De casa nova

Há um certo tempo eu queria deixar A Turista Acidental com uma cara nova: afinal, o blog já está quase completando três anos e ele merecia um upgrade. Durante esse período muitas coisas aconteceram e a mudança no blog reflete também essa nova fase na minha vida. Além das mudanças estéticas, decidi também criar o meu domínio e dar ao siri, além do visual diferente, também uma casa nova.
Aos que já são freqüentadores da pequena sala de visitas que é este blog, continuem sendo bem-vindos: o prazer de manter o blog aumenta com as visitas e comentários de vocês. Aos novos visitantes, sintam-se em casa.
Agradeço muito ao pessoal da TNCOM, em especial ao Marcelo Völker e ao Caio Vita, que entraram com todo o conhecimento técnico e dedicação para colocar o site no ar.
E fica aqui um agradecimento mais que especial a você, Arnaldo: o seu amor e seu incentivo multiplicaram a minha empolgação com esse projeto. Obrigada, meu querido!
Deixo vocês aqui com um post sobre Nova York, o primeiro desta nova fase. Um beijo para todos!

Deslocados no espaço…e no tempo

              As fotos abaixo podem confundir os que observaram a categoria deste post e seus tags: o que mosteiros medievais têm a ver com Nova York?


              Um tem tudo a ver com o outro desde a década de 30, quando foi construído The Cloisters: um museu especialmente dedicado à arte medieval, ligado ao Metropolitan Museum of Art.

              O maior entusiasta e patrocinador deste início foi o industrial John D. Rockefeller Jr., que doou sua coleção particular para formar o acervo. O museu é excepcional por uma série de razões, sendo uma delas resultado também de sua iniciativa: após adquirir terras ao norte da ilha de Manhattan, ele as cedeu para a construção do Cloisters, um museu instalado no lindo Fort Tryon Park.
              Além do prazer de estar numa área tão bucólica e pouco conhecida dentro de Nova York, as vistas que se têm dos mirantes do museu são fantásticas: ele está num ponto alto, na beira do rio Hudson. E, como se ainda não bastasse, a outra margem é também um parque: um belíssimo conjunto de falésias e mata (também doado, com objetivo de preservação, por Rockefeller para New Jersey). É uma deliciosa sensação ter uma visão inesperada dessas numa cidade tão explorada/estudada/destrinchada turisticamente como Nova York!

              O mais curioso é que eu sempre recomendei a visita para quem me perguntava sobre a cidade, mesmo sem nunca ter ido ao lugar. Um grande amigo meu acatou a sugestão e voltou maravilhado…e surpreso por saber que eu ainda não o tinha visitado 😀  Eu não sabia deste anexo do Metropolitan na primeira vez em que estive na cidade, há uns 15 anos atrás, e nesta vez eu não perderia a oportunidade.
              Para começar surpreendendo-se, não espere um edifício convencional: o Cloisters é uma réplica de mosteiro medieval. E antes que soe como algo ‘disneyano’, a razão para isso é também justamente o porquê do nome – The Cloisters é justamente uma coleção de…claustros!
              O museu adquiriu de coleções particulares grandes partes de claustros franceses, além de outras estruturas medievais, e os remontou, estruturando todo o museu em torno deles. Com isso, ao andar pelo museu, você se sente em uma estrutura híbrida: paredes com blocos autênticos entremeados com réplicas, tudo muito bem sinalizado, demonstrando onde termina o original e onde começa o complemento atual, como se percebe claramente na parede da direita, na foto abaixo…

…além de portais de pedra medievais em paredes reconstruídas e outras combinações incríveis do novo recebendo o antigo.

              Surpresa e encantamento são as sensações de quando se entra no primeiro claustro, o de Saint-Guilhem-le-Désert, do mosteiro no Languedoc. A luz entra no ambiente por um belo teto de vidro que filtra de maneira etérea os raios de sol…

…lançando um jogo de sombras sobre a colunata esculpida no século XI: uma seqüência originalíssima de diferentes padrões de escultura – flores, ondas, padrões geométricos, folhas…

              Uma pequena fonte tem o poder de movimentar essa beleza austera com a sempre bem-vinda água, além de trazer um barulho suave ao ambiente, cheio de turistas boquiabertos e silenciosos.

              Sempre me fascinou o fato de se encontrar tão longe de sua localização original, num país de contexto histórico totalmente diferente e como tudo isso aconteceu. Na verdade, a história do claustro de Saint-Guilhem é a mesma de tantos outros mosteiros e construções religiosas na época da Revolução Francesa: os monges foram expulsos pelo movimento, suas obras de arte vendidas e a estrutura ocupada para fins produtivos ou simplesmente abandonada.
              Neste caso, as peças do claustro foram parte de uma saga que envolveu uma grande dose de descaso e mesmo de dilapidação (um construtor que adquiriu o lugar o usava como ‘pedreira’), com fases em que caíram em mãos interessadas na preservação: é caso do juiz que adquire, no século XIX, uma parte significativa do claustro, sendo revendido depois para um antiquário, vindo a cair finalmente nas mãos de um escultor americano, Georges Gray Barnard, de quem Rockefeller comprou a coleção, junto com as peças dos outros três claustros do museu.

              Até hoje a cidade lamenta a perda do patrimônio histórico, reivindicando que o claustro é melhor entendido dentro do contexto de Saint-Guilhem e de seus belos entornos, mas o fato é que é um verdadeiro milagre que uma parte deste claustro tenha sobrevivido a tantos eventos desgastantes. Seria realmente desejável que estivesse em seu lugar original, mas é um alívio saber que tais obras de arte estejam a salvo para que hoje possam ser admiradas e estudadas.
              O centro do museu é ocupado pelo seu claustro mais imponente, vindo do mosteiro beneditino de Saint-Michel-de-Cuxa, nos Pireneus. Quando se entra nele a impressão é de ter se transportado para o interior francês: mais que em outros claustros do museu, aqui se sente a força do desenho medieval, tanto na estrutura como na decoração.

              O sol do alto verão entrava com força total no jardim e transbordava para as galerias do claustro: com uma luz dessas, difícil não sentir o alto astral – o melhor a fazer é se sentar e apreciar. Uma bela fonte ao centro, as flores…






  

  …as colunas entalhadas com cenas bizarras, que se tornavam menos soturnas, curiosas até, com o brilho do sol sobre elas.

              O claustro, do século XII, tem uma história muito parecida com aquele de Saint-Guilhem, tendo sido também adquirido por Barnard depois de muito garimpar as peças na região do mosteiro e em Paris. Mas existe uma diferença fundamental: Saint-Michel possuía dois claustros, sendo que ainda existe um deles no mosteiro. A torre do Cloisters é uma réplica da original em Cuxa, assim como as telhas que cobrem as galerias: é fácil perceber em todos os detalhes a maneira cuidadosa como o museu foi concebido.

              O claustro de Bonnefont-en-Comminges tem uma bonita colunata, mas montadas somente em duas laterais (provavelmente não deve ter sobrado muito do original)…

…e o que realmente chama atenção aqui é o jardim que foi projetado no centro, além de uma réplica de capela gótica em um dos cantos e a linda visão do Hudson abaixo.




              O Cloisters teve o cuidado de compor seus jardins com plantas, flores e ervas cultivados na Idade Média, para tentar recriar o mais fielmente possível o ambiente da época. O jardim de Cuxa é principalmente ornamental, enquanto o de Bonnefont é o mais usado em cursos e tem a maior amostra de ervas medievais do museu.

              Ele realmente se parece mais com um hortinha organizada do que com um jardim. É muito aconchegante e familiar: nessa hora dá vontade de ter trazido um livro para se sentar numa sombra e curtir a visão do verde em primeiro plano no jardim e também ao fundo, na moldura que faz o parque.

 

              Um livro para curtir os jardins é requisito para aproveitar um dia inteiro no museu, mas não é preciso se preocupar com o almoço: é possível comer um sanduíche e outras coisinhas no café do Cloisters. Suas mesas ocupam a galeria do claustro de Trie-en-Bigorre e seu lindíssimo jardim: a idéia é recriar os campos de flores silvestres vistos nas tapeçarias medievais.

              Mas não é só de claustros que o museu é feito: seu acervo é enorme e engloba também a famosa série de tapeçarias com o tema do Unicórnio, vitrais (que decoram a capela gótica), coleção de esculturas, iluminuras e portais em pedra, entre muitas outras obras de arte.


              Uma das melhores salas é a abside da igreja de Fuentidueña, vinda por empréstimo do governo espanhol. O ambiente recriado da igreja expõe muitas peças, mas as preciosidades são mesmo este crucifixo do século XII, executado em policromia e muitas pedras incrustadas, e o afresco catalão da mesma época, retratando a Virgem e o menino Jesus, os arcanjos e Reis Magos. Aqui me lembrei de outro grande museu de arte medieval, o Museu Nacional d’Art de Catalunya, em Barcelona, com seus maravilhosos afrescos.








              Concertos de música medieval são também uma atração aqui e são realizados nesta mesma capela. Certamente uma experiência belíssima, assim como os concertos realizados em mais um museu referência na área, o Musée Cluny, em Paris: um privilégio que pude presenciar.
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              É possível chegar até lá pela linha A do metrô (Take the A train…) até a estação da rua 190 e andar um pouco ou pegar o ônibus M4 por somente uma parada. A alternativa é vir de táxi, pegando a via expressa que margeia o rio, cuja saída para o Cloisters fica logo depois da ponte George Washington.
              Em cartaz: Até o dia 13/06/2010 é possível ver a exposição The Art of Illumination: The Limbourg Brothers and the Belles Heures of Jean de France, Duc de Berry, no prédio do Metropolitan. Para quem está na cidade e não quer ir até a pontinha de Manhattan, esta é uma oportunidade para ver um pedaço do acervo.
(fotos de Arnaldo e Emília)

Um pezinho na Ásia


Religiosa e laica, moderna e cheia de história, enorme e acolhedora, européia e…asiática. Istambul tem em seus antagonismos uma de suas maiores atrações e boa parte do seu mistério vem exatamente de se encontrar metade em um cada continente. Para quem nunca esteve na Ásia, Istambul é um amuse-bouche do que o continente pode oferecer e mesmo sem atravessar o estreito, já que a maioria dos pontos de interesse está em solo europeu. Mas estar na cidade e não colocar os pés naquele pedaço asiático é uma judiação.
E o interessante é que, do outro lado do Bósforo, a cidade realmente tem uma cara diferente, menos turística e mais residencial, onde a maioria dos bairros é formada por pessoas vindas do interior da Turquia, especialmente em Üsküdar. Para chegar aos diversos pontos dessa costa, pode-se tomar um dos ferries que saem regularmente do pier de Eminönü e fazem travessias pontuais ou um dos navios da IDO (que também atua com ferries) que fazem o cruzeiro do Bósforo, parando em vários pontos nos dois lados do estreito.
Um destes últimos é a opção para se chegar até Anadolu Kavağı, uma vila de pescadores que é o último ponto do estreito antes de se chegar ao Mar Negro. Esta é a única parada longa do barco, onde se tem tempo para comer e também visitar o castelo bizantino, com sua construção típica de pedras intercaladas com tijolos (que também pode ser conferida nas ruínas das muralhas ao redor da cidade). Pouco resta da sua estrutura e não ajuda muito o fato de não ser vigiado: visitantes escalando as ruínas, cães sem dono rondando o lugar e um descaso geral com a manutenção dão a impressão de abandono.

No entanto, a posição privilegiada do castelo permite uma visão sem obstáculos da desembocadura do Estreito do Bósforo no Mar Negro.

Talvez esse seja um ponto de pouco interesse para um turista em sua primeira visita a cidade, mas o fato é que boa parte da atração de Istambul se deve à sua posição estratégica, controlando o fluxo comercial entre a Ásia Central, Rússia e países do Cáucaso até o Mediterrâneo, inclusive o explosivo petróleo, que vem do Mar Cáspio por oleodutos e segue pelo Mar Negro para o resto do mundo. Para mim, todas as regiões banhadas por ele têm um apelo irresistível e, ao olhar para a imensidão que se abria à minha frente, não pude impedir que minha mente viajasse um pouco pela Romênia e Bulgária, Rússia, Georgia (e um pouquinho mais adiante, Armênia, Azerbaijão…)

Pela sua importância estratégica, a região toda em volta do castelo é de ocupação militar, tendo suas bonitas praias acesso proibido. Mas nada impedia os ornitólogos de se fixarem sobre o morro, estudando as migrações dos pássaros da região…

É possível voltar no mesmo barco ou voltar de táxi ou ônibus (linha 15A), passando pela simpática vila de Beykoz. Uma boa alternativa aos rústicos restaurantes de Anadolu Kavağı (e cheio de chamadores de turistas!) é aquele que fica em Hıdiv Kasrı, um palácio pertencente ao último governante hereditário do Egito, que o usava como sua residência de verão.

O lugar é deslumbrante, começando pelos seus jardins extremamente bem-cuidados e a linda vista do Bósforo e da lado europeu da cidade. Mas impressionante mesmo é o palácio em si, uma construção suntuosa que mistura art nouveau e decoração otomana e foi recentemente restaurado. O restaurante é lindo e sua comida deliciosa (só não serve bebidas alcoólicas).

Pensando bem, todo o conjunto da obra é encantador e pede por mais tempo para andar pelos jardins e relaxar. Mas não há muito tempo se quiser pegar o mesmo barco que ficou na primeira parada e pode parar no vilarejo de Kanlica se voce pedir ao funcionário do cais para avisar ao navio. Pois é…ele pode parar só para você 😀

Enquanto espera o barco, é sempre bem-vindo um iogurte feito na vila, que faz uma concorrência séria aos deliciosos iogurtes gregos. É uma ótima companhia no contemplar do brilho do sol na água e da rotina tranqüila de Kanlica…

Daqui o barco segue para seu destino final, Eminönü, com uma última parada no cais de Beşiktaş. Descer aqui é uma alternativa se a idéia a continuar viagem tomando um ferry de linha para Üsküdar, atravessando novamente o estreito para estar praticamente na desembocadura do Bósforo no Mar de Mármara. O bairro é uma das ocupações humanas mais antigas da região, anterior mesmo à fundação de Bizâncio e hoje é um dos lugares menos turísticos da cidade e mais pé-no-chão, algo próximo do que esperar do dia-a-dia do istambulita médio, que volta do trabalho, vai fazer compras, segue para a mesquita…É o lugar também para observar os jovens que se reúnem à beira d’água, nas interessantes arquibancadas acolchoadas com tecidos e almofadas coloridos, jogando conversa fora no final de tarde…

Fica aqui neste bairro também o barquinho que faz a ligação com Kız Kulesi, uma torre do século XVIII numa pequena ilha entre a margem em Üsküdar e Saray Burnu, a ponta da península de Sultanahmet.

Desde o período antigo sempre existiram faróis e controles de pedágio pela localização na entrada (ou saída?) do Bósforo. Mesmo que uma função prática fosse mais que evidente, muitas lendas surgiram neste pedacinho de terra, entre elas o mito grego de Hero e Leandro: ele atravessava o estreito todas as noites para se encontrar com a sacerdotisa de Afrodite, na torre onde ela morava. Como punição por ter perdido a virgindade, a deusa um dia faz surgir uma tormenta e Hero vê Leandro se afogar, se atirando da torre em seguida, em desespero. Como já dissemos algumas vezes aqui neste blog, os deuses eram mesmo muito cruéis. Enfim, mesmo que estudiosos sugiram que o local mais correto do mito fosse o Estreito de Dardanelos, mais ao sul, um dos nomes da ilha continua a ser Torre de Leandro.

Outra lenda conta a história de uma donzela a qual um oráculo previu sua morte por envenenamento e seu pai a tranca na torre para evitar a tragédia. Mas ela recebe uma cobra entre frutas que um barqueiro oferece (os senhores pescadores da foto abaixo são inocentes!) e ela sucumbe ao veneno do bicho. (Ah, os contos de fadas só mudam mesmo de endereço, não?) Daí surgiu mais um nome do lugar: Torre da Donzela, que ficou até hoje e que é também a tradução do seu nome turco.

Mas para ser sincera, o que fisgou a curiosidade pela primeira vez foi um 007, O Mundo não é o bastante, onde Sophie Marceau e Robert Carlyle decidem explodir Istambul para controlar o comércio de petróleo na região. Mas assim como foi em Meteora, o local não tem nada a ver com os cenários do filme, claro.



Mas isso nem de longe é um problema, pois a principal atração da torre é mesmo uma vista maravilhosa do pôr-do-sol, tingindo Üsküdar de dourado e escurecendo Sultanahmet, o que só reforça seu lindo perfil. A torre tem um café no último andar, onde um chá é o acompanhamento perfeito para para descansar as pernas e os olhos, depois de um longo dia de explorações…

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