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O primeiro dia de verdade em Istambul deve ser sempre dedicado ao bairro histórico de Sultanahmet e às duas grandes: Santa Sofia e Mesquita Azul, certo? Bem, preferi fazer um pouco diferente e decidi deixar o dia correr mais tranqüilo, caminhando aqui e ali. Tinha tempo suficiente para me dar ao luxo de um dia mais relaxado, antes de partir para as grandes atrações.

E, de qualquer maneira, veria a praça central de Sultanahmet todos os dias, estando hospedada a apenas dois quarteirões da embasbacante Santa Sofia: passaria pelo ‘centrinho’ sempre a caminho do ponto do bonde. Devo dizer que essa rotina aumentou muito o prazer da minha passagem pela cidade…Já outro pedaço de rotina não chegou a ser totalmente absorvido: o poderoso chamado da Mesquita Azul para a oração, às seis da manhã :mrgreen:
Seguindo a pé até o Grand Bazaar (Kapalıçarşı), levei cerca de 15 minutos desde o hotel – uma caminhada fácil pela Divan Yolu, a principal rua comercial do bairro histórico, cheia de lojas de suvenires, agências de turismo e câmbio. Passando pela tumba do sultão Mahmut, pelo célebre hammam Çemberlitaş e pela mesquita Nuruosmaniye, cheguei a um dos principais portões de entrada do complexo, que é um dos maiores e mais antigos souks do mundo, construído no século XV.
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É uma teia de ruas, dezenas de portões de entrada, mais de mil lojas, distribuídas aproximadamente de acordo com a atividade: ouro, tapetes, suvenires, cerâmica, couro, antigüidades, tecidos…Não dá para ficar indiferente ao entrar no Grand Bazaar pela primeira vez: o seu queixo caído e um sorrisinho bobo logo vão atrair os vendedores ansiosos por vender tudo o que você deseja e aquilo que você definitivamente não precisa. Não tem problema: um sorriso e um ‘não’ firme dão conta do recado e os lojistas, apesar de insistentes, são gentis.

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Aliás, algumas horas ali podem não ser tão relaxantes assim se o seu objetivo for realmente comprar: é preciso pesquisar bastante os preços e qualidade do produto, ser paciente com os vendedores e, por último, pechinchar bastante. E não tem jeito: você sempre sai da loja achando que poderia ter feito um negócio melhor, especialmente se o dono é todo sorrisos, conversas e chá depois de tudo encerrado 🙄 Depois de duas experiências comprando tapetes ali e uma no Arasta Bazar (ao lado da Mesquita Azul, menor e mais tranqüilo), verifiquei que ainda preciso de muitas idas a Istambul para poder negociar decentemente :mrgreen:
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Há duas possibilidades de se explorar o labirinto e eu comecei pela mais relaxada, caminhando sem planos olhando o que desse vontade e entrando nas vielas. Só que esse plano se revelou furado quando eu sempre acabava voltando para o mesmo lugar…e aí entrou em ação o meu eu mais comum: com a cara enfiada num mapa 😉 Assim é mais fácil visitar um pouco de cada região do mercado, especialmente aquelas mais nos cantos onde os turistas quase não chegam e é mais fácil ver os locais fazendo compras.

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Mas o verdadeiro lugar de compra dos istambulitas não está na área coberta da bazar, mas no bairro de Tahtakale, que cerca sua parte norte e vai até a beira do Corno de Ouro. Passear por aqui é um choque e vai fazer o Grand Bazaar se parecer com um shopping sofisticado: ruazinhas estreitas de comércio popular, cheias de compradores. Artigos para cozinha, armas de fogo, roupas de circuncisão, bugigangas à la 25 de março ou Saara – nada turístico, mas interessantíssimo e recomendado para quem não tem frescuras.
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Quando você se dá conta, já está em Eminönü e poderia terminar a tarde ali, visitando as suas atrações, que são muitas. Como já tinha caminhado um pouco pela parte antiga, a idéia era atravessar a ponte de Galata até Beyoğlu e conhecer a ‘cidade nova’. Bem…o adjetivo ‘novo’, nessa cidade movimentada desde o século VII a.C., adquire um significado mais abrangente do que estamos acostumados a usar. Por exemplo: Galata, a região mais próxima ao Corno de Ouro, foi colonizada por genoveses desde o século XIII . Beyoğlu, mais acima, teve seu desenvolvimento especialmente no século XIX. Nada muito recente, mas pode ser se considerarmos Bizâncio / Constantinopla / Istambul.
Considerando a geografia do bairro, o melhor seria ir ao ponto mais alto (e também mais distante) e descer em direção ao Corno de Ouro. Nada melhor do pegar um dos super bondes que cortam as partes de Istambul que mais interessam: passam pela Divan Yolu, Sultanahamet, Sirkeci (onde há um ponto bem em frente à estação de trens), Eminönü, atravessa a ponte de Galata e continua margeando o lado europeu do Bósforo até quase chegar ao Palácio Dolmabahçe.
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(Para melhor visualização, clicar no mapa.)
A linha que mais interessa no mapa é a azul escura que vai de Zeytinburnu até Kabataş, o ponto final dos bondes e também para mim, que ainda pegaria o novíssimo funicular até a Praça Taksim. A passagem para cada trecho de bonde é uma ficha (token) que pode ser comprada na cabininha existente em todas as estações (procure por Jeton Gişesi)
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A Taksim é uma praça grandona e sem graça, com um monumento em estilo soviético erguido em homenagem ao onipresente Mustafa Kemal Atatürk (pai dos turcos). Para entender porque a Turquia é um país com um pé no ocidente é preciso saber quem foi esse homem e o papel que ele teve na história do país: Atatürk foi o responsável pela transformação do Império Otomano em República da Turquia (na ressaca da 1a. Guerra Mundial) e também seu primeiro presidente.

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(imagem de www.freewebs.com/medialogy)

Conduzindo uma corrente nacionalista turca, ele foi o responsável, ao mesmo tempo, por modernizar o país, transformando-o em um Estado secular. E ainda se cercou de outras mudanças que reforçariam a principal: Atatürk ainda aboliu o fez, desestimulou o uso de roupas tradicionais (inclusive véus para mulheres), substitui o alfabeto árabe pelo latino. Apesar da oposição das parcelas mais conservadoras da sociedade turca, era um governante bem-sucedido e popular, sendo que o culto à sua figura ainda é comum no país até hoje. Imagens suas são comuns em lojas, restaurantes, em áreas públicas da cidade.
Portanto, nada mais justa a homenagem em um ponto da cidade que deveria refletir bem o espírito modernizador do governo Atatürk, além de partir dali, da praça Taksim, a principal e mais famosa via do bairro de Beyoğlu: a Avenida da Independência ou Istiklal Caddesi (pronuncie djadesi).

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Seu nome antigo era Grand Rue de Pera, que era o nome do bairro na época em que os grandes edifícios em estilo ocidental foram erguidos, entre o século XIX e o começo do XX. Ali se concentrava a elite européia em Istambul (já que os otomanos ocupavam Sultanahmet) e onde ficavam as embaixadas, os liceus e residências grandiosas: muitas destas construções ainda estão ali, exibindo traços neoclássicos, ecléticos, alguns art nouveau. Nessa área é interessante manter o olhar um pouco para cima, observando as fachadas que ainda restam…

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…mas sem se descuidar do bonde histórico que percorre a avenida desde Taksim até Tünel, onde um funicular construído no final do século XIX vence o desnível até chegar num ponto próximo à Ponte de Galata.
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Beyoğlu não é um bairro com grandes atrações turísticas, mas é perfeito justamente para bater perna, fuçar as bonitas galerias, como a Çiçek Pasaji (das flores), que dá no Balık Pazar (mercado de peixes) e na Avrupa Pasaji, com lojinhas de antigüidades. Deve-se reservar tempo para sentar num café e ver o movimento das pessoas indo às compras, dos jovens andando em bandos saindo da escola…Outra opção é sentar numa Mado e pedir um dondurmaOu até preferir algo mais substancioso e nesse caso eu recomendo fortemente o Haci Abdullah: um dos mais antigos restaurantes de Istambul, confortável e tradicional, serviço simpaticíssimo (descobri o nome em turco e até mesmo inglês para várias coisas) e uma comida deliciosa (estou me lembrando de um kebab de pistache com purê de berinjelas…ai, ai.) Só não servem álcool, algo abundante na vizinha Nevizade Sokak, uma rua cheia de tavernas que ficam lotadas à noite, com locais e turistas. Peça vários mezes (comidinhas) para acompanhar o seu raki ou qualquer outra bebida que você prefira.

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Outra alternativa à descida de um trecho da Istiklal é pegar a paralela Meşrutiyet Caddesi e fazer uma visita ao belo Museu Pera. Ele nem estava no meu Lonely Planet defasado e foi uma ótima surpresa e uma decisão melhor ainda parar para ver a exposição temporária sobre a visão das artes plásticas ocidentais sobre o oriente no século XIX. Fa-bu-lo-sa. Enorme e interessantíssima, especialmente a seção retratando o harém e a vida privada, a exposição ofuscava o pequeno acervo. E aparentemente tem recebido muitas outras temporárias de fazer valer a visita.

Atravesse a rua para ter uma grande vista da cidade e de um trecho do Corno de Ouro e continue descendo até chegar a uma atração clássica do bairro: o Hotel Pera Palas. Um hotel lendário, luxuosíssimo, conhecido por receber nobreza e celebridades: talvez sua ocupante mais famosa tenha sido Agatha Christie, que passava ali temporadas, junto com os hóspedes que chegavam no não menos mitológico Expresso do Oriente. Atatürk era também hóspede habitual e tinha, assim como a escritora, o seu quarto preservado como museu. O hotel está fechado há alguns anos para restauração e espera-se que no próximo ano volte com toda a pompa e mais um pouco. Fiquei decepcionada com todos os tapumes quando cheguei ali: devia ser tão visível a minha tristeza que o guarda me deixou entrar um pouco e me guiou para ver o salão principal. Mesmo no meio de bagunça dá para perceber claramente que, com um belo trabalho, o Pera Palas tem tudo para voltar a ser um hotel e uma atração turística arrasadores. Ah, um dia ainda beber algo no bar, admirando a linda arquitetura, recuperada…para uma próxima 😉

Acabei começando a descida íngreme do bairro de Galata, ao término da Istiklal, bem no final da tarde. Entre ruazinhas estreitas e decadentes me aparece a Torre de Galata, um restinho de Idade Média no meio do bairro, construída no século XIV pelos genoveses.

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Ainda dava tempo de curtir o dia mais um pouco antes de voltar para o hotel e descansar. Comprei o ingresso, subi pelo elevador e escadinhas claustrofóbicas até o terraço. E percebi que não estava preparada para o espetáculo que estava começando ali, naquele momento: um pôr-do-sol perfeito, tendo Istambul em 360º. Começando pela parte norte do Corno de Ouro (um ótimo ponto para observar os aviões em rota para o aeroporto)…

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…seguindo à direita com uma visão de Beyoğlu, do porto na beira do Bósforo, que se estendia em direção ao Mar Negro e ainda permitindo uma visão da Ponte do Bósforo…
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…continuando com o próprio Bósforo recebendo o Corno de Ouro à direita e seguindo seu caminho um pouco mais, até desembocar no Mar de Mármara (e aproveitando para observar a Ásia, logo ali em frente). Já na nossa frente, Sarayburnu (ou Seraglio Point), a pontinha da península histórica de Sultanahmet…
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…do qual a primeira visão que se tem é a do Palácio Topkapi e o parque Gülhane…
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…logo surgindo as duas grandes: Santa Sofia e Mesquita Azul…
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…mais um pouquinho à direita a Ponte de Galata e o bairro de Eminönü, onde se pode ver a Yeni Camii (mesquita) e o Bazar Egípcio ao lado. E completando a volta inteira.
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Não sei muito bem quanto tempo fiquei ali em cima na torre. Perdi a noção enquanto me deixava encantar e me emocionar com uma das visões mais lindas que já tive na vida. Ali em cima, sozinha, dei risada e chorei. Me lembrei dos meus queridos distantes, que eu adoraria que estivessem ali comigo dividindo aquele instante, um em especial que saberia apreciar aquele lugar como poucos (e que infelizmente não teve tempo suficiente aqui para conhecer lugar tão mágico). Fotografei muito, mas observei ainda mais, e atentamente, para gravar fundo na memória. Tive plena consciência da beleza milenar da cidade, do seu mistério, de sua grandiosidade. E também do privilégio de estar ali. E agradeci.
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Foi com muito custo que movi meus pés e desci a torre, descendo ainda mais pelas ladeirinhas sinistras de Galata até o ponto de bonde mais próximo, numa das extremidades da ponte. Na espera, mais um momento de arrepiar: um resto de luz que tocava o complexo Topkapi e os barcos cruzando o Corno de Ouro, o reflexo nas águas e um muezim distante chamando os fiéis. Deixei passar um bonde…e mais outro…
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Chegando em Sultanahmet e já me sentindo em casa nos arredores, ainda mais um presente: uma linda lua minguante pousada sobre a cúpula da Mesquita Azul. Como não se apaixonar por uma cidade dessas?
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