Samarkand e as ilusões

_DSC1234a

            Nesta semana eu continuava minha leitura de The White Rock, que conta as aventuras de Hugh Thomson quando jovem no Peru e as descobertas arqueológicas de que ele participou. Em determinado momento do livro, ele está lendo Tristes Trópicos, de Lévi-Strauss, e comenta: “Ele também me ajudou a definir uma constante da minha própria experiência de viagem – que viajar é a diferença perpétua entre o que se espera e o que se vivencia”.

_DSC0791a

            Todas as vezes que viajo eu construo na minha cabeça a atmosfera das cidades e lugares por onde irei passar. Imagino que isso deva acontecer com muitos viajantes. Qualquer texto, foto, vídeo ou conversa ajuda nesse processo e ele acontece naturalmente: quando me dou conta, já montei o meu roteiro e me imagino caminhando pelas ruas, já me sentindo ali.

_DSC1131a

            É inevitável, em algum momento da minha estada, que eu me dê conta de quanta diferença existe entre meu lugar imaginado e o real. E é divertido constatar isso. Mas o que existe também é a expectativa que, ao contrário da pura imaginação inócua, pode sim causar decepções. Como não criar expectativas quando se vai ao Camboja e Angkor Wat está no roteiro? Ou na primeira vez em que se visita Paris?

_DSC0885a

            A minha expectativa no Uzbequistão tinha um nome: Samarkand.

_DSC0883a

            Uma das cidades mais antigas da Ásia Central, desejada por Alexandre, o Grande, inspiradora de poemas, o emblema maior da rota da seda: Samarkand é um daqueles lugares míticos que julgamos inacessíveis, como Xanadu ou Timbuctu (este último, infelizmente inacessível agora e não sabemos por quanto tempo). Na minha mente, imaginava uma cidade antiga, com prédios em tons ocres e ornamentos turquesa, grandes bazares, bairros antigos cheios de ruelas labirínticas – e a grandiosidade de todos os monumentos que fizeram a sua fama.

_DSC1318a

            Khiva e Bukhara eram diferentes na minha imaginação, claro, mas não escaparam muito dessa ideia geral que eu tinha delas: cidades que faziam voltar séculos atrás. E foi desta última que saímos numa manhã fria, a bordo do expresso Sharq.

_DSC0547a

_DSC0521a_DSC0540a

            Seguimos pelas linhas férreas do Uzbequistão por 3 horas até Samarkand – ou Samarqand, Samarcanda ou Marakanda, como os gregos a conheciam. Ocupada desde cinco séculos antes da nossa era, colonizada por árabes, persas, turcomanos e mais um punhado de povos, se tornou uma metrópole antes de ser aniquilada por Gengis Khan. Mas, como outras cidades da Transoxiana, voltou à vida: o responsável foi Timur, que decidiu fazer da cidade a capital do seu império. Transformou-a em uma das mais prósperas e belas do mundo medieval, mas fez sofrer os povos ao redor com sua tirania e crueldade.

_DSC0821a

            Saindo da estação, o que vimos foi uma grande cidade, cheia de avenidas largas e prédios soviéticos. Os bairros planejados com ruas sombreadas por plátanos e construções russas do século XIX eram muito agradáveis, bons para caminhar, mas não era para isso que tínhamos vindo até aqui. Esperávamos que o lado leste da cidade fizesse jus ao nome e nos revelasse um pouco mais de oriente.

_DSC0554a

_DSC0572a_DSC0579a

            Mas, depois do check-in e um bom almoço, o que vimos não foi muito diferente: mais avenidas largas, grandes parques, fontes e murais em estilo soviético e de repente estávamos ali, na frente dele: o Registan.

_DSC0593a

            O emblema maior da minha viagem, o centro de toda a atividade na antiga Samarkand: três grandes madrassas, monumentos que sobreviveram a terremotos e à natural degradação do passar do tempo. As restaurações dos revestimentos e obras de arte originais trouxeram para nós alguns dos mais belos exemplos da arte islâmica.

_DSC0635a

_DSC0620a_DSC0717a

            Estas são algumas das mais antigas madrassas do mundo, o que vale especialmente para a Ulugbeg, da esquerda, que é do começo do século XV. A sua construção foi ordenada pelo próprio Ulugbeg, neto de Timur – mais cientista que governante, era um matemático e astrônomo talentoso.

_DSC0601a

            Há aqui uma exposição sobre sua importância na história da astronomia, mas o melhor lugar para testemunhá-la é numa colina afastada, próxima à enorme escavação arqueológica de Afrosiab (onde ficava a primeira Samarkand). Enterrado ali está uma parte de seu astrolábio gigantesco, com raio de 36m. Construído em 1420, era um dos maiores do mundo e fazia parte do seu observatório.

_DSC1114a

_DSC1087a_DSC1091a

            Mas a madrassa no Registan é também prova do seu interesse em investir em educação e transformar Samarkand no centro de ensino da Ásia Central, o que de fato aconteceu.

_DSC0643a

            As outras madrassas vieram somente dois séculos depois: a Sher Dor, com uma fachada conhecida de leões que, assim como a Nadir Divanbegi de Bukhara, desafia a proibição islâmica de retratar seres vivos…

_DSC0715a

            …e a Tilla-Kari, ao centro do complexo.

_DSC0605a

            Além de um simpático jardim de frutas no seu pátio e das tradicionais lojas de artesanatos e ateliês, ela abriga o que talvez seja a mais bonita mesquita da viagem (apesar de pequena): tetos e paredes em folha de ouro e turquesa, trabalhados com minúcias. Difícil encontrar rival para o efeito artístico conseguido na cúpula.

_DSC0963a

_DSC0934a_DSC0939a

_DSC0930a

            Hoje esse patrimônio está muito bem mantido, dentro de um belo parque, em frente a uma das maiores avenidas da cidade, a Registanskaya. Mas esse também foi o motivo do meu choque: não esperava ver o Registan embalado para presente, como uma joia na caixinha. Ele está ali, lindo: esperamos o reflexo do pôr-do-sol nas suas fachadas e ainda voltamos no outro dia cedo para vê-lo sob outra luz. Mas e o ambiente que me faria voltar séculos no tempo? É claro que as cenas dos bazares e caravanas ao redor das madrassas se perderam em alguma época, mas o que vejo hoje é um museu.

_DSC0807a

            Do lado direito do parque do Registan começa a Tashkent Kochasi, um calçadão amplo, cheio de lojas novas. Pelo meu mapa, ao redor estão alguns bairros antigos, inclusive o bairro judeu. Mas não dá para ver nada: muros altos os separam do brilhante calçadão. Em certo momento pude ver um dos portões de acesso aos bairros. Fiquei chocada.

_DSC1428a

            Na fronteira com os bairros russos está o mausoléu de Gur-e-Amir, um dos mais importantes monumentos da cidade.

_DSC0980a

            Ali está a família de Timur, incluído o próprio e Ulugbeg. Ao seu redor, mais um horrível muro, separando um bairro tradicional de um ponto turístico importante.

_DSC1013a

            Ficamos sabendo da vontade de Karimov de transformar Samarkand numa vitrine do desenvolvimento uzbeque: o planejamento urbano da parte antiga da cidade era resultado disso. Casas simples e ruas de terra não combinavam com o seu projeto e por isso acabaram segregadas. As largas avenidas, cheias de painéis de propaganda, são o complemento dos muros em torno dessas construções que fazem parte da lista de Patrimônios da Humanidade da Unesco. Só não entendo como a própria não fez nada para que, ao invés de demolidos, vários hammams antigos fossem restaurados, para ficar num exemplo. Muitos ficavam numa área onde hoje está uma grande praça estéril, ao lado do Registan.

_DSC0832a_DSC0842a

            Mas Samarkand é muito maior que os surtos de “enobrecimento” de sr. Karimov. Depois de visitar Gur-e-Amir…

_DSC0987a

_DSC1008a_DSC0998a

_DSC0999a

            …é só seguir até os fundos do mausoléu que um portão dá entrada ao bairro. O monumental fica para trás e tudo tem uma escala mais humana: as casas em pequenos becos, a mesquita antiga, a vendinha dos dois jovens irmãos e o senhor recém-tornado avô (cujas histórias contei aqui).

_DSC1030a

_DSC1052a_DSC1021a

            Pouquíssimos carros circulam, jardins e pátios são vistos pelas portas entreabertas, o silêncio conforta. Quase saindo, por outro portão, vi alguns B&B e achei que aquele seria um bom lugar para ficar. Mais alguns passos e estava na Registanskaya novamente.

_DSC1074a

            Na outra ponta da avenida, o calçadão pode esconder muita coisa, mas leva a um lugar que não perde a essência, mesmo com as intervenções estéticas no decorrer de seus 600 anos de existência: o bazar Siob. Os bazares da Ásia Central são alguns dos melhores lugares para se visitar em cada cidade e o de Samarkand perde em tamanho para o Osh, de Bishkek, e o Chorsu, de Tashkent, mas não em animação. Em pleno meio da tarde havia muita gente à procura de legumes e verduras, além das frutas incrivelmente doces: essa é a verdadeira experiência gastronômica no país – os figos e ameixas comprados aqui estragaram para sempre qualquer experiência posterior nossa com essas frutas.

_DSC1328a

            Há também a comida básica de todas as refeições, o pão, que normalmente é vendido em antigos carrinhos de bebê, picles de todos os tipos e uma variedade ainda maior de iogurtes, vendida numa área específica para eles.

_DSC1343a

_DSC1327a_DSC1353a

            Ainda sobram espaços para comer um cachorro-quente ou shashlyk (embora pareçam menos saborosos que as samosas vendidas nas casas dos arredores) ou talvez comprar um berço tradicional: quem assistia ao programa antigo do Anthony Bourdain talvez se lembre do episódio do Uzbequistão, quando ele compra um deles como presente para um casamento ao qual foi convidado…

_MG_4844a_DSC1320a

            O enorme bazar parece pequeno do lado da sua vizinha, a mesquita Bibi-Khanym.

_DSC1413a

            Parte do complexo de monumentos que deu a Samarkand o título de Encruzilhada de Culturas pela Unesco, o que vemos aqui é na maioria reconstrução após um terremoto destruir as principais estruturas, no final do século XIX. Aparentemente a construção era ousada demais para a época em que foi feita, durante o reinado de Timur, e estava nos limites da segurança.

_DSC1420a

            Além de ter sido feita rapidamente: segundo a lenda, quem encomendou a obra foi sua esposa chinesa que dá nome à mesquita, e ela apressou o arquiteto para que ficasse pronta antes que Timur voltasse de uma campanha. Ele se apaixonou por ela e só concordou se ela o beijasse, o que aconteceu. De alguma maneira, Timur ficou sabendo e a história terminou de maneira trágica.

_DSC1406a_DSC1366a

            É fácil aqui adquirir uma noção do ideal de cidade que Timur havia pensado para Samarkand ao ver uma obra como essa mesquita: grandeza, imponência e beleza, que deviam ter a função de conquistar a admiração, assim como mostrar seu poder aos seus súditos e estrangeiros. Tudo é gigantesco aqui, inclusive o Corão que ocupa o pátio central.

_DSC1378a

            Não muito longe dali, descendo a colina e tomando mais uma das largas avenidas, chega-se ao lugar que talvez que mais retenha o espírito antigo de Samarkand: Shah-i-Zinda, ou Avenida dos Mausoléus. O nome não promete muito, mas este é um lugar sagrado e belo.

_DSC1223a

            Depois do primeiro portal, uma mesquita à esquerda recebe alguns dos peregrinos para orações, enquanto outros sobem a escadaria, passando pelo segundo portal: um corredor cheio de edifícios tão incrivelmente bonitos que mais parecem um catálogo das mais diversas artes islâmicas.

_DSC1246a

            Cada um dos mausoléus é totalmente diferente do outro, e os azulejos conseguem ser tão ou mais impressionantes que o exterior, sem contar com o trabalho de ghanch (gesso trabalhado) e escultura em madeira.

_DSC1138a

_DSC1231a_DSC1269a

_DSC1206a

            Seguindo em frente pela “avenida”, chega-se ao centro do complexo, o túmulo de um parente do profeta Maomé, que trouxe o Islã para essa região no século VII.

_DSC1253a

            As atuais construções são da época de Timur e muitos membros de sua família estão enterrados aqui. Esta é uma Samarkanda que Ibn Battuta poderia ter encontrado quando esteve por essa região, em mais um pedaço de suas viagens sem fim.

_DSC1159a

            A Samarkand de Timur, Bibi, Ulugbeg e Ibn Battuta pode ter desaparecido com o tempo e com a ajuda de governantes sem qualquer noção, mas a cidade continuou sua evolução no tempo, se tornando uma das maiores metrópoles uzbeques, cheia de vida. E a verdade é que, com ou sem as intervenções estéticas, jamais deixaria de ser um museu de uma época de ouro. E que museu!

_DSC0814a

            Se Bukhara e Khiva acolhem, Samarkand prefere impressionar. E nós também nos tornamos reféns de Timur e seu sonho de grandeza. Depois de tantas expectativas e choques, eu também me dei conta de que tinha me apaixonado por Samarkand. E pelo Uzbequistão.

_DSC0729a

            E naquela última noite na cidade, mesmo dançando em meio a famílias num restaurante-balada kitsch, eu me sentia melancólica. Tinha ainda o Quirguistão pela frente, mas era como se minha viagem terminasse ali. Queria ficar mais. Preciso voltar.

_DSC0627a

Bukhara essencial

_DSC0471a

            Nada como poder descansar à beira de uma piscina do século XVII, cercada de amoreiras antigas, com duas magníficas madrassas em cada lado e uma chaikhana com suas tapchan na beira da água. Do outro lado, uma das principais ruas de pedestres de Bukhara começava a se animar com o movimento do final da tarde – senhores conversando nos bancos, crianças brincando no parque, trabalhadores fazendo compras e voltando para casa.

_DSC9926a_DSC9816a

_DSC9937a

            Lyabi-Hauz é o centro da atividade em Bukhara: uma das poucas piscinas que sobraram de dezenas que povoavam a cidade e os canais que as alimentavam. Ao seu redor estão belos edifícios do século XVI e XVII, como a as madrassas Kukeldash e Nadir Divanbegi – essa última com lindos desenhos de pássaros na sua fachada, prova de que o Islã aqui também era mais relaxado em tempos antigos.

_DSC9886a

            Um caravanserai de um lado do lago, um restaurante à beira dele, um jardim o dividindo das madrassas, onde noivos tiram fotos. O sol se punha e deixava todo o complexo arquitetônico dourado.

_DSC0499a_DSC9824a

            Mas esse final de dia perfeito foi uma recompensa e um contraste total à nossa jornada para chegar ali. Saindo cedo de Khiva, passamos por alguns vilarejos, com suas casas tradicionais com videiras na frente…

_DSC9772a_DSC9753a

            …e paramos em um deles para comprar suprimentos para a viagem de cerca de 7 horas, a maior parte dela por dentro do deserto do Kyzylkum.

_DSC9779a

            A distância entre as duas cidades é grande, mas se torna maior pelo estado lastimável da estrada, onde não conseguíamos fazer mais que 30 km/h…

_DSC9792a

            Nenhum sinal de vida em quilômetros, mas uma chaikhana nos salvou na hora do almoço, com sopa e espetinhos de cordeiro deliciosos, como uma miragem. Tivemos, além das dunas que ameaçavam enterrar o já péssimo asfalto, o Amu Darya como companhia por um longo trecho, servindo de fronteira com o Turcomenistão, na outra margem.

_DSC9782a

            No meio da tarde chegamos a Bukhara, uma das cidades mais antigas da Ásia Central, considerada também uma cidade sagrada: seu centro antigo é cheio de mesquitas, minaretes, e madrassas. Há tantas dessas últimas, sem contar as que foram destruídas, que não é difícil imaginá-la como uma cidade universitária. Hoje apenas uma ainda mantém alunos, que pudemos flagrar através de suas treliças: a Mir-i-Arab.

_DSC0281a

            Ela é uma das lindíssimas integrantes dessa praça que pode ser considerada um dos pontos centrais da cidade: além da madrassa, aqui está a mesquita Kalon, enorme, simétrica, bela.

_DSC0182a

            Percorrer seu pátio e corredores, vendo o complexo de vários ângulos, foi um daqueles momentos de surpresa na viagem, quando você se pega admirando o que vê em voz alta.

_DSC0252a

_DSC0286a_DSC0224a

            Mas o personagem principal da praça é mesmo o minarete Kalon.

_DSC0320a

            Ele surpreende por tudo: altura, o trabalho ornamental de tijolos em diferentes desenhos, seus alicerces profundos que evitaram que caísse mesmo depois de vários terremotos. E não somos somente nós, turistas, que ficamos impressionados: até Gengis Khan, não exatamente conhecido por sua piedade e respeito pelos povos que conquistava, ficou tão admirado com a estrutura (provavelmente nunca tinha visto uma tão alta), que poupou-a da destruição que destinou às construções vizinhas. Ela é portanto, uma das poucas lembranças da Bukhara antes da invasão mongol.

_DSC0291a_DSC0298a

            Para poder admirar melhor o complexo arquitetônico, passe por trás do minarete até a área residencial próxima, num nível mais alto: parece outro lugar, tão diferentes as visões. Mas a melhor maneira de constatar a sua grandiosidade é subir até o terraço do restaurante Chashmai Mirob e se encantar com a vista enquanto come mantis recheados de abóbora.

_DSC0159a

            Estávamos visitando o centro compacto de Bukhara numa sexta-feira, dia santo para muçulmanos e a mesquita Bolo-Hauz estava lotada. Senhores rezavam nas áreas interna e externa, mas muitos também se reuniam fora dela, na beira de outro reservatório – era claro que, mais que um evento religioso, a prece de sexta era uma oportunidade para fazer social. E tudo colaborava: o dia ensolarado e agradável, os bancos à beira da água, sob as árvores, a visão da belíssima mesquita coberta de entalhes de madeira, trabalhos em gesso, pilares esculpidos e as cores que cobriam paredes e teto.

_DSC0055a_DSC0074a

_DSC0078a

            Do outro lado da piscina, chamava a atenção uma estrutura pesada, talvez a maior da cidade: Ark, a fortaleza de onde reinaram os khans de Bukhara desde o século V.

_DSC0091a

            O que existe hoje é de épocas posteriores, mas infelizmente boa parte do que há dentro foi destruído pela invasão soviética e o que sobrou não pudemos ver – a visitação estava temporariamente suspensa. Mas as gigantescas e estranhas muralhas estão recuperadas em boa parte e são uma das visões mais inconfundíveis de Bukhara.

_DSC0112a

            Mas nem só de religião vivia a cidade: seus bazares cobertos atraíam multidões de comerciantes e suas caravanas. São estruturas arquitetônicas muito belas, pequenas cúpulas espalhadas aqui e ali pela cidade – é fácil identificá-las em uma caminhada pela cidade.

_DSC0385a

            Cada especialidade se concentrava em um bazar: perto de Lyabi-Hauz há o Taki-Sarrafon, região onde se concentravam os operadores de câmbio.

_DSC9833a

            A região ao sul dele é o tradicional bairro judeu, ocupado densamente desde o século XII e com direito a uma língua própria, mistura de persa com hebraico. A maioria emigrou para Israel, no entanto, e só um grupo pequeno ainda resta em Bukhara.

_DSC9941a

            Próximo à praça central está o bazar Taki-Zargaron, com seu característico pé-direito alto que facilitava a circulação de ar – essencial numa região sempre quente.

_DSC0361a

            Ele pertencia tradicionalmente aos joalheiros e digo isso porque hoje essa divisão de especialidades não faz mais sentido: muitos dos bazares foram perdidos no decorrer da história e, nos que sobraram, hoje a maior parte das mercadorias é composta de tapetes e suzanis (tecidos bordados). Hoje a venda de joias é uma exclusividade feminina no bazar do ouro, ao lado da mesquita Kalon.

_DSC0149a

            A venda de tapetes e têxteis é atualmente a principal função do Taki-Telpak Furushon, ou bazar dos fabricantes de chapéus: seus corredores são tomados por lojas de tapetes e, se você não consegue resistir a um, é melhor passar longe dele. Tudo é lindo, desde os mais finos de seda até os tribais, rústicos. Há tapetes novos e antigos, muitos com o padrão bukhara: fundo vermelho com motivos distribuídos em linhas e colunas. Apesar do nome, a maioria dos bukharas é feita no Turcomenistão, um dos principais produtores de tapetes orientais na atualidade. Mas se você tem a intenção séria de fazer uma compra, pode passar horas muito agradáveis andando pelas lojas, vendo os estoques e negociando.

_DSC0423a

            Certamente as peças que devem chamar a atenção são as antigas, muito belas e bem mais caras. Um bom lugar para apreciar este tipo de tapetes é o pequeno museu que fica dentro da mesquita Maghoki-Attar, bem próxima do bazar. Difícil escolher, no entanto, a que dedicar mais tempo: ao acervo ou ao edifício.

_DSC9862a

            Esta é a mesquita mais antiga da Ásia Central, datando do século IX, construída sobre o que já foi primeiramente um templo budista e depois zoroastriano. Sofreu modificações no século XVI, foi danificada por um terremoto no XIX e recuperada no XX: parte da escavação arqueológica ainda pode ser vista ao lado. Era ela que víamos na névoa da manhã depois de acordar, pela janela de nosso quarto.

_DSC0508a

            Ao contrário de outras cidades uzbeques e quirguizes, Bukhara conseguiu manter algumas poucas construções anteriores ao século XIII e à destruição provocada pelos mongóis. Além dessa mesquita e do minarete Kalon, o mausoléu de Ismail Samani é um exemplo muito bem conservado de arquitetura do Islã: foi construído entre os séculos IX e X, tendo sobrevivido quase sem restaurações graças à sua solidez.

_DSC9943a_DSC9951a

_DSC9984a

            Ele fica num parque a oeste do centro da cidade, onde há também restos da muralha original que protegia a cidade, além do curioso mausoléu Chashma Ayub: há aqui um poço onde as mulheres fazem fila para retirar a água. Segundo a lenda, o bíblico Jó teria batido seu cajado na terra aqui e feito brotar uma nascente.

_DSC0023a

            Seu formato incomum só adiciona à coleção arquitetônica de Bukhara, cheia de estruturas dos mais diversos tipos, ao contrário da unidade vista em Khiva. Outro exemplo disso é o Char Minar, bem escondido em numa praça de um bairro residencial: as quatro torres que o compõem não têm nenhuma função a não ser estética, e funcionavam como um dos portões de uma madrassa que já não existe mais.

_DSC0481a

            A verdade é que a lista vai mais além: a cidade é cheia de antigos palacetes, mausoléus, museus, hammams…Bukhara ainda preserva o ambiente que tinha na época pré-soviética, especialmente na sua região central.

_DSC0175a

_DSC0491a_DSC0284a

_DSC0428a

            É preciso muito mais que dois dias para aproveitá-la como se deve: com calma. Parando para um chá. Entrando nas lojas nem que seja somente para admirar seus tapetes. Sentando num dos bancos de Lyabi-Hauz e ver a transformação do complexo conforme o sol percorre sua trajetória.

_DSC9874a

            Entrando em uma madrassa qualquer e se surpreendendo com o que há lá dentro.

_DSC0390a

            Fazendo amigos. Alugando uma bicicleta para percorrer as vielas dos bairros antigos. Queríamos ficar mais: uma cidade gostosa como Bukhara merece mais tempo, é para ser namorada. Mas o dia seguinte nos reservava um lugar no trem para Samarkand.

_DSC0233a

Sobre encontros e pessoas

            Quando viajamos, somos tocados de diversas maneiras e as lembranças, quando voltamos, refletem isso, à conta-gotas. Às vezes, no meio de um dia de trabalho, olhando para uma planilha, surge uma imagem de uma paisagem sublime, que fez chorar de tanta beleza e grandiosidade. Ou pode ser dentro do carro, no meio do trânsito: o passeio por uma rua deserta de casas coloniais numa cidade asiática é revivido. Conversamos com amigos e o assunto é inevitável: podemos voltar por segundos no tempo e reviver a sensação de ver, pela primeira-vez, Machu Picchu, Angkor Wat, a Torre Eiffel ou o Taj Mahal.

            Talvez reste uma lembrança de um momento pessoal, que o cenário faz deixar mais doída a saudade. Ou ainda a memória do prazer físico, como a de um prato que se provou em lugar inesperado e que ainda revive a sensação nas papilas da textura e do sabor.

            Mas pode ser também que alguns rostos surjam. Pode ser uma senhora que ajuda no metrô, um quitandeiro que oferece frutas pra provar. Pode ser outro turista que uma espera qualquer reúne, um dono de pousada que oferece doces de sua própria casa como um mimo, um garçom que te leva para a cozinha para escolher a sobremesa mais fresca. Um anfitrião que vai além e te considera como alguém da família.

            Cada vez mais os rostos povoam as minhas memórias. E, enquanto escrevo esse post, me lembro de tantas cenas que um sorriso se instala permanentemente e até lágrimas ameaçam aparecer. Quantas pessoas incríveis já passaram pelo meu caminho, desde amizades que se aprofundaram, até mesmo contatos rápidos, que não puderam ir além pela própria natureza mutante/andarilha da viagem? Muitas vezes, nem precisa muito: um olhar e um sorriso são suficientes para estabelecer uma afinidade. Mas é preciso continuar, andar, seguir adiante.

            Nem sempre os encontros fluem facilmente: um traço de timidez ou introspecção podem levar o viajante a exercer mais o seu lado voyeur que interativo. Nem todos têm aquela facilidade de contato que, não só enriquece a experiência de viajar, como também ajuda muito em questões práticas. Me lembro de ficar fascinada, tímida que era quando adolescente, em ver meu pai fazendo amizades, ainda que efêmeras, em lugares estranhos para nós, como quando o surpreendemos conversando animado com um vendedor de frutas em um mercado alemão. O senhor era turco e, embora não houvesse nenhuma língua em comum entre eles, estavam se divertindo e rindo.

            Mesmo tendo o dom de conseguir estabelecer uma conexão com estranhos, o conhecimento da língua estrangeira sempre ajuda. Poder comunicar idéias completas, discutir e entender humor e ironia é uma habilidade que potencializa incrivelmente as experiências que tornam uma viagem inesquecível. Como nem sempre isso é possível, muitas vezes o fato de conhecer algumas frases básicas, estudadas no vôo de ida, ajuda muito não só a conseguir uma informação, mas também a abrir um sorriso.

            Vencida a timidez e adquiridos conhecimentos de outras línguas, seja em que nível forem, tudo começa a fluir com mais naturalidade. Mesmo assim, algumas culturas favorecem o contato, outras não. Existem lugares onde as pessoas querem saber de você, perguntam e falam de si. Em outras, não é de praxe puxar conversa com estranhos. Ou já recebem tantos turistas que o estrangeiro é apenas mais um na multidão, não suscita curiosidade. Nesse aspecto, algumas das minhas melhores experiências foram em lugares como o interior da Bahia, o Camboja, o Peru, a Índia, Minas Gerais, a Turquia, o México, a Grécia, a Costa Rica.

            Houve uma adição recente a esta lista, e com muito entusiasmo: o Uzbequistão.

            Eu não tinha muitas expectativas neste sentido. Sabia que era um povo relativamente isolado do cenário mundial pela sua história de submissão a ditaduras e pela própria posição geográfica, fora dos principais eixos econômicos. Talvez fossem desconfiados. Talvez fossem frios.

            Mas percebemos logo no primeiro dia que a teoria não fazia sentido. As pessoas sorriam, cumprimentavam, eram gentis. Recebíamos muitos olhares, mas nada que nos deixasse incomodados – era uma curiosidade inofensiva.

            A dificuldade na comunicação não era empecilho para que sentíssemos: somos bem-vindos aqui. E quem falava inglês naturalmente queria esticar a conversa e saber um pouco mais dos dois turistas de quem não conseguiam adivinhar a nacionalidade.

            Nos bazares, nas bancas de frutas, nos mercados: era natural que nosso olhar de interrogação fosse respondido com uma oferta de fruta, queijo ou lingüiça defumada, como aconteceu com a banca na beira de estrada, em que nos ofereceram para experimentar vários tipos de melões, antes que escolhêssemos o nosso.

_DSC9534a

            O comércio oferece naturalmente as melhores oportunidades de contato, é uma desculpa perfeita para puxar assunto. E nós aproveitamos sempre que possível, ainda mais aqui, considerando que o Uzbequistão é um país com tradição no comércio e na hospitalidade – tantos séculos testemunhando o fluxo de produtos, pessoas e ideias pela rota da Seda, do qual era peça central.

            Vemos essa influência se estender até os dias de hoje, enquanto observamos uma menina orgulhosamente nos recepcionar na loja de tapetes de sua família em Bukhara e abrir um tapete atrás do outro…

_MG_2671a

            …engatar no papo com Jamal, um restaurador e reciclador de tapetes, enquanto ele explica seu trabalho, sem pressa, mesmo sendo o único funcionário de sua loja…

IMG_1274a

            …ver a efervescência feminina de vendedoras e compradoras no bazar do ouro de Bukhara.

            E não só isso: tivemos várias experiências de generosidade, como no caso do bazar Chorsu e em Samarkand, quando a vendedora do bazar Siob nos vendeu um quilo das ameixas mais doces que já provamos pelo preço de meio, simplesmente porque não conseguia pesar quantidades menores em sua balança. E, como no caso do mocinho dos iogurtes de Tashkent, não aceitou pagamento pelo produto extra que recebemos.

_DSC1335a

            Ou ainda a dupla de irmãos no bairro antigo de Samarkand ao redor do mausoléu Gur-e Amir, que mantinha impecável o mercadinho familiar: gentis e de uma curiosidade tímida, não tinham um troco pequeno para nossas compras. Falamos que estava tudo certo, sem problemas, ele não se conformou: colocou mais alguns produtinhos na nossa sacola.

            A honestidade, hospitalidade, discrição e delicadeza dos uzbeques eram uma daquelas maravilhosas surpresas de viagem e então foi natural constatar a doçura e a educação de suas crianças…

            …que mesmo nos bairros mais simples, brincavam felizes e bem cuidadas.

            Já os mais velhos, reunidos nas chaikhanas, as tradicionais casas de chá, continham sua curiosidade e nos cumprimentavam respeitosamente, às vezes interferindo na nossa escolha com suas sugestões do que deveríamos comer.

_DSC0041a

IMG_1206a

            Nas mesquitas, éramos recebidos com um sorriso e convidados a entrar, até mesmo numa sexta, dia santo. O ambiente predominantemente masculino não impediu um convite sincero para que até mesmo eu, mulher não-muçulmana, entrasse para participar das orações.

            Estávamos em outubro, época preferida para os noivos celebrarem seus casamentos e os víamos em todo lugar. Infelizmente não tivemos a oportunidade de presenciar uma festa, mas tive a mais enfática expressão de apreciação vinda de uma mãe de noivo (ou noiva), na hora das fotos do casal: depois de uma conversa extremamente animada, nos despedimos e ela fez questão de tascar um selinho em mim! (É a senhora do meio da foto abaixo.)

_DSC9924a

_DSC0591a

            Nós nos divertimos muito, nessa e em outras ocasiões. Uma vez fomos parados no meio da rua num bairro tradicional de Samarkand por um senhor que saiu de seu carro, para dar alguns dos pães quentinhos que lotavam seu carro para nós: tinha acabado de nascer o seu neto e ele fazia questão de dividir sua felicidade com a comunidade. Nós fomos sortudos de estar ali bem naquele momento e partilhar um pouco da celebração.

            Um pouco à frente, vendo que eu fotografava as casas antigas, uma mulher me abordou e me levou para mostrar a sua, fazendo questão que eu posasse com ela na frente do seu portão.

_MG_4130a

            Em Khiva, a senhora que controlava os ingressos para a torre de observação de Kuhna Ark quis saber tudo de nós e se despediu com beijos altos em nossas bochechas…

_DSC8786

            …e pouco tempo depois, na saída da fortaleza, nos encontramos com um grupo grande de turistas uzbeques vindos do leste do país: todos nos cumprimentaram com grandes sorrisos e as mulheres, em especial, me cercaram por todos os lados – seguiram-se muitas perguntas, fotos e filmagem juntas e beijos de despedida.

            O guia que os acompanhava era o mesmo que tínhamos contratado para nos levar às fortalezas antigas do Karakalpakstan no dia seguinte: falava pouquíssimas palavras de inglês, mas o sorriso e a cortesia compensavam a falta de informações (que supríamos com nossos guias de papel).

_DSC9543a

            Aliás, os motoristas e as guias foram um capítulo à parte: nos ajudavam em tudo, às vezes atuando como tradutores, em outras ultrapassando o tempo combinado para nos mostrar lugares fora do comum. A Galina (de Tashkent), a Nazira (de Bukhara) e a Valentina (de Samarkand) não só dominavam cada uma de suas cidades, como foram excelentes companhias em nossos dias uzbeques. Tinham paciência infinita com nossa curiosidade, inclusive com relação a assuntos espinhosos (como a ditadura de Karimov e o período soviético) e acabávamos sempre falando sobre nossas respectivas vidas pessoais. Foram imprescindíveis para uma compreensão maior da sociedade uzbeque, que tanto nos encantava e que se permitia ser espiada por nós no pouco tempo que tínhamos no país.

_MG_2562a

_MG_5097a_MG_8011a

            Além dos incríveis uzbeques, pudemos nos conhecer viajantes de várias partes do mundo, algumas vezes encontrando os mesmos em várias cidades, já que o melhor circuito é um pouco óbvio e quase todo mundo o segue. Em especial tivemos a sorte de conhecer a Karin e o Wolff, um casal de senhores alemães: nós duas acabamos engatando uma conversa enquanto eu fotografava, esperando o almoço na yurta de Ayaz-Kala. Chegaram os maridos e a conversa continuou a fluir. O assunto: viagens, claro, especialmente a Etiópia, que tinham acabado de visitar. Acabamos nos encontrando por acaso no outro dia em Bukhara e jantamos juntos nas duas noites, nos despedindo já com saudades.

IMG_1285a

            Foram tantos encontros felizes e certamente estou esquecendo vários deles aqui. Mas cada um deles, ao seu modo, contribuiu para que a viagem desenvolvesse num crescendo, cada momento feliz somando-se aos outros e à beleza de cada lugar que estávamos tendo a maravilhosa oportunidade de ver.

            Dormimos em hotéis simples, comemos espetinhos em chaikhanas de beira de estrada, frequentamos alguns dos banheiros mais imundos que já vimos. Mas se existe um luxo ao viajar, esse é o de se sentir bem-vindo e em casa, mesmo estando a milhares de quilômetros da sua. E esse luxo o Uzbequistão oferece de sobra.

Khiva, a bela

            Era madrugada ainda e os hits dos anos 90 no rádio nos faziam mais companhia que o motorista sisudo no caminho do aeroporto. Ele nos deixou longe do terminal e nos indicou o caminho, achei que era má vontade. Mas não: ninguém pode entrar na área de embarque que não sejam os próprios passageiros e o controle policial começa uma centena de metros antes do prédio.

            Depois de mais controles, passagens pelo raio-x e espera numa sala espartana com apenas uma máquina de café para ajudar a matar a fome, embarcamos no avião da Uzbekistan Airways com destino a Urgench, a mais de mil quilômetros da capital. Apesar de não ter uma grande reputação, tivemos um voo tranquilo em um Airbus, nada dos Antonovs ou Ilyushins usados em décadas passadas (apesar de ainda constarem alguns no ativo da empresa).

             Depois da partida, o que se via pela janela eram os afluentes do Syr Darya, marcando rugas profundas na face do deserto do Kyzylkum. Logo o próprio rio separa o árido a leste de uma pequena faixa de cultivo a oeste, com canais de irrigação. Depois, só o deserto, imenso.

            A terra fica mais fértil enquanto nos aproximamos do nosso destino, devido à proximidade com o Amu Darya. O seu delta, que vai até o mar de Aral, delimita a região do Khorezm – habitada há milênios, muito antes da Rota da Seda se tornar importante. Urgench é a capital da província, mas nosso destino estava a meia hora do aeroporto, num ponto a menos de 10 km da fronteira com o Turcomenistão: Khiva.

            Remota é uma boa palavra para descrever essa cidade murada, que já foi um posto secundário na Rota da Seda, mas se tornou mais famosa pelo seu mercado de escravos. Os khans, líderes do estado do qual Khiva era capital, faziam negócios com os chefes tribais que habitavam o Kyzylkum e atormentavam a região com suas guerras para captura de prisioneiros.

            Longe de épocas bárbaras, hoje Khiva é mais que pacífica: é uma cidade pequena com pouco movimento, numa região fronteiriça. O que a torna tão especial para justificar cruzar o país até ela é justamente a sua citadela medieval, espetacularmente preservada: Ichon-Qala.

            Entrar pelas muralhas de adobe é como voltar no tempo alguns séculos ou entrar em algum cenário ideal para um conto de As Mil e uma Noites. É um ambiente atemporal, que poderia representa a Khiva de cem anos atrás ou do século XV, especialmente quando se foge do eixo principal da Pahlavon Mahmud…

            …e facilmente se encontram vielas vazias.

            Ou então à noite, quando a cidade fica quase deserta, com seus monumentos iluminados. Melhor aproveitar um pouco antes ou depois do jantar e sentir outra Khiva, mais atmosférica ainda, se isso é possível.

            Mas todas as recomendações que tivemos convergiram em uma só: aproveitem a cidade no pôr-do-sol! E nós aproveitamos. Nesta hora, ela é fotogênica de qualquer ângulo, mas o melhor lugar para se estar é a torre de observação de Kuhna Ark (a fortaleza dos khans):

            …toda Ichon-Qala pode ser vista daqui de cima, com destaque para a madrassa Rakhim Khan, onde hoje há um museu sobre a história e da cidade e seus khans, inclusive o que conseguiu manter Khiva independente da União Soviética por alguns anos, com direito a moeda própria…

            …a mesquita e a sala do trono do próprio forte Kuhna, com o símbolo da cidade ao fundo, o minarete Kalta Minor…

            …uma visão geral das ruas residenciais…

            …e das muralhas.

            As muralhas ficam especialmente reluzentes no final de tarde, o marrom do adobe se transformando em dourado e envolvendo toda a cidade, que também brilha dentro delas.

            Mas não é somente de marrom e dourado que Khiva é feita: os mais lindos tons de turquesa aparecem em todas as construções e complementam perfeitamente o tom do adobe. Além disso, fazem eco do lindo céu ensolarado que tivemos em toda a temporada uzbeque.

            O minarete Kalta Minor é o melhor exemplo disso. Seu perfil robusto contrasta com o de outros minaretes, mas por um bom motivo: o khan que ordenou sua construção queria que ele fosse tão alto que ele pudesse enxergar Bukhara, a 500 quilômetros de distância (ou quase três semanas de jornada em camelos). Segundo a lenda, somente quando a torre já estava com boa parte erguida é que ele percebeu que dali poderiam conferir seu harém, dentro de Kuhna Ark. E ordenou que a obra parasse.

            Parece pouco provável que um engano de tal porte tenha ocorrido, a história oficial é a de que a obra foi interrompida com a morte do khan. Um pouco menos interessante, no entanto.

            Cada fase do khanato teve seus momentos de expansão e renovação da cidade e a citadela hoje é um composto de amostras arquitetônicas de várias épocas. Mas o interessante é que não se percebe muito isso: os esforços de restauração foram tão intensos que se atingiu uma homogeneidade no ambiente geral de Khiva intra-muros. Essa minúcia pode suscitar uma nostalgia de um certo ar decadente, mas ao mesmo tempo é esse mesmo ar atemporal que permite uma experiência de estar numa bolha de tempo, além de demonstrar o cuidado com o patrimônio histórico.

            Como contraponto, uma incursão pelas áreas residenciais de Ichon-Qala mostram um lado mais autêntico, dão uma dimensão mais humana à cidade.


            Seja como for, o tamanho reduzido e a quantidade absurda de grandes obras de arte da arquitetura islâmica fazem de Khiva um lugar delicioso para se passear a qualquer hora do dia. A mesquita Juma é um oásis de paz bem no centro da citadela desde o século X, com seu mar de colunas e uma iluminação suave que convida a relaxar. O silêncio é quase absoluto.

            O mausoléu de Pahlavon Mahmud, mais ao sul, é um outro lugar especial, sobretudo se houver um imam cantando em benção às famílias.

             Continuando nessa rua, um minarete altíssimo e colorido chama a atenção: é a madrassa Islom-Hoja, com um pátio agradável e um museu de artes aplicadas.

            Seguindo para o norte, chega-se a uma área cheia de madrassas e mesquitas incríveis, mas a atração principal aqui é o palácio Tosh-Hovli. Foi construído como uma alternativa mais moderna e mais suntuosa que o Kuhna Ark e pode-se bem ver isso na qualidade dos entalhes de madeira nos pilares e tetos, dos azulejos e dos afrescos. A sensação conseguida com esse trabalho dedicado é de simetria, serenidade e beleza.

            Dali, é uma pequena caminhada até o portão leste, Polvon-Darvoza, um corredor onde ficavam as celas dos prisioneiros à espera de serem vendidos como escravos. São baixas e abafadas, faz imaginar o terror da população do deserto que tinha a infelicidade de ser capturada e levada para uma vida de cativeiro. Hoje apenas turistas e garotos voltando da escola frequentam o portão, mas as celas ainda estão ali como lembrança da história.

            Mas, em meio a períodos de barbárie, a cidade produziu também arquitetura, arte e artesanato únicos, além de ser o berço de um dos maiores matemáticos: Al-Khwarizmi, fundador da álgebra, cujo nome foi emprestado às palavras algarismo e algoritmo. Essa simplificação do nome faz menção à sua região de origem, o Khorezm.

            Muito antes de Khiva se tornar uma cidade importante na Transoxiana, o Khorezm já tinha abrigado cidades e fortalezas há mais dois mil anos. Algumas de suas ruínas ainda estão de pé e estão a cerca de cem quilômetros de Khiva no meio do Kyzylkum, em uma região chamada Elliq-Qala.

            Passamos por cima do Amu-Darya, hoje um rio com nível baixo devido à drenagem excessiva para o cultivo de algodão, um delírio de grandeza soviético. Com a redução do fluxo do Amu-Darya, também houve a diminuição do nível do Mar de Aral, transformando-o num mar praticamente morto. Por todo o caminho ainda vemos os canais de irrigação e o algodão, ainda a principal fonte de renda, mas que aos poucos vai minando todo o meio-ambiente da região.

            Avançamos pelo deserto até chegar à primeira fortaleza, Kyzyk Kala. Uma estrutura improvável no meio do nada, só arbustos e muralhas de adobe. Ainda procuramos uma entrada, mas parecia uma caixa fechada.

            Toprak Kala está a apenas alguns quilômetros, mas é totalmente diferente: além de poder ter acesso ao seu interior, é possível ter uma visão ampla de todo o complexo de templos que servia aos reis do Khorezm. Estima-se que tenha tido seu auge entre os séculos III e IV d.C.

            Não havia fim para o horizonte desértico, mas ele se expandiu mais ainda do topo de Ayaz Kala, uma cidade de barro sobre um monte, perdida no meio do Kyzylkum. Depois de uma longa subida pela areia…

            …a recompensa de andar por um recanto perdido da Ásia Central, imaginando do topo as caravanas de camelos andando chegando de reinos distantes…

             …vendo o forte do complexo num patamar mais baixo…

            …e imaginando que você é um dos poucos seres humanos num raio de muitos quilômetros.

            Poucos, mas não únicos: um campo de yurtas próximo recebe hóspedes que queiram uma experiência diferente.

            Nós só pudemos aproveitar da hospitalidade nômade para um almoço e esse poderia ser o final de dia perfeito, se ainda não tivéssemos chegado a Khiva a tempo de aproveitar cada minuto de luminosidade na cidade. Subimos novamente até a torre de Kuhna Ark para nos despedirmos da cidade.

            Khiva é linda e é remota. E nos ajudou a entender a atração que os lugares desérticos exercem sobre as pessoas. Afinal, nós saímos capturados por ela. Ainda bem que tínhamos Bukhara pela frente para nos consolar da partida.

Contatos imediatos: Tashkent

            A ansiedade é um bom antídoto contra o sono. O fuso também ajuda, afinal o corpo entende que é apenas 6 da tarde, mas o relógio marca 2 da manhã e tudo o que se quer é chegar ao hotel. Mas a burocracia uzbeque não deixa: para começar, o guichê para concessão do visto está fechado. Pergunto a um guarda e ele coça a cabeça, vira as costas e vai embora. Decidimos esperar um pouco, enquanto os europeus passam tranquilos diretamente para a imigração. Depois de uns 10 minutos aparece um sonolento funcionário, que nem acende a luz da cabine, só abre os olhos o suficiente para checar nossa carta convite e conceder o visto.

            Mas ainda estamos longe de nos vermos livres do austero aeroporto de Tashkent. Somos os últimos na fila da imigração, ainda esperamos um bocado pelas malas e o pior: uma espera maior ainda para passar pelo controle da alfândega. Uma guarda criteriosa analisa o formulário, enquanto a mala passa pelo raio x. Vê nossa nacionalidade e abre um sorriso: o primeiro de muitos que receberemos nos próximos dez dias. Ser brasileiro abre portas e o uzbeque se revelou naturalmente receptivo: uma combinação que transformou uma viagem potencialmente especial em espetacular.

            Percorremos as ruas desertas no meio da noite até o hotel, onde tivemos mais uma amostra da burocracia local: os passaportes saíram com o primeiro papelzinho de registro, com o período de hospedagem. Todos os visitantes devem ter registradas suas hospedagens junto ao Ovir (Escritórios de Vistos e Registros), o que os hotéis normalmente providenciam: é essencial manter todos os papéis até a saída do país.

            Falar que este é um dos bons hotéis de Tashkent não ajuda muito: o lobby desolador e o quarto escuro decorado em tons de vermelho e dourado fazem imaginar que ainda estamos em plena era soviética. Hotelaria não é o forte do país e acabamos nos acostumando à decoração duvidosa, aos colchões com molas quebradas e à caça ao wi-fi (isso sem falar em horários restritos para banho num deles). Mas esse é um incômodo mínimo para tanta recompensa.

            Tashkent é uma cidade antiga, com mais de dois mil anos de ocupação e importância na Rota da Seda. Mas o que vemos, andando pelas ruas, são edifícios relativamente novos, dispostos sobre um plano urbanístico de grandes avenidas. A nova versão de Tashkent data de 1966, quando a cidade foi destruída por um terremoto de grande intensidade e a ocupação soviética decidiu o estilo da reconstrução.

            Resta muito pouco da área antiga da cidade, casas quietas em ruas sem pavimento e casas caiadas…

            …o mais comum é ver prédios comerciais e governamentais de formas retas e conjuntos habitacionais, prédios e mais prédios idênticos.

            O interessante é notar que mesmo as construções pós-independência, incluindo as mais recentes, parecem saídas de um filme de época, voltando aos anos 60 e 70. Deve ser mesmo difícil encontrar um caminho inédito com tantos anos de dominação e um certo isolamento pós-independência com a ditadura imposta por Karimov.

            A lembrança de que estamos em um país relativamente fechado vem em alguns momentos, como nos rigorosos controles policiais em estações de trem e aeroportos, além de algumas proibições desnecessárias de se tirar fotos. Mas o sintoma mais evidente é a maneira comedida com que falam da situação política atual. E ‘dele’. Mas o que faz com os uzbeques tolerem um ditador que tem uma imensa folha corrida de violações de direitos humanos e controle de imprensa (sem mencionar o massacre de Andijon), é o fato de ele manter a paz e a estabilidade no país enquanto mantém longe o fanatismo religioso, mesmo estando cercado por tantos vizinhos complicados como Afeganistão e Tadjiquistão.

            Apesar de tudo, as pessoas seguem com suas vidas e não parecem pressionadas, talvez simplesmente acostumadas com um regime que já dura duas décadas. E percebemos muito bem essa rotina numa instituição da Ásia Central: o bazar. Cada cidade tem vários deles e a maioria das pessoas faz suas compras ali, desde alimentos até roupas, acessórios para cozinha e móveis.

            Em Tashkent o principal bazar é o Chorsu, com sua grande cúpula verde: ele representa bem a mistura do rigoroso estilo soviético com a tradição islâmica de motivos geométricos e presença de cor, tão comum em todo o país. A sua estrutura curiosa rivaliza com a diversidade incrível de produtos espalhados dentro dele e ao longo dos pavilhões: este é um dos mais antigos bazares da país (as construções vistas são apenas a sua cara mais recente) e um dos maiores também.

            Aqui tivemos uma das primeiras experiências da generosidade que encontramos em todo o Uzbequistão: um mocinho nos oferece uma bolinha de iogurte desidratada para experimentarmos, um dos petiscos mais comuns. Confirmando a nossa aprovação, ele coloca uma boa quantidade num saquinho e nos dá de presente – não aceita de maneira nenhuma o pagamento. Tivemos muitas experiências semelhantes durante a viagem, gentileza expressada naturalmente.

            O bazar Chorsu é também um lugar de fácil acesso a uma idiossincrasia uzbeque: o câmbio. A grande diferença entre o oficial e o negro faz com que ninguém utilize o primeiro. Além disso, a moeda (som) vale muito pouco, o que assusta quem troca uma nota de US$ 100: um bolo de dinheiro que ocupa boa parte de uma bolsa ou mochila e exige paciência na hora de contar as cédulas para qualquer pagamento.

            Até mesmo o valor da primeira refeição assusta, enquanto não nos acostumamos com a conversão: pão, salada de tomates e pepinos, alguns shashlyks (espetinhos) de cordeiro, sempre entremeados de pedaços de gordura, e potes de chá, pedidos em qualquer situação. Esses são os básicos da alimentação uzbeque e muitas vezes é o que se tem para comer. Mas apesar do pão corresponder somente às vezes às expectativas, o cordeiro raramente decepciona. E o chá, verde ou preto, se tornou nossa bebida básica de todas as refeições e ocasiões.

            Outras opções são o manti (espécie de dumpling), shorpa (caldo de carne com batatas e pedaços de carne), pelmeni (espécie de capeletti in brodo), dimlama (cozido de carne e legumes) e, claro, o prato nacional do Uzbequistão: o plov – arroz com pedaços de cordeiro, sendo preparado de diversas formas, mas sempre com muito óleo. Em Tashkent existe até um restaurante gigantesco especializado no prato: o Centro de Plov da Ásia Central. As refeições não são muito variadas e o excesso de carne e gordura pode ser um pouco desafiador para os vegetarianos e os que estão em dieta.

            A chaikhana onde almoçamos ficava em frente ao complexo religioso Khast Imam, o mais importante do país, composto por uma mesquita, uma madrassa (escola corânica), mausoléus e um museu de unidades raras do Corão: uma das mais interessantes atrações da cidade é justamente o mais antigo que resta no mundo, escrito no Irã no século VII. Enorme, é escrito em pergaminho na caligrafia kufi, uma forma antiga da escrita árabe. Curiosíssimo, mas infelizmente não pode ser fotografado – uma foto pode ser vista aqui (pela qualidade, tirada na surdina).

            Os uzbeques não usam mais a escrita árabe desde o início do século XX, quando foi introduzido o alfabeto latino na esteira da modernização das línguas turcomanas iniciada por Atatürk na Turquia. Pouco tempo depois os soviéticos obrigaram o uso do cirílico para grafar a língua uzbeque e durante décadas essa foi forma dominante, até a independência. Hoje, o alfabeto oficial é o latino, mas na prática o cirílico é tão usado quanto ele. O russo também é falado pela maior parte da população e quem sabe falar a língua tem grandes chances de socializar.

            Além dos caracteres cirílicos, outro resquício soviético é o metrô de Tashkent, mais uma  grande atração de Tashkent que não pode ser fotografada, por motivos estratégicos. Uma pena, pois as estações são espetaculares, cada uma em um estilo diferente, embora não tão grandiosas quanto o sistema-mãe, em Moscou. Construído nos anos 70, proporciona uma viagem no tempo para quem entra em um dos seus vagões azuis e verdes, as cores nacionais.

(foto de guidecity)

(foto de livetashkent (e) Nir Nussbaum (d))

            As estações centrais permitem acesso às avenidas largas e sombreadas próximas ao Senado, ao palácio do presidente, museus e à praça Amir Timur, com uma estátua equestre do próprio.

            Num dos lados da praça está o Hotel Uzbekistan, um clássico da época soviética, e é ali que os moradores da cidade passeiam e aproveitam o final do dia. Como nosso voo do dia seguinte foi adiantado pela Uzbekistan Airways, perderíamos meio dia que teríamos em Tashkent e então nós também aproveitávamos ao máximo o resto do nosso dia.

Estrada para o Oriente

            Eu tenho um fraco por paisagens vistas das janelas de aviões: sempre procuro por lugares conhecidos. Nesta busca já fui acompanhada pelos Andes num voo Lima – Santa Cruz de La Sierra e pude ver o Himalaia surgindo grandioso acima das nuvens na rota Paris-Bangkok (e o veria mais de perto num voo Katmandu – Delhi).

            Tive a sorte de olhar pela janelinha do corredor, na fila para o banheiro, no momento certo: uma montanha nevada bem próxima me fez questionar se seria o Ararat ou o Elbrus. Um gentil comissário deve ter levado a pergunta ao comandante porque logo em seguida ele anunciava o monte da Arca no alto-falante.

            Numa das visões mais lindas, vi surgir em meio à névoa da madrugada que se transforma em manhã as formas inconfundíveis da Torre Eiffel, com a Montparnasse ao fundo, pouco antes do último pouso no Charles de Gaulle.

            Dessa vez não foi diferente: o voo saiu com a noite já tendo descido sobre Istambul e a curva do avião sentido leste fez com que sobrevoássemos o mítico Bósforo com suas margens iluminadas e as duas grandes pontes ligando a Europa à Ásia.

            O período na cidade tinha sido de pouco mais de 24 horas, o suficiente para uma animada noite de sábado em Kumkapı, o antigo bairro dos pescadores, e uma caminhada sem compromisso por Sultanahmet e Eminönü para uma passada de olhos em todos os lugares já queridos: Mesquita Azul e Santa Sofia, a descida até o Corno de Ouro para uma breve visão dos barcos em direção ao estreito e de Beyoğlu, do outro lado da Ponte de Gálata. Ainda coube uma breve visita à Mesquita Nova e ao Bazar das Especiarias antes da partida.

            Istambul é sempre estrela, ela não tem vocação para coadjuvante e te lembra disso a todo momento, seja nos minaretes de contos de fadas que se erguem por toda a cidade, seja na lua cheia que ilumina o Mar de Mármara com seus inúmeros navios e a margem asiática do outro lado.

            Mas dessa vez, o foco e a ansiedade estavam muitos quilômetros a oriente, numa terra que guardava raízes históricas nos antigos reinos turcos que a dominaram junto com macedônios, persas, mongóis e russos, entre outros.

            O nosso avião seguia pela noite em direção a Tashkent, capital do Uzbequistão, país que mais simboliza o sonho da Rota da Seda. Na verdade, a rota era uma rede de caminhos, que seguiam do extremo oriente chinês até a Turquia atual e depois mais à frente até Veneza: o sentido inverso foi trilhado pelo veneziano Marco Polo, talvez o mais famoso explorador dos caminhos da Ásia Central.

            Antes que ele próprio seguisse em suas aventuras, seu pai e seu tio já tinham chegado à misteriosa Xanadu (Shangdu) de Kublai Khan, passando por Bukhara. A região hoje englobada pelo moderno Uzbequistão tem três cidades emblemáticas – Samarkand…


            …Bukhara…

            …e Khiva…

             …e era, desde pelo menos o século VI, uma encruzilhada comercial e cultural entre a Pérsia, Índia e China.

            O cosmopolitismo e a riqueza trazidos por esse fluxo incessante de povos fez florescer avançadas sociedades, que por sua vez atraíram também a atenção de conquistadores. Alexandre, o Grande, ficou apaixonado por Samarkand no século IV a.C. Depois de sucessivas ocupações, a Transoxiana (região além do Rio Oxus, o atual Amu-Darya) sofreu nas mãos de Gengis Khan, quando a maioria das cidades da região foi posta ao chão, antes de sua marcha destruidora rumo ao ocidente, no século XIII.

            Um século depois, era a vez de Timur (ou Tamerlão) reconquistar a região da mão dos mongóis e manter seu próprio padrão de barbárie no restante do império. Enquanto isso, em Samarkand, artistas de todo o mundo criavam a sua imponente capital, que até hoje evoca uma época de aventura, quando as grandes caravanas de camelos percorriam o deserto levando cargas preciosas de seda e papel, parando nos caravanserais das cidades para descanso e comércio.

            No século XIX, foi a vez dos russos se apoderarem do território e, com a revolução bolchevique, mais uma vez os reinos locais sofreram com a imposição de mais um ditador, desta vez Stalin. Depois de suas independências, os países da região tentam seguir com suas próprias pernas e retomar suas identidades, apesar de muitos ainda estarem nas mãos de ditadores.

            Mesmo com tantas perdas, a herança cultural ainda está viva e o espírito de hospitalidade permanece, algo natural para um povo que se acostumou a estar no centro do mundo. Estão ainda vivos também a história e o romantismo que os aventureiros souberam tão bem transmitir: para mim, as influências são tão antigas quanto Marco Polo e tão novas quanto William Dalrymple e seu ‘In Xanadu’ e Carl Barks e seus adoráveis patos em missões do Tio Patinhas ao ‘Patuquistão’.

            Pelo nosso tempo restrito, escolhemos nos concentrar no coração cultural da Rota da Seda, o Uzbequistão, e em sua contrapartida natural, o Quirguistão, por onde todas as caravanas passavam por conta dos passos de montanha, como o Torugart: eles permitiam o trânsito das caravanas através das cadeias do Tien Shan e do Hindu Kush.

            Na nossa rota estão marcadas passagens pelos bazares agitados e multicoloridos, que ainda guardam o espírito local e a essência do comércio que fez a fama da região…

            …encontros com pessoas sorridentes, gentis, curiosas e acolhedoras…

             …que vivem ainda de maneira tradicional…

            …arquitetura monumental e reveladora das habilidades dos artesãos mais inspirados…

            …caminhadas por montanhas cercadas de neve, folhas de outono e rios de água limpa.

            Não consigo dormir e meu coração bate cada vez mais rápido com a ansiedade de finalmente conhecer em um lugar sonhado desde menina. Não me lembro de ter ficado tão emocionada em uma chegada. Às duas da manhã, pousamos em Tashkent.

javaversion1 Warning: passthru() has been disabled for security reasons in /home/aturistaacidental.com.br/public/wp-content/themes/simplepress-2/footer.php on line 3 Call Stack: 0.0001 236160 1. {main}() /home/aturistaacidental.com.br/public/index.php:0 0.0001 236736 2. require('/home/aturistaacidental.com.br/public/wp-blog-header.php') /home/aturistaacidental.com.br/public/index.php:17 0.2144 6045776 3. require_once('/home/aturistaacidental.com.br/public/wp-includes/template-loader.php') /home/aturistaacidental.com.br/public/wp-blog-header.php:19 0.2170 6059240 4. include('/home/aturistaacidental.com.br/public/wp-content/themes/simplepress-2/index.php') /home/aturistaacidental.com.br/public/wp-includes/template-loader.php:74 0.5875 6606440 5. get_footer() /home/aturistaacidental.com.br/public/wp-content/themes/simplepress-2/index.php:32 0.5875 6607024 6. locate_template() /home/aturistaacidental.com.br/public/wp-includes/general-template.php:76 0.5875 6607224 7. load_template() /home/aturistaacidental.com.br/public/wp-includes/template.php:647 0.5876 6620000 8. require_once('/home/aturistaacidental.com.br/public/wp-content/themes/simplepress-2/footer.php') /home/aturistaacidental.com.br/public/wp-includes/template.php:688 0.5876 6620288 9. passthru() /home/aturistaacidental.com.br/public/wp-content/themes/simplepress-2/footer.php:3