinho, jovens com seus amigos e famílias inteiras batendo papo: a vida até parece leve com tantos sorrisos. A procura por relaxamento (e uma tentativa de fuga da poluição) pode continuar ainda até o Lodhi Gardens, reduto da burguesia delhiita, com seus lagos, flores e tumbas fotogênicas do século XV…

            …e deve certamente conter uma visita à Tumba de Humayun, uma das mais lindas atrações da cidade. Entre os frequentadores do mausoléu estão excursões escolares, casais namorando nos bancos e muitos turistas, a maioria indianos. Como se pode ver, aqui não há incompatibilidade entre lazer e morte, talvez pela própria maneira próxima com que o indiano vê o assunto, mas também porque a beleza e antigüidade das construções acaba deixando seu propósito para segundo plano.

            Delhi é também múltipla como reflexo da religiosidade complexa do povo indiano. Sete ou mais cidades, sete ou mais religiões estão representadas ali: o hinduísmo, seja nos diversos templos, num canto de loja ou junto a um tronco de árvore,  o jainismo, com sua defesa inabalável da não-violência e um improvável hospital de pássaros numa das esquinas mais movimentadas da cidade (visto aqui, com um templo hindu logo atrás)…

            …o siquismo e suas gurdwaras, como a grande e acolhedora Bangla Sahib, onde após a cerimônia do final de tarde e uma porção benta de deliciosa halva junto ao lago fomos convidados por um jovem voluntário a participar do lanche da tarde no langar (cozinha comunitária e refeitório, gratuito e aberto a qualquer pessoa)…

            …a fé Bahá’í e seu Templo de Lótus, um dos sete grandes templos bahá’ís espalhados pelo mundo, onde todos são bem-vindos para orar…

            …o islã e suas mesquitas, resquícios da ocupação mogol e lembrança contínua da presença e do legado muçulmanos na cidade, juntamente com os santuários sufis, sendo o medieval Nizamuddin Dargah um dos mais venerados e famoso pelos seus cantores de qawwali

            …além do cristianismo em suas diversas vertentes, budismo e outras religiões em menor escala. Apesar de alguns episódios pontuais de violência, marcados normalmente pela mistura de religião e política (ver episódios das mortes de Gandhi e Indira Ghandi), a sensação que se tem em Delhi é de que todas as crenças têm espaço e nós, meros visitantes, nos sentimos muito bem acolhidos e à vontade na maioria delas.

            A sensação de estar pela segunda vez, mesmo que por pouquíssimo tempo, me fez tomar mais gosto ainda por essa cidade enorme, difícil e injusta como tantas grandes metrópoles, mas ao mesmo tempo tão interessante, cheia de vida, de história e de pessoas gentis que fazem a diferença em um lugar. Eu, que sempre fico triste ao deixar um lugar querido, fiquei duplamente com o coração apertado depois de terminar o livro de Dalrymple. Novamente eu parecia estar deixando a cidade, mas a sensação de prazer na leitura e de um dia intenso e muito feliz revendo a cidade me fez pensar que ainda tenho muitos livros dele esperando na minha estante…e que posso fazer muitos planos para voltar a Delhi.

            * City of Djinns, de William Dalrymple, conta a história da cidade entremeada com a própria vida que o escritor e sua esposa, recém-casados, levavam na Delhi dos anos 80. Djinns (gênios) são espíritos na mitologia islâmica dos quais muitos, segundo alguns místicos, são habitantes de Delhi.

Estamos em Santiago


Cuando yo llegue
A mi Oriente querido
Cuando yo asome
Al balcón de la capital
Cuando yo sienta sonar
Las campanas de la catedral
Doy un salto de alegría
Y les digo a los viajeros
Estamos en Santiago
(Balcón de Santiago – Francisco Repilado)

               “El Oriente” é uma terra gloriosa: para o governo e seus simpatizantes este é o berço da Revolução, quando a Serra Maestra abrigou Fidel e seu pequeno exército frente a Fulgencio Batista. Perto dali também fica o parque nacional do histórico desembarque do Granma. E Santiago de Cuba, nosso destino, abriga o Quartel Moncada, uma tentativa fracassada de tomada do poder por parte dos rebeldes (tratada como ato de grande bravura, no entanto).

               Mas o Oriente de Cuba é glorioso também por ser a origem de algo muito mais interessante: a música cubana – intensa e envolvente. Desde o século XVIII, Santiago foi o foco musical no país, desde o barroco, passando pelas contradanças, habaneras, evoluindo para o danzón e posteriormente o changuí, a trova e o són. Entre os nascidos na região, o destaque é Francisco Repilado, conhecido mundialmente como Compay Segundo.

               Vir para Cuba é, para muitos, uma oportunidade de presenciar a maravilha que é essa mistura de sons europeus e africanos, cozidos no mesmo caldeirão por mais de dois séculos e que gerou uma gama imensa de ritmos. A música surgida nesta parte do Caribe influenciou a criação musical de muitos outros países e, ao se espalhar pelo mundo, até hoje deixa mais feliz a vida de muitos admiradores.

               Você vai encontrar música em Havana: em cada bar e em cada restaurante de Habana Vieja há um grupo tocando música de ótima qualidade, mas o que acontece é que, depois de um dia curtindo o bairro antigo, corre-se o risco de repensar se o seu repertório no iPod precisa mesmo do álbum do Buena Vista. Especialmente Chán Chán. Mas a idéia só passa rápido pela cabeça.

               Existem vários clubes na cidade e queria especialmente tentar a Casa de La Música, conhecida por ter bons shows de salsa. Fomos desencorajados de ir à de Centro Habana, por conta dos arredores perigosos, e tentamos na de Miramar, depois de um jantar no ótimo paladar La Cocina de Lilliam, ali perto. Uma fila enorme cheia de jovencitos e o local remoto nos dissuadiram. Até tentei um programa que parecia bem turístico mesmo, uma banda estilo…Buena Vista, num bar da Plaza Vieja.

              Depois de descer o Prado pobremente iluminado e mesmo assim lindo, o táxi contornou a entrada do porto e nos deixou na Plaza de San Francisco. De dia, linda. À noite, encantadora, com as luzes que iluminam a igreja e os prédios grandiosos refletidas no chão de paralelepípedos. Depois de um jantar no Café Del Oriente e uma caminhada pela Calle Mercaderes, é até possível imaginar como seria uma Havana Vieja inteiramente restaurada, romântica…Mas os recônditos abandonados também tem sua beleza e sua atmosfera, apesar da luz chegar apenas ao corredor turístico. Como conciliar esses dois mundos diferentes vivendo em um mesmo bairro? Até que ponto será viável continuar restaurando tendo em vista outras necessidades dos seus moradores? E como será quando chegar o momento em que, imaginando um futuro democrático e de crescimento, Havana Vieja começará a ficar cara para aqueles que estão ali há décadas? É fácil perceber a dualidade centro turístico versus centro dos moradores. Não há muita movimentação de visitantes além da Plaza Vieja – aliás, voltemos a ela.

               Apesar da reserva, percebemos que não há lugares para nós: ah, a eficiência e organização estatais…A banda é muito boa e o mojito não vai mal, mas a mesa improvisada é uma piada e decidimos que ainda não tínhamos achado um lugar decente para ouvir música cubana.

               Tudo mudou quando colocamos nossos pés em Santiago, após provarmos de um dia inteiro de desorganização dos aeroportos e companhias aéreas cubanas. Cancelamentos, brigas, funcionários claramente sem idéia do que faziam, atrasos e mais atrasos, várias situações kafkianas nos fizeram rir – era a única saída possível para mantermos a calma. Mais do que nunca precisávamos de boa música e diversão de verdade.

               E conseguimos, achamos nosso canto na capital da música cubana: a Casa de la Trova. No centro, junto à também venerável Casa del Estudiante, ela nos acolheu nas noites santiagueras com música deliciosa. Muita salsa, són e guaracha ouvidos no balcão de ferro batido, com vistas para a catedral e casais dançando na pequena pista, junto à orquestra. O público é misturado, cubanos e turistas, gente de todas as idades, astral altíssimo. Bons mojitos e minha querida mãe como musa da banda, que mais eu posso querer?

               Uma das noites foi justamente o Réveillon e a festa da Casa de la Trova acabou resvalando para o vizinho Parque Cespedes, lotado de gente comprando e comendo bolos cheios de merengue (um costume local). Aliás, descobrimos um padrão de extremos em Santiago: comida horrorosa e música divina – até o café da manhã sofrível do nosso hotel ficava um pouco melhor com a presença de um moço pianista impecável. E, se os bolos verdes não nos apeteciam, uma ótima banda tocando em frente à prefeitura confirmava a teoria, muita gente dançando no meio da praça, inclusive uns poucos turistas treinando o que aprenderam nas aulas de salsa. Diversão familiar e tranqüila, me fazendo lembrar de tantas festas passadas no interior de São Paulo e Minas.

               E Santiago, mesmo sendo a segunda maior cidade de Cuba, nos parecia mesmo com uma cidadezinha do interior, aprisionada dentro de uma bolha do tempo marcando anos 50. Não faltava nada, nem os famosos carrões, nem os anúncios das lojas, os paralelepípedos ou os vendedores de frutas ambulantes. Os prédios eram mais da virada do século XX, mas a única coisa que realmente destoava era a vestimenta de moços e moças, cuja desinibição e gosto por brilhos e bordados não guardava nenhuma semelhança com aquela época elegante.


               Os trilhos do bonde ainda são mantidos grudados ao asfalto e vão conduzindo num passeio sem pressa pelo centrinho compacto: a casa de Velázquez, tida como a mais antiga de Cuba…


              …o balcão com vista para o porto, os museus, a encantadora livraria do Conrado (onde o papo e o acervo fazem o tempo andar rápido demais)…


               …o pátio da Artex – o lugar para comprar música ouvindo bandas excelentes, a rua do comércio e seu ambiente retrô…


…e as graciosas pracinhas ali e aqui.

               O Parque Cespedes é a principal delas, onde ocorre footing sério e muita fofoca, imagino…

              …e, para ter uma visão privilegiada do movimento e um bom cafezinho, o melhor lugar é a varanda do hotel Casa Granda. Segundo Graham Greene, aqui era um ponto de espiões na época revolucionária, mas hoje a observação de pessoas é apenas um esporte.


               Os tempos já foram mais ameaçadores, considerando também toda a atividade revolucionária que ocorria na Sierra Maestra (que envolve a cidade): até o século XVIII Santiago era um entreposto comercial famoso no Caribe e altamente desejado por todo tipo de aproveitadores que navegavam por estas águas. Várias foram as ocasiões em que a cidade foi invadida, queimada e saqueada por piratas e corsários e a solução foi a construção de uma fortaleza que guardasse a entrada da baía.

              Uma belíssima fortaleza acabou saindo: Castillo de San Pedro de la Roca, reconhecido pela Unesco como um dos melhores exemplos de arquitetura renascentista no novo mundo. Além de tudo ainda há um museu de pirataria, muito informativo, e vistas para o mar azul do Caribe abaixo e até onde o horizonte alcança. Muito silêncio e iguanas medrosas, nem parece ser uma das maiores atrações turísticas da região.


               Se o dia estiver bonito,  como era o nosso caso, dá vontade de estar mais próximo da água. Mas é uma pena não haver praias bonitas perto de Santiago, a melhor opção é contornar uma parte da baía e fazer uma rápida travessia de barco…


               … até o Cabo Granma, ilhota que abriga uma colônia de pescadores.

               A população do leste de Cuba tem raízes jamaicanas e haitianas, pela proximidade da sua costa com esses dois países e é fácil perceber essa origem nos rostos das pessoas reunidas na praça e nas crianças que brincam pela única rua do povoado.


               Se em Santiago a sensação é de estar em uma cidade do interior da primeira metade do século XX, em Cabo Granma é como se o tempo tivesse parado de vez, nem a brisa soprava. Além de duas lindas meninas que nos fizeram um pouco de companhia, somente uma cachorrinha encantadora nos acompanhou na caminhada em volta da ilha, uma coleção de casinhas de madeira que traduz bem a palavra bucolismo.



               Almoçar por ali permitiu aproveitar mais um pouco da calma e sonolência deste canto de Cuba, um complemento e um respiro do ar frenético de Havana, para onde voltaríamos no dia seguinte, já com saudades.

Simplesmente Havana

               Chove em Havana. São apenas seis da tarde, mas o céu já está escuro, com a ajuda de nuvens pesadas. É inverno no Caribe e, no entanto, sentimos o sol forte nos ombros o dia todo enquanto andávamos pela cidade antiga. Mesmo a chuva não consegue aplacar o calor. Da varanda do hotel, em Centro Habana, vejo a água cair e depois arrefecer, deixando uma tela de fundo colorido, nuvens azuis e chumbo com rasgos de rosa forte. O Capitólio toma todo o primeiro plano, não deixa espaço para nenhum dos seus magníficos vizinhos.

               As luzes dos postes sobre o Parque de La Fraternidad são esmaecidas, como lâmpadas de mercúrio, refletindo no asfalto molhado. Os carros anos 50 passam abaixo e transportam a uma época que não existe mais e que nem vivi, mas talvez ainda exista no universo paralelo cubano. Batem à porta: é o mensageiro trazendo a senha do wi-fi. Volto para o presente por pouco tempo, mas o balcão e a cena ainda estão lá.

               Era o primeiro dia e as muitas perguntas ainda não tinham sido respondidas, a ansiedade continuava. Sempre há uma expectativa em conhecer um novo lugar, mas aqui a intensidade é duplicada, por tudo que implica visitar um país fechado, sujeito a uma ditadura de 53 anos, e um dos poucos no mundo a ainda manter a utopia comunista (ou socialista, como querem). Utopia que caiu por terra há muito tempo, ainda que permaneça o esforço por manter as aparências.

               Esforço apenas, pois nos dias que se seguiram em Havana era muito fácil perceber a dificuldade do cotidiano: uma pequena caminhada por Centro Habana permite ver as escadarias dos cortiços em gloriosa decadência, os moradores olhando a vida passar nas varandas em meio às roupas penduradas…

               …pequenos comércios vendendo umas três caixas de ovos ou alguns poucos legumes, senhoras que se aproximam pedindo dinheiro.

               A descrição é correta, mas não reflete o que é verdadeiro – Cuba (e Havana, em particular) é uma mistura complexa: vibrante, às vezes alegre, às vezes triste, espontânea, desconcertante sempre. Assim como aconteceu na Índia, o corpo fica em alerta, tentando captar tudo o que sente. Especialmente os olhos, que percorrem o cenário como se quisessem reter como uma peneira: o que não for percebido no momento, ficará guardado para futuras lembranças, para a construção da impressão definitiva do lugar. Ou talvez sobrem como matéria-prima para sonhos – como aqueles em que inventamos lugares dos quais temos saudades quando acordamos. E para onde nunca mais poderemos voltar.

               Mas eu divago, volto a colocar o pé no chão, neste caso representado pelas ruas havanesas de calçadas estreitas, o que dificulta a apreciação por muito tempo daquele edifício art-déco em que a deterioração não o fez menos bonito. Sem problemas, o do lado é igualmente belo, de estilo eclético, um dos muitos que habitam Centro Habana e que me fazem lembrar da cidade natal de meus pais. Um teatro neoclássico ao lado de ruínas coloniais tomadas por heras. Lojas pequenas, bares.

               É nesta região da cidade, ocupada após a colonial Habana Vieja não comportar mais moradores, que a cidade tem a sua face mais agitada e realista. Este é o cenário onde Pedro Juan Gutiérrez viveu e contou suas histórias cruas: basta caminhar no grande trecho entre o Prado e o início do Vedado para relembrar algumas das passagens mais inacreditáveis.

               Ele ainda vive aqui, no Malecón, e diz que nunca conseguiria sair, pois o material para sua escrita está no bairro. Sem estranhamento, seus livros não são encontrados nas livrarias daqui, uma vez que seus relatos sobre a pobreza extrema do chamado Período Especial (após a queda da URSS) não relatam uma Cuba vitoriosa. Aliás, as livrarias são interessantes, até lindas, mas com um estoque tão ínfimo que é constrangedor.

               Foi em Centro Habana também que tivemos nossas melhores experiências gastronômicas. Utilizar este adjetivo em Cuba é um exagero – achar boa comida é difícil e quando se acha, é cozinha caseira, como a do paladar San Cristobal. Paladares são os restaurantes privados, em casas de família – uma das poucas concessões à iniciativa privada – e são sempre a melhor opção, considerando a mediocridade dos restaurantes estatais, muitas vezes bonitos e mais sofisticados, alguns em construções históricas.

               Mas o que os paladares perdem em conforto, ganham em sua ambientação kitsch, na receptividade das pessoas e na sua comida caprichada. O La Guarida é outro imperdível – eu sempre fico com um pé atrás em lugares hype, mas aqui é justificado: o cortiço onde ocupa o último andar é lindo em sua decadência e também uma oportunidade de observar a vida em aglomeração, sem privacidade. Além de tudo foi cenário do filme Morango e Chocolate, um clássico cubano, e onde comi a minha melhor refeição de toda a viagem. Para sobremesa, o complemento perfeito é o sorvete da Coppelia, outro cenário do filme, na área mais agitada do Vedado. Vir aqui é uma experiência arquitetônica e social imperdível. Surpreendentemente, o sorvete é muito bom também.

               Mas voltemos a Centro Habana. A região do Capitolio tem atrações suficientes para um dia inteiro e mais: além do próprio, dá para montar um mini-roteiro de hotéis históricos (Saratoga, Inglaterra, TelegrafoSevilla, Plaza…)

                …fuçar a programação do espetacular Teatro Nacional, admirar o trabalho artesanal (e maçante) dos operários da Partagás

               …passear no Parque Central e Parque de La Fraternidad, curiosar a santería na Associação Yoruba e o comércio popular ao redor, ir um pouco adiante na improvável Chinatown…

               …conhecer os detalhes do regime no Museu da Revolução…

                …e subir e descer várias vezes o Prado, uma das avenidas mais lindas da cidade. Ela é a própria ‘rambla’, seguindo até o Malecón, a beira-mar que funciona como ponto de encontro para locais, turistas e jineteros/as e que merece uma análise sociológica à parte.

               Uma outra possibilidade é sair do Capitolio em direção a Habana Vieja pela Obispo e todo seu variado comércio, com uma parada inicial no Floridita para um daiquiri refrescante, ambiente elegante e garçons simpáticos demais para um ponto turístico deste porte. Mas aí começam outras mil oportunidades…

 

PS: Meu querido Fatos e Fotos também publicou suas primeiras impressões sobre Cuba.

Em busca da foto perdida

               Adoraria ter tido mais tempo em Jaipur – ele teria sido útil para explorar melhor o centro e o bazar ou permitir uma visita ao Moti Doongri, que víamos à noite, iluminado, dos jardins do nosso hotel. Poderíamos até fazer uma nova visita ao Amber Fort e a cidade abaixo dele, que tanto nos empolgou.

            Um dia a mais em Jodhpur seria perfeito para vermos a cidade com calma, coisa que teríamos feito se o nosso vôo para lá não tivesse sido cancelado (nos deixando apenas como opção seguir pela estrada).

               Até Delhi, que tantos detratam, merece mais dias (ou mais visitas): a cidade é complexa e interessante, cheia de camadas históricas. Ela representa bem as contradições da Índia atual, com sua cidade antiga medieval e a nova Delhi planejada do século XX.

               Mas não: a escolhida em que iríamos passar mais tempo era Udaipur. Ela já tinha conquistado seus pontos comigo aos poucos, naquele processo de apaixonamento por lugares que não sabemos explicar muito bem como começou: se não foi amor à primeira vista, a conquista deve ter sido lenta e paciente, uma reportagem aqui, um relato de amigo lá e quando percebemos a vontade já tomou conta.

               No meu caso, eu tinha uma idéia de Udaipur como repositório de uma Índia perdida e romântica, salas de palácio vazias em tons amarelados, cheias de passagens em arco, uma luz de fim de tarde fazendo imaginar a história passada ali. Tenho que admitir que 007 contra Octopussy, algum tempo depois, me deu imagens mais concretas como base para sonho. E uma foto, em especial, arrematou tudo: um jardim e mesas, uma árvore grande fazendo sombra sobre eles, à beira do lago, com vista para um palácio. Não me perguntem onde eu a vi, se era parte de alguma matéria e em que veículo, mas o fato é que eu me peguei desejando muito um dia ir a Udaipur. E não só isso: queria achar esse cantinho e fazer a minha própria foto dele.

               O caminho até Udaipur é totalmente diferente dos que vemos em outras partes do Rajastão: já não temos o deserto nos acompanhando, mas montanhas e vales cheios de vegetação tropical, rios correndo ao longo da estrada. Água também não é um problema na cidade: ela vive à beira de vários lagos artificiais, sendo o mais famoso o Pichola. Além de proporcionar paisagens lindas (e curiosas) de onde quer que se esteja na cidade, eles ainda são um ponto de encontro dos moradores, que saem para passeios junto à água no final da tarde ou nos fins de semana, algo parecido com a passeggiata.

 

               Nos hospedamos à beira do lago, com vistas para o centro antigo e o Palácio da Cidade, na margem oposta. Foi sentada em um banco nos jardins do hotel, observando o cenário em meio às brumas da manhãzinha, que percebi que já tinha visto aquele perfil de construções: claro, na ‘minha’ foto. Comecei então a pesquisar o mapa da cidade em busca de algum lugar que pudesse proporcionar aquela mesma perspectiva.

               Achei possibilidades, mas tínhamos outros planos para aquele dia: um almoço marcado no Lake Palace, um ícone de Udaipur – era ali, no palácio branco no meio do lago, que tinham sido filmadas algumas das cenas mais interessantes do filme, o palácio da Octopussy.

               Ao tomar o barco que iria nos levar do nosso hotel até o Lake Palace, percebi que estaríamos perto de um dos possíveis lugares da foto, mas, como ele passou longe da margem, não pude comprovar. E me esqueci um pouco da busca almoçando um dos meus pratos indianos favoritos, murgh makhani acompanhado de butter naan, com a sensação de flutuar sobre o lago, olhando o palácio do outro lado.

 

               O Palácio da Cidade é o lar do maharana (marajá) de Udaipur, dividido entre a área íntima da família, um hotel (que também serviu de cenário para o filme) e a área histórica que pode ser visitada. Por fora é uma construção sólida, de cor dourada, com muralhas altas – dentro é um catálogo das mais lindas artes decorativas: afrescos, entalhes, mosaicos de vidro, espelhos, azulejos…

               Toda essa cor e delicadeza é embrulhada em cômodos entremeados por jardins, cada cantinho oferecendo uma vista perfeita do lago, das montanhas, da cidade…

…e até mesmo do nosso hotel.

               Mesmo já tendo visitado o palácio no dia anterior, iríamos vê-lo novamente e soubemos disso conversando com o gerente do Lake Palace. Falando sobre o filme, o hotel e a beleza do complexo em frente, ele mencionou que no dia seguinte à noite aconteceria ali a tradicional festa do Kartik Poornima em homenagem a Brahma, o criador. A comemoração é sempre na lua cheia do mês de Kartik (entre novembro e dezembro) e em Udaipur o marajá é o anfitrião. Uma parte dos convites é aberta ao público e resolvemos conferir: poderia ser espetacular, certo?

               Certo: a noite foi realmente inesquecível e provou que o marajá star, que adora a mídia, sabe mesmo receber. O grandioso pátio do palácio estava lindamente decorado, bebidas e canapés nos faziam esperar uma cena curiosa: a entrada do antigo soberano e sua família, acompanhados de banda marcial – os marajás perderam todo o seu poder de governo com a independência indiana, mas ainda detêm suas propriedades e títulos. Fogos sobre o lago marcam o início da festa e em seguida a apresentação da orquestra de câmera de Madras com o incrível flautista Bernard Wystraete. Alguns discursos e um delicioso jantar depois, voltamos para casa felizes com a coincidência da data e a oportunidade.

 

               No dia seguinte tive que adiar a busca, mas com bons motivos: um deles era visitar a área do mercado, já que eu e meu querido adoramos descobrir o que cada lugar tem de melhor, experimentar a agitação do dia-a-dia, ter uma idéia mais precisa da autenticidade do cotidiano.

               A Índia foi um prato cheio para isso e o de Udaipur talvez tenha sido o mais bacana que vimos na nossa viagem: frutas e verduras brilhantes de tanto frescor, cestos e balaios, cocos para uso nos templos, cereais, utensílios de cozinha (vontade de trazer uma panela para cozinha mogul) e muito mais.

               À tarde, os estímulos e a agitação do mercado foram substituídos pela calma e beleza, quando seguimos para os arredores da cidade para visitar alguns templos antigos. Antigos e simplesmente maravilhosos…

               O primeiro complexo, à beira de um lago em que se banhavam búfalos e crianças, era o Sas Bahu, do século XI. Eu já tinha visto muitos templos na viagem, sejam hinduístas, jainistas ou sikhs, e achava que nada mais me surpreenderia depois de Ranakpur, mas a beleza dos entalhes e do entorno me captaram. O silêncio era quase absoluto, só quebrado pelos risos das crianças ao longe. As esculturas em pedra tinham motivos misteriosos e ao mesmo tempo modernos, me lembrando linhas art déco. No meio do lago, a ponta de um templo afundado, que surgia em completo somente na época da seca. Os templos em pedra em primeiro plano, grandes árvores em verde claro ao fundo. Pássaros, flores crescendo em meio às pedras. Com certeza você já passou por essa experiência de estar em um lugar tão excepcional que a vontade é de absorver intensamente cada segundo. E de não querer ir embora.

               Foi com relutância e muitas olhadas para trás que fomos embora, mas ainda tinha mais uma surpresa deliciosa: o templo de Eklingji, dedicado a Vishnu e um dos mais reverenciados da região, sendo também o templo pessoal do marajá. Um pouco mais antigo, do século X, o complexo tem 108 templos e nem parece tão grande olhando de fora, enquanto esperávamos o portão abrir às 17h. Nem tão grande foi a espera, nos distraindo ao contabilizar tantos olhares curiosos em cima de nós, os únicos ocidentais ali.

(foto cedida por archer10)

               A porta é aberta e seguimos o ritual básico de tirar os sapatos, depois comprando guirlandas de flores. Seguimos para outra fila e continuam os olhares: alguns riem, outros só observam, mas não percebemos nada mais que curiosidade. Entramos então de verdade no complexo, templos e mais templos enfileirados, com o principal ao meio: foi para lá que seguimos, testas pintadas, envolvidos pela música circunspecta e incenso. Depositamos nossa oferenda em frente às quatro faces de Vishnu e saímos, os rostos tranqüilos orando ficaram dentro do templo.

(foto cedida por archer10)

               Passeando pelo complexo, encontramos mais uma família curiosa e também corajosa: um grupo de mulheres sorridentes de todas as idades me cercou, uma senhora idosa estimulando uma pequenina a me tocar. Uma das moças falava inglês, me fez perguntas e elogios e ao final todas se despediram respeitosamente. Fiquei tocada pelo encontro breve, pois além de carinhosas, elas representaram um dos poucos contatos que tive com as mulheres indianas – no turismo os prestadores de serviços são quase todos homens e elas, em geral, são bastante tímidas. Pena não poder tirar fotos ali dentro, uma vontade de registrar aquele lindo conjunto de mulheres.

(foto de www.esamskriti.com)

               Chegou o nosso último dia na cidade e com ele o fim da nossa viagem mais que marcante, inesquecível. Eu e o Arnaldo sentíamos uma tristeza grande, uma espécie de banzo indiano. Tínhamos quase o dia todo antes de irmos para o aeroporto e decidimos aproveitá-lo bem, curtindo mais uma vez o centro e com o objetivo de achar o meu lugar em Udaipur. Andamos pelos ghats até um dos portões de entrada da cidade antiga, seguindo as ruelas no sentido do palácio e dos templos principais.

               Passamos pela região de Lal Ghat e descemos pelo outro lado, atravessando novamente um dos braços do lago. Era ali que ficava uma pontinha de terra que avançava nele e onde, pelos meus mapas, havia um restaurante. Era minha aposta e não me desanimei com as ruas quase desertas.

               Entrando aqui e ali, chegamos ao Ambrai, um simpático hotel. Continuei atravessando pelo seu pátio até que o encontrei, o meu lugar: um jardim e mesas, uma árvore grande fazendo sombra sobre eles, à beira do lago, com vista para um palácio.

               Mas agora eu podia ver também que dali havia também uma vista linda para o Lake Palace e para um ghat próximo, onde pessoas se banhavam e lavavam suas roupas.

               O sol deixava o Palácio da Cidade dourado e fazia a água brilhar, agitada de vez em quando pelos barquinhos que passavam lentamente. O resto era todo igualzinho ao que eu tinha visto na foto original, mas com uma diferença brutal: dessa vez eu estava ali e fazia parte da paisagem.

                O final perfeito para uma viagem perfeita…só que deixou ainda mais difícil a tarefa de sair do centro histórico, sair do nosso hotel, sair de Udaipur, sair da Índia.

No coração de Minas


       Estava com vontade de escrever este post há muito tempo e, apesar de já terem se passado cinco anos dessa viagem, ela estava fresca na minha cabeça. A oportunidade veio com um convite para escrever um post: o Estado de Minas está lançando um portal de turismo novo, o Wikiminas, que tem uma proposta muito bacana. Além das informações básicas sobre os destinos, a idéia é ter usuários e visitantes acrescentando informações e criando um banco de dados cada vez mais completo e do ponto de vista de quem já foi e conferiu. Como um dos meus destinos queridos no Brasil, eu só posso ficar feliz e participar da iniciativa. Dêem um pulo e confiram o projeto!
       Mesmo tendo nascido e vivido toda minha vida em São Paulo, sou uma entusiasta de Minas Gerais, em boa parte por conta da origem de meus pais. Minhas visitas quando criança a um certo canto do sul de Minas me levaram a gostar de cada pequeno indício de que eu estava do outro lado da divisa: as casas antigas de colonos, os coqueiros no meio dos pastos, as cerquinhas tortas, os riachos com taboas…até mesmo as placas enferrujadas e asfalto esburacado me faziam sentir em outro território.

       Outras imagens queridas retornam, de quando chegávamos à cidade com a visão dos casarões de estilo eclético, o carro tremendo sobre o piso de paralelepípedo, o som das vozes que me cumprimentavam naquele sotaque mineiro delicioso: “Emilinha!” Poderia continuar aqui com tantos outros detalhes, mas, apesar de talvez deixar alguns relembrando suas próprias memórias infantis, esses são registros totalmente pessoais, praticamente indescritíveis. Melhor ficar aqui com o outro motivo que me leva sempre a voltar para Minas e que está ao alcance de todos: o seu conjunto de atrações naturais, históricas, culturais e humanas que não se parece com nada do que temos em outras regiões do país.

       Talvez o melhor lugar para sentir a originalidade de Minas seja o circuito das cidades históricas: é irresistível a combinação do patrimônio colonial com todas aquelas particularidades mineiras. Como não se sentir acolhido pelo relevo montanhoso e a gentileza e discrição de quem você encontra pelo caminho? Eu costumo brincar que essa região é o equivalente brasileiro do interior francês, quando você sai no seu carro explorando as pequenas cidades antigas, curtindo a paisagem de campo, comendo bem.

       Essa é a oportunidade de mergulhar em uma parte fundamental da história brasileira, o Ciclo do Ouro, quando Minas foi o centro da exploração deste metal e de pedras preciosas, especialmente no século XVIII. A riqueza material permitiu um desenvolvimento cultural nunca visto antes na história e é esse reflexo na educação, arquitetura, música, literatura e artes plásticas que é possível ainda sentir nas cidades históricas. Sobre esse assunto fantástico, especialmente o surgimento do barroco mineiro, sugiro fazer uma visita ao Fatos & Fotos, que tem posts detalhados e com muita pesquisa.

       Sortudos os próprios mineiros e também os que estão pertinho, como paulistas e cariocas, que podem sair, como eu, numa bela manhã em direção a Tiradentes, minha primeira parada ao percorrer o caminho, na companhia sempre fantástica da minha mãe: brincava que era uma vergonha uma mineira não conhecer as maravilhas do seu próprio estado e que iríamos resolver essa falha de currículo 😀

       Chegar à cidade foi como entrar em um cenário de conto de fadas: como podia existir um chuchuzinho de cidade assim? Preservada, pequena, atmosférica. Os detalhes das casas e das primaveras debruçadas sobre os muros atraem os fotógrafos, que têm aqui inspiração de sobra para vários cliques.



       E todos conferem os antiquários e as lojas, já que esta é uma região tradicional de artesanato de qualidade – fica em Bichinho, distrito a alguns quilômetros da cidade, a sede da Oficina de Agosto, famosa dentro do Brasil e fora. A vila foi bem retratada aqui, neste post do Fatos & Fotos.


        Mas o melhor mesmo é bater perna, curtir a calma de cidadezinha que parece estar fora do tempo presente, e visitar a igreja matriz de Santo Antônio. Ela é uma das mais lindas igrejas do barroco mineiro e o brilho do ouro que a recobre pode ser conferido de dia, mas também à noite se for dia de concerto na matriz.

       Chegar até ela já é um prazer, se for pela subida suave  através da rua Padre Toledo, a mais perfeita tradução de Tiradentes, de uma beleza concentrada. No pátio da igreja, a atração principal, além da fachada de Aleijadinho, é a vista da cidade e da serra de São José – um paredão de pedra que protege Tiradentes e faz com que cada um se sinta aconchegado aos pés dela. Vale a pena uma caminhada pela crista da serra, suas vistas, mata e rios. Outra possibilidade de caminhada é a que acompanha o canal que traz água da nascente até o Chafariz de São José, chamado de Mãe d’Água.

       E como não falar do conjunto fabuloso de restaurantes? Difícil acreditar na quantidade e qualidade deles numa cidade tão pequena, mas é fato a tradição gastronômica de Tiradentes, com algumas das melhores casas de comida mineira do Brasil, além de opções francesas, italianas… É só escolher: Tragaluz, Viradas do Largo, Estalagem, Theatro da Villa e muitos outros.
       Tiradentes é uma ótima base para ir até a vizinha São João del Rey, que, se não é tão charmosa quanto, compensa com seu patrimônio arquitetônico: a Igreja São Francisco de Assis e suas palmeiras imperiais, o Solar dos Neves, a Catedral Nossa Senhora do Pilar e as suas ruazinhas cheias de casarões anônimos que merecem um olhar calmo. A melhor maneira de fazer a visita é seguir pela maria-fumaça que percorre em várias viagens por dia o caminho entre as duas cidades.

(foto de Emília)
       Difícil se despedir de Tiradentes (quem quiser continuar a viagem, sugiro uma visita aqui), mas seguir é preciso – próxima parada:  Congonhas, para uma visita aos doze profetas de pedra-sabão esculpidos por Aleijadinho. A cidade não tem atrativos, mas o complexo da Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos compensa totalmente a parada. O complexo, que ocupa o topo de uma colina e uma boa parte de sua encosta, inclui o adro e escadaria da igreja com os magníficos profetas, a própria e sua curiosa sala de ex-votos e também as Capelas dos Passos com esculturas em madeira, na maior parte feitas por Aleijadinho. A Unesco reconheceu em 1985 a importância da basílica e a transformou em Patrimônio Mundial.

(foto de Emília)
       Daqui segue-se por mais um trecho de estrada até a grande estrela das cidade históricas de Minas – Ouro Preto. A minha primeira impressão não foi muito positiva: tendo saído da encantadora Tiradentes, foi um choque ver o centro histórico perdido no meio de morros cheios de casas de construção recente e sem nenhuma relevância arquitetônica (além da frustração de tentar me encontrar nas ladeiras estreitas e sem sinalização). Ouro Preto só me conquistou mesmo à noite, quando saímos pela cidade quieta em direção à praça Tiradentes, percorrendo as vielas cheias de bruma.

       Ela tem razão em sua fama: o conjunto dos seus casarões históricos, igrejas e museus é simplesmente precioso. As suas ladeiras diminuem o ritmo da visitação, o que é perfeito para manter o equilíbrio entre olhar para o alto, para observar os detalhes das construções, e para baixo, para não tropeçar no calçamento irregular. Não há mesmo porque ter pressa…no meio do caminho para a Casa dos Contos tinha um chafariz, e dali para a Matriz Nossa Sra. do Pilar tinha um café com broa de milho e de volta ao Museu da Inconfidência tinha um buffet mineiro no restaurante Chafariz.




       Difícil manter a contagem das suas igrejas e até pode-se pensar que é uma visitação cansativa depois de algumas, mas a verdade é que não dá para resistir a entrar em várias delas, já que cada uma tem uma característica exclusiva. Cada uma delas vale a visita: as matrizes, a Nossa Sra. do Rosário dos Pretos, a Santa Efigênia…Mas para mim é incomparável a Igreja de São Francisco de Assis , obra-prima de Aleijadinho e de mestre Ataíde. O primeiro conseguiu com seu projeto criar uma igreja de exterior compacto e harmonioso – era uma delícia parar para vê-la sempre no caminho para o hotel. O segundo pintou o seu teto com a cena da assunção de Nossa Senhora da Conceição que é bela e emocionante, um desafio conseguir sair da igreja sem várias apreciações demoradas.

       Um bate-e-volta até Mariana é rápido e vale a pena encaixar numa manhã, especialmente para ver a Catedral da  Sé com seu órgão espetacular (se der sorte você pode ver alguma das apresentações). Mas o cenário ainda mais característico de Mariana é a composição da praça Minas Gerais, com seus três lados tomados pela Casa de Câmera, a primeira do país, e também pelas igrejas de São Francisco e do Carmo. Uma foto da sacada da primeira, captando as outras duas, é um clássico dos álbuns de viagem.

 (foto de www.redelivredecultura.com.br)
       Na volta, se estiver de carro, vale uma visita à Mina da Passagem, para ter uma idéia de como funcionava a atividade que deu origem a toda esta ‘civilização’ que floresceu no interior mineiro no Ciclo do Ouro.
       Antes de seguirmos para Belo Horizonte, um desvio pelas cidades de Santa Bárbara e Catas Altas para visitar o isolado Santuário do Caraça, em meio à serra de mesmo nome. Fundado no início do século XIX como um colégio, funcionou até a década de 60, quando um incêndio destruiu parte de um dos dormitórios. Hoje a construção gótica e a reserva natural na qual está inserida foram transformadas em pousada, área de pesquisas e centro religioso. As acomodações são simples, mas a beleza do lugar compensa: as trilhas levam a cachoeiras e mata de cerrado, e bichos como jacus e caxinguelês podem ser vistos até da janela do quarto, aberta para o jardim.


(foto de Emília)
       Mas a principal atração animal aqui é o lobo-guará: todas as noites os padres os esperam com carne no pátio da igreja. Os visitantes podem observar em silêncio, mas há que se ter paciência e agüentar um pouco o frio da noite para ver seu caminhar elegante subindo a escada, o olhar desconfiado e finalmente o seu jantar. Um momento emocionante, assim como outro mais simples, mas de que nunca me esqueço: observar o fim de tarde na escadaria da igreja, ouvindo os pássaros e a fonte do jardim francês, a luz do sol entre a mata e os coqueiros, o cheiro de fogão a lenha preparando o jantar. Pura paz.
       Nos arrependemos de não termos dedicado mais um dia ao Caraça, mas era hora de começar a pensar na volta. No caminho para a capital, última parada em Sabará para uma visita muito específica: a pequena igreja de N. Sra. do Ó, extremamente simples no exterior. A surpresa é entrar e ver uma igreja ricamente ornamentada e com inusitados motivos orientais. Muito vermelho e dourado, santos com olhinhos puxados, dragões. Como eu tinha dito, é difícil cansar das igrejas, sendo cada um tão diferente da outra, todas lindas e interessantes…
       Mais um bocadinho de estrada e chegamos a Belo Horizonte, as suas ruas enfeitadas com ipês rosas cheios de bolas de flores. A cidade para mim é muito querida, já que na minha primeira vez nela, a trabalho, tive uma das melhores recepções: pessoas gentis, abertas, preocupadas, que marcaram positivamente o lugar, em definitivo.


(foto de Emília)
       Um pato delicioso no Taste Vin, uma parada na Pampulha, outra no Mercado Municipal (muitas comprinhas de doce de leite e queijo canastra) e estávamos voltando para São Paulo. Até hoje nos lembramos com carinho e saudades de uma viagem divertida, tranqüila, bela. Completa, enfim.
       Deixo um super agradecimento ao Arnaldo pelo empréstimo da maioria das maravilhosas fotos deste post (aquelas que não tem indicação de crédito). Se eu pudesse colocar todas…  Não dá para colocar todas, mas aqui estão os álbuns do Arnaldo no Flickr:
Tiradentes:
http://www.flickr.com/photos/interata/sets/72157609888450444/show/
Ouro Preto:
http://www.flickr.com/photos/interata/sets/72157606793085122/show/
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Outras viagens…
       O novo Frugal Traveler (The New York Times), Seth Kugel, conhece muito bem o Brasil e fez uma belíssima matéria sobre quase o mesmo roteiro, leia aqui.

De casa nova

Há um certo tempo eu queria deixar A Turista Acidental com uma cara nova: afinal, o blog já está quase completando três anos e ele merecia um upgrade. Durante esse período muitas coisas aconteceram e a mudança no blog reflete também essa nova fase na minha vida. Além das mudanças estéticas, decidi também criar o meu domínio e dar ao siri, além do visual diferente, também uma casa nova.
Aos que já são freqüentadores da pequena sala de visitas que é este blog, continuem sendo bem-vindos: o prazer de manter o blog aumenta com as visitas e comentários de vocês. Aos novos visitantes, sintam-se em casa.
Agradeço muito ao pessoal da TNCOM, em especial ao Marcelo Völker e ao Caio Vita, que entraram com todo o conhecimento técnico e dedicação para colocar o site no ar.
E fica aqui um agradecimento mais que especial a você, Arnaldo: o seu amor e seu incentivo multiplicaram a minha empolgação com esse projeto. Obrigada, meu querido!
Deixo vocês aqui com um post sobre Nova York, o primeiro desta nova fase. Um beijo para todos!

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