Apesar de ter sido capital do império bizantino, muito pouco dele ainda resta preservado em Istambul. Um dos melhores exemplares fica num bairro distante do centro, no limite da antiga cidade,  junto às muralhas erguidas pelo imperador Teodósio no século V: a igreja de Chora, transformada em museu – Kariye Müzesi.

Chegar até lá exige um longo trajeto de táxi ou uma combinação de meios de transporte – de Sultanahmet toma-se o bonde no sentido Zeytinburnu (oposto ao que vai para Beyoğlu, afastando-se do Corno de Ouro) até a estação Yusufpaşa, de onde se vai, com uma caminhada pequena, ao metrô – estação Aksaray. Duas estações a frente, Ulubatlı e uma corrida de táxi de dois minutos e se está na Igreja de São Salvador em Chora (Parece coisa de maluco? Talvez seja, mas a blogueira aqui é uma grande entusiasta do transporte público – fiquei especialmente fã dos bondes modernos daqui – e nada empolgada com os taxistas locais, depois de cair no conto do vigário de um deles.)
Neste pequeno trajeto de táxi é possível dar uma boa olhada nas muralhas, ou o que restou delas, nos trechos em que não houve reconstrução: foram elas que ajudaram a cidade a resistir tanto tempo à invasão otomana no século XV. Apesar de imponentes e interessantíssimas do ponto de vista histórico e arquitetônico, não é recomendado o passeio a pé na sua extensão, por passar por trechos inseguros.
Aliás,  Edirnekapı, já distante do burburinho dos bairros mais turísticos, se revela bem mais tradicional e conservadora do que a Istambul cosmopolita de Taksim ou Nişantaşi, o bairro da moda. Os moradores aqui são originários, em grande parte, do interior e foi aqui o maior índice de abayas vistas na cidade. O ritmo é lento, as ruas são de paralelepípedo e as casas, de madeira.

(Um parêntese grande: a quantidade de mulheres em abayas é pequena – a grande parcela da população feminina se divide entre usar a roupa ocidental moderna ou a dupla véu + sobretudo, que normalmente é colorida e combinando entre si. O interessante é que não há divisão entre elas: um mesmo grupo familiar ou de amigas pode conter tanto o kit véu como barrigas de fora. Conversando com uma canadense que já tinha morado na Turquia, ela me confirmou algo que já tinha lido em várias fontes: hoje em dia as mulheres optam por usar o véu, mesmo em famílias não-conservadoras, como uma maneira de pontuar a sua posição política pró-Islã e também como forma de reforçar sua identidade cultural. Esse aumento no uso de véus é polêmico no país, uma vez que a Turquia insiste em manter as conquistas seculares de Atatürk, além de tudo o que envolve a questão do ingresso ou não do país na União Européia. Sobre esse assunto, recomendo a leitura deste post instigante da Flavia Penido.)



Apesar da igreja original ter sido erguida na época da construção da muralha, a construção atual é do século XI. Mas o que realmente interessa em Chora é o seu interior: a igreja inteira é tomada por mosaicos dourados, que contam histórias da bíblia com detalhes e uma delicadeza tocante, além de pedaços onde os afrescos são predominantes.

Toda essa decoração só veio ser completada três séculos depois por ordem do governante da época, Teodoro Metochites: aqui está ele num destes afrescos, oferecendo a igreja a Cristo.

A igreja teve uma história parecida com Santa Sofia: foi adaptada para ser uma mesquita após a conquista pelos otomanos, com todas suas imagens cobertas com gesso. Foi transformada em museu em 1948 e a restauração que se seguiu revelou estas obras de arte, sendo que algumas das mais bonitas são as cúpulas, como esta de Cristo Pantocrátor e a sua árvore genealógica.

A maior parte dos mosaicos da Kariye Müzesi é sobre as vidas de Maria e de Cristo e são de uma grande delicadeza. É muito fácil reconhecer as cenas aqui e ali: Joaquim e Ana apresentando a pequena Maria ao templo…


…o emocionante encontro de Ana e Joaquim – os dois quase num beijo, o nascimento de Cristo, a fuga para o Egito, as cenas horríveis dos infanticídios por ordem de Herodes, os milagres de Cristo, como as bodas de Caná…

Existe a dificuldade de tirar fotos, já que essas cenas estão em sua maioria no teto e paredes altas, mas é grande a diversão em olhar os mosaicos e ver as histórias, como se fosse uma grande história em quadrinhos medieval…além da delícia que é ver tanta beleza concentrada.

Alguns deles ocupam paredes inteiras e, como se não bastasse o tamanho e a proximidade, são ainda obras primas… destas, acredito que a mais impactante seja a de Cristo Khalke: o rosto é tão maravilhosamente trabalhado que parece uma pintura, não mosaico. A expressão do seu rosto atrai e é difícil desviar o olhar. A roupa tem caimento e brilho (minhas fotos não fazem justiça, vocês vão ter que acreditar em mim 😉 )

Em comparação com o nártex interior e um dos externos, que brilham com o dourado dos mosaicos, a nave fica pobrezinha. Seria uma sala vazia se não fosse por umas poucas obras, entre elas uma bonita versão da assunção de Maria.


Depois de tal overdose de beleza, ainda falta conferir o lado B de Chora: o outro nártex, inteiro tomado por afrescos incríveis…

…sendo que o mais famoso é o Anastasis, onde Cristo levanta Adão e Eva dos seus túmulos…impossível não admirar as cores e o movimento das roupas…


…os rostos desenhados são cheios de emoção, tão delicados…

Os afrescos são da mesma época dos mosaicos e muitos foram recuperados: apesar dos pontos irrecuperáveis, é bom saber que a maior parte foi trazida de volta à vida.

Chora é um desses lugares onde dá para ficar horas fuçando, de boca aberta, e ajuda no clima o fato de ser pouco visitada. Se depois de tudo a fome apertar, a sugestão é descansar as pernas e comer logo ao lado, literalmente, no Asitane. A proposta do restaurante é resgatar a cozinha palaciana do período otomano: saber se as receitas são autênticas está fora da minha alçada, mas a comida é deliciosa, sofisticada, cheia de aromas. Aprovado por esta blogueira.

Uma possibilidade de roteiro (que eu não segui por falta de tempo) é continuar o passeio por este canto da cidade pouco explorado, visitando os bairros de Balat e Fener, onde convivem comunidades judaicas e gregas. Igrejas ortodoxas, sinagogas e mesquitas à vontade para escolha, mas o ponto mais famoso dessa região é a mesquita do bairro de Eyüp, um ponto de peregrinação e de circuncisão de meninos aos domingos. Depois de tudo, é recomendada uma parada para uma bela vista no Pierre Loti Café.