Religiosa e laica, moderna e cheia de história, enorme e acolhedora, européia e…asiática. Istambul tem em seus antagonismos uma de suas maiores atrações e boa parte do seu mistério vem exatamente de se encontrar metade em um cada continente. Para quem nunca esteve na Ásia, Istambul é um amuse-bouche do que o continente pode oferecer e mesmo sem atravessar o estreito, já que a maioria dos pontos de interesse está em solo europeu. Mas estar na cidade e não colocar os pés naquele pedaço asiático é uma judiação.
E o interessante é que, do outro lado do Bósforo, a cidade realmente tem uma cara diferente, menos turística e mais residencial, onde a maioria dos bairros é formada por pessoas vindas do interior da Turquia, especialmente em Üsküdar. Para chegar aos diversos pontos dessa costa, pode-se tomar um dos ferries que saem regularmente do pier de Eminönü e fazem travessias pontuais ou um dos navios da IDO (que também atua com ferries) que fazem o cruzeiro do Bósforo, parando em vários pontos nos dois lados do estreito.
Um destes últimos é a opção para se chegar até Anadolu Kavağı, uma vila de pescadores que é o último ponto do estreito antes de se chegar ao Mar Negro. Esta é a única parada longa do barco, onde se tem tempo para comer e também visitar o castelo bizantino, com sua construção típica de pedras intercaladas com tijolos (que também pode ser conferida nas ruínas das muralhas ao redor da cidade). Pouco resta da sua estrutura e não ajuda muito o fato de não ser vigiado: visitantes escalando as ruínas, cães sem dono rondando o lugar e um descaso geral com a manutenção dão a impressão de abandono.

No entanto, a posição privilegiada do castelo permite uma visão sem obstáculos da desembocadura do Estreito do Bósforo no Mar Negro.

Talvez esse seja um ponto de pouco interesse para um turista em sua primeira visita a cidade, mas o fato é que boa parte da atração de Istambul se deve à sua posição estratégica, controlando o fluxo comercial entre a Ásia Central, Rússia e países do Cáucaso até o Mediterrâneo, inclusive o explosivo petróleo, que vem do Mar Cáspio por oleodutos e segue pelo Mar Negro para o resto do mundo. Para mim, todas as regiões banhadas por ele têm um apelo irresistível e, ao olhar para a imensidão que se abria à minha frente, não pude impedir que minha mente viajasse um pouco pela Romênia e Bulgária, Rússia, Georgia (e um pouquinho mais adiante, Armênia, Azerbaijão…)

Pela sua importância estratégica, a região toda em volta do castelo é de ocupação militar, tendo suas bonitas praias acesso proibido. Mas nada impedia os ornitólogos de se fixarem sobre o morro, estudando as migrações dos pássaros da região…

É possível voltar no mesmo barco ou voltar de táxi ou ônibus (linha 15A), passando pela simpática vila de Beykoz. Uma boa alternativa aos rústicos restaurantes de Anadolu Kavağı (e cheio de chamadores de turistas!) é aquele que fica em Hıdiv Kasrı, um palácio pertencente ao último governante hereditário do Egito, que o usava como sua residência de verão.

O lugar é deslumbrante, começando pelos seus jardins extremamente bem-cuidados e a linda vista do Bósforo e da lado europeu da cidade. Mas impressionante mesmo é o palácio em si, uma construção suntuosa que mistura art nouveau e decoração otomana e foi recentemente restaurado. O restaurante é lindo e sua comida deliciosa (só não serve bebidas alcoólicas).

Pensando bem, todo o conjunto da obra é encantador e pede por mais tempo para andar pelos jardins e relaxar. Mas não há muito tempo se quiser pegar o mesmo barco que ficou na primeira parada e pode parar no vilarejo de Kanlica se voce pedir ao funcionário do cais para avisar ao navio. Pois é…ele pode parar só para você 😀

Enquanto espera o barco, é sempre bem-vindo um iogurte feito na vila, que faz uma concorrência séria aos deliciosos iogurtes gregos. É uma ótima companhia no contemplar do brilho do sol na água e da rotina tranqüila de Kanlica…

Daqui o barco segue para seu destino final, Eminönü, com uma última parada no cais de Beşiktaş. Descer aqui é uma alternativa se a idéia a continuar viagem tomando um ferry de linha para Üsküdar, atravessando novamente o estreito para estar praticamente na desembocadura do Bósforo no Mar de Mármara. O bairro é uma das ocupações humanas mais antigas da região, anterior mesmo à fundação de Bizâncio e hoje é um dos lugares menos turísticos da cidade e mais pé-no-chão, algo próximo do que esperar do dia-a-dia do istambulita médio, que volta do trabalho, vai fazer compras, segue para a mesquita…É o lugar também para observar os jovens que se reúnem à beira d’água, nas interessantes arquibancadas acolchoadas com tecidos e almofadas coloridos, jogando conversa fora no final de tarde…

Fica aqui neste bairro também o barquinho que faz a ligação com Kız Kulesi, uma torre do século XVIII numa pequena ilha entre a margem em Üsküdar e Saray Burnu, a ponta da península de Sultanahmet.

Desde o período antigo sempre existiram faróis e controles de pedágio pela localização na entrada (ou saída?) do Bósforo. Mesmo que uma função prática fosse mais que evidente, muitas lendas surgiram neste pedacinho de terra, entre elas o mito grego de Hero e Leandro: ele atravessava o estreito todas as noites para se encontrar com a sacerdotisa de Afrodite, na torre onde ela morava. Como punição por ter perdido a virgindade, a deusa um dia faz surgir uma tormenta e Hero vê Leandro se afogar, se atirando da torre em seguida, em desespero. Como já dissemos algumas vezes aqui neste blog, os deuses eram mesmo muito cruéis. Enfim, mesmo que estudiosos sugiram que o local mais correto do mito fosse o Estreito de Dardanelos, mais ao sul, um dos nomes da ilha continua a ser Torre de Leandro.

Outra lenda conta a história de uma donzela a qual um oráculo previu sua morte por envenenamento e seu pai a tranca na torre para evitar a tragédia. Mas ela recebe uma cobra entre frutas que um barqueiro oferece (os senhores pescadores da foto abaixo são inocentes!) e ela sucumbe ao veneno do bicho. (Ah, os contos de fadas só mudam mesmo de endereço, não?) Daí surgiu mais um nome do lugar: Torre da Donzela, que ficou até hoje e que é também a tradução do seu nome turco.

Mas para ser sincera, o que fisgou a curiosidade pela primeira vez foi um 007, O Mundo não é o bastante, onde Sophie Marceau e Robert Carlyle decidem explodir Istambul para controlar o comércio de petróleo na região. Mas assim como foi em Meteora, o local não tem nada a ver com os cenários do filme, claro.



Mas isso nem de longe é um problema, pois a principal atração da torre é mesmo uma vista maravilhosa do pôr-do-sol, tingindo Üsküdar de dourado e escurecendo Sultanahmet, o que só reforça seu lindo perfil. A torre tem um café no último andar, onde um chá é o acompanhamento perfeito para para descansar as pernas e os olhos, depois de um longo dia de explorações…