Enfim, hora de ver os dois maiores símbolos de Istambul, ícones desta cidade que pode se gabar de ter duas das atrações interessantíssimas: Santa Sofia e Mesquita Azul.

As duas estão em todos os cartazes de divulgação turística e com certeza serão aquelas que você já deve ter visto nas primeiras páginas de qualquer matéria sobre Istambul em revista de turismo. E com razão, é difícil sair do clichê aqui: as duas formam um conjunto belíssimo, gigantesco e harmonioso, divididas pela deliciosa praça de Sultanahmet.
Começando pela incomparável, fantástica, única (a quantos clichês é permitido o uso a uma blogueira, hein?  😉 ): Santa Sofia.

As filas já estão a todo vapor logo cedo, os ônibus estacionados em frente, mas ela é grande (grandiosa é a melhor palavra) e acolhe com calma turistas de todas as nacionalidades, guias nas mãos ou à frente, com guarda-chuva ou bandeira, explicando tudo tintim por tintim. Santa Sofia, ou Ayasofya em turco, é uma atração turística com tudo a que se tem direito: muitos fãs e toda a razão em tê-los.

É uma construção que vem embasbacando pessoas há quase quinze séculos, pela sua beleza, monumentalidade, engenhosidade. Desde que foi planejada pelo imperador bizantino Justiniano para ser a principal igreja ortodoxa da capital do império e completada em 537 d.C., Santa Sofia permaneceu durante quase um milênio como a maior construção cristã do mundo. E teria ainda sido por mais tempo se não fosse pela conquista de Constantinopla pelos otomanos em 1453 (Vocês sem lembram? Queda do império romano do Oriente? Pois é, voltei ao meu tempo de colegial.) Foi aí que o principal templo cristão da principal cidade do mundo, na época, foi transformada em mesquita.

Muita coisa mudou em Santa Sofia com esse evento histórico: a construção de minaretes, alterando a estrutura externa do edifício…

…a adição de um mihrab, um minbar e outras estruturas próprias ao funcionamento da mesquita, e a cobertura de seus magníficos mosaicos dourados, retratando cenas bíblicas, com gesso – já que o tema não condizia com a condição atual de mesquita, além do islã proibir a representação de figuras humanas.

No início do século XX mais uma mudança: Atatürk (sobre quem eu já falei aqui neste post) decide que ela não será mais catedral cristã ou mesquita e transforma Santa Sofia em museu. E a partir daí começaram alguns processos de restauração que, graças a eles, turistas como eu e você podem ver alguns dos mosaicos mais lindos do mundo, recuperados depois de séculos em reclusão.

Mas vamos começar de maneira correta, o que significa admirar calmamente o seu exterior. Ela não passa despercebida, é uma senhora robusta e bonita em seu rosado de vários tons…Mas gostoso é mesmo se deixar levar por onde os olhos pararem: na cúpula imensa, na sua cor esmaecida, nos minaretes – diferentes uns dos outros. No próprio gigantismo. (Bom mesmo é poder observá-la em todas as luzes: de manhã e no final da tarde, com sol e no finalzinho da chuva…)

Uma vez dentro dos portões, dá para ver melhor os contrafortes adicionados ao longo do tempo para sustentá-la, uma vez que o edifício esteve muito dilapidado em várias etapas de sua vida. É possível também ver as escavações mostrando as basílicas anteriores à atual construção. Mas quando se adentra o nártex exterior e o interior é que se começa a ter idéia das dimensões da Ayasofia, além de oferecer ainda, como um aperitivo, um lindo mosaico sobre o Portão Imperial, de Cristo Pantocrator (onipotente).
Mas a passagem pelo Portão, em uma certa época restrita aos imperadores, revela uma das mais engenhosas obras já realizadas: a nave, onde a enorme abóboda flutua, apoiada em semi-abóbodas menores, padrão que ainda continua por mais dois patamares, até se ver que não existem pilares aparentes sustentando todo esse exagero: Santa Sofia foi planejada para que desse a impressão de estar sustentada pelos céus, e não plantada firmemente em terra.

(Difícil uma foto boa da abóboda, segue uma emprestada: www.tufts.edu)
A nave praticamente não ocupada (a não ser pelos andaimes, claro), juntamente com a luz que entra suave e rarefeita, ajuda a sentir a beleza do ambiente e é inevitável imaginar como teria sido a reação daqueles que estiveram presente à sua inauguração: sua incredulidade e maravilhamento.

Mesmo com os belos acréscimos islâmicos, o melhor aqui é se deter nos mosaicos: de longe o mais impressionante é o Deësis, do século XIII. O rosto de Cristo é fascinante, não se lembra do material de que foi feita a obra de arte, tal é o nível de detalhes e a sua expressão.

Ele fica na galeria superior, onde se pode ter também uma visão melhor da Virgem com o menino Jesus na principal semi-abóboda …





…além de outros mosaicos de parar e babar: o da Virgem com os imperadores João e Irene Comnenus, lindas expressões, serenas – século XII…

…e outro um século mais antigo, retratando Cristo Pantocrator com a famosa imperatriz Zoe e o seu último marido, Constantino. (Contam as lendas que o afresco teve o rosto masculino modificado algumas vezes para acompanhar a troca de maridos da poderosa e difícil Zoe…)

Ainda existem outros menores e com padrões geométricos, mas não se deve esquecer de virar para trás na hora de sair: um belo mosaico está na última câmera antes de voltar ao jardim – a Virgem e o Menino ladeados por  Constantino e Justiniano (este último com um modelo de Santa Sofia, consagrando-a).
Depois de tão importante visita e ainda ruminando o que tinha acabado de ver, apenas atravessei a rua para conferir um dos lugares sobre o qual eu mais tinha curiosidade: Yerebatan Sarnıcı ou a Cisterna da Basílica.

Construída por Justiniano no século VI (de novo ele…), ela armazenava água vinda de uma região próxima ao Mar Negro, através de um aqueduto que pode ser observado ainda hoje, pelo menos em parte (próximo à mesquita Süleymaniye). Esse reservatório de 80 mil metros cúbicos de água supria principalmente o Grande Palácio bizantino e boa parte do que é hoje o bairro histórico.

Pensar que essa espetacular obra tenha ficado desconhecida por tanto tempo…até o século XVI, quando um historiador francês ouviu histórias de moradores que coletavam água nos seus porões, misteriosamente, muitas vezes os baldes vindo com peixes! Sua entrada foi descoberta, mas infelizmente para a cisterna, a população e as autoridades não deram a devida atenção e durante alguns séculos virou depósito de lixo e outras coisas mais. Finalmente, em meados do século XIX começaram as restaurações e limpezas, que se desenrolaram até o final do século passado, quando foi aberta ao público em 1987. Até os peixes voltaram a dar o ar da graça…

Visita-se a cisterna por passarelas, atravessando boa parte dela através de suas mais de 300 colunas, dos mais diversos estilos arquitetônicos, mais algumas sem nenhum estilo e outras diferentonas, como a dos relevos de lágrimas. Existem ainda duas Medusas num canto da estrutura, sustentando colunas: uma foi colocada de ponta-cabeça, a outra de lado. Não se sabe o porquê dessa disposição, mas as duas moças ajudam a ressaltar o ambiente misterioso e calmo, ressaltado por uma bela iluminação, pelas gotas de água que de vez em quando caem na pele e pelas sombras dos movimentos dos peixes, na água logo abaixo.

Da cisterna até a Mesquita Azul é uma caminhada curta atravessando a agitada praça de Sultanahmet, especialmente se é feriado: famílias inteiras passeando entre as árvores, não resistindo ao cheiro delicioso das castanhas assadas…

…ou às fotos junto à fonte. É um lugar privilegiado para se sentir rodeado de istambulitas aproveitando o tempo livre, ver as crianças brincando, moços e moças numa paquera sutil…


O trecho é curto e interessante, e logo se está aos pés da Mesquita Azul, opondo-se à Santa Sofia, competindo entre si e completando-se mutuamente.


Olhando para a dupla, é difícil imaginar que uma construção tenha sido completada mais de mais mil anos depois da outra, dada a escolha de sua localização e a coincidência de volumes e formas. Que na verdade não foi uma coincidência, mas uma vontade expressa do sultão Ahmet de construir um centro religioso que fizesse frente à grandiosidade e sofisticação arquitetônica de Santa Sofia. Para isso, contratou um arquiteto que foi discípulo do grande Sinan e supervisou ele próprio as obras para garantir a magnificência do projeto.


Apesar de não ter a leveza da abóboda de Santa Sofia, a grandiosidade da mesquita Süleymaniye e os azulejos preciosos da Rüstempaşa, a mesquita do sultão Ahmet tem uma beleza incrível, graças em boa parte à quantidade absurda de lindos azulejos que recobrem suas imensas áreas internas e cuja cor predominante a batiza. Se dependesse de mim, o nome teria sido bem diferente, já que o vermelho não fica atrás e faz uma composição de cores fascinante com o badalado azul.

Além da beleza que está na cara, a Mesquita Azul também tem um clima muito interessante, uma mistura pacífica de fiéis orando e turistas…turistando, uma agitação contínua no ar, dando a impressão de este ser um lugar querido entre todos. Talvez eu tenha sido influenciada pelo fato de esta ser a minha primeira mesquita ou talvez fosse a maciez do carpete embaixo dos meus pés ou o eco do muezim ainda reverberando dentro da minha cabeça depois de ter me acordado bem antes do que eu tinha planejado…

Santa Sofia é etérea em comparação, mas a Mesquita Azul ganha em vivacidade. Enfim: é um lugar esplêndido, que fica ainda mais admirável quando se conhece todo o complexo, que inclui ainda um pátio do mesmo tamanho que o interior da mesquita…

…com portais e detalhes lindamente ornamentados…


…a tradicional fonte para as abluções…

…e de onde se pode apreciar mais de perto os famosos minaretes e também polêmicos na época de sua construção: com seis torres, a Mesquita Azul rivalizava apenas com Meca, o que foi considerado como pretensão por muitos.

A sensação gostosa continua no jardim, lindo com suas cores outonais, um sol que brilhava depois da chuva e a visão sempre bem-vinda da ‘concorrência’ logo a frente.




É bom lembrar que a Mesquita é um local de oração e seu acesso é controlado, não sendo permitida a entrada de turista durante um dos cinco horários de oração durante o dia. Deve-se manter o silêncio, pois mesmo fora deles há sempre muita gente orando, em locais especialmente reservados (homens e mulheres cada qual com o seu, sendo o delas sempre no fundo…o deles no centro do salão). Os pés estarão necessariamente descalços (eles providenciam um saquinho para carregar seus sapatos) e o uso de véus para mulheres é opcional, mas uma medida simpática, assim como deixar uma contribuição na saída.
Este centrinho é todo compacto, cheio de atrações de impacto e o Hipódromo é mais uma delas, correndo ao longo da própria mesquita e do parque de Sultanahmet. Essa área alongada deveria estar para os impérios bizantino e otomano assim como a Ágora estava para a vida política e cultural da antiga Atenas: muitos eventos cruciais nesse decorrer da história tiveram seu lugar ali. A área hoje não deve lembrar em nada o que era originalmente, tanto em seu tamanho como formato, composição…: os seus elementos de destaque hoje são três colunas: um obelisco egípcio impecável, parecendo ter sido esculpido hoje (na verdade tem mais de três milênios), uma coluna grega em espiral, do V século a.C. (e com boa parte de sua estrutura desaparecida) e uma obelisco rústico, de origem desconhecida.

(A chuva quando passava pelo Hipódromo e a conseqüente falta de fotos me obrigou ao empréstimo de uma: foto de coolistanbultours.com)
Do outro lado da Mesquita Azul está o Arasta Bazar, antigas cavalariças que hoje formam um corredor agradável de lojas, especialmente algumas com excepcionais cerâmicas ou peças bordadas em seda de babar. O Arasta é uma oportunidade mais light de compras do que o Grand Bazaar…também pode ser um treino para este último 😉
Sultanahmet é inteira cravada de atrações e são tantas que é necessário estabelecer prioridades. Além destas mais famosas, ainda é possível (e imperdível) visitar todo o complexo Topkapi (que exige um dia para uma visitação completa e merece um post próprio), o Museu de Mosaicos, o Museu de Arqueologia, o Museu de Artes Islâmicas, a Küçük (pequena) Aya Sofia, as tumbas na Divan Yolu. Ou simplesmente se perder nas pequenas ruas que envolvem o centro do bairro, observando especialmente os simpáticos prédios de madeira, bem característicos. E ainda tem as escavações do Grande Palácio de Constantino…quem sabe daqui a pouco o bairro não ganha mais uma atração? Não que precise: só Sultanahmet já preenche uma viagem inteira…