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Alugar um carro e sair por aí, num país que não é o seu, sempre traz um gostinho de desafio. As placas são diferentes, os hábitos de direção talvez um pouco mais ‘arrojados’ e, se a mão for inglesa, loucura dobrada. Língua que não se domina também pode ser um obstáculo no caso de se precisar de indicações, mas na Grécia a dificuldade ia um pouco além: o que fazer com placas em outro alfabeto?
Sabia que alguns lugares mais movimentados tinham a indicação nos dois alfabetos, grego e latino. As poucas placas em Atenas também seguiam essa regra: Acrópole, aeroporto, Glyfada (cidade da região metropolitana à beira-mar), Peiraias (não fazia idéia que lugar era esse)…E fui treinando a transliteração nos dias em que fiquei em Atenas, além de pedir também um GPS como medida de precaução…
Pelo horário de saída, o agente da Safeway (agência indicada pelo Décio, bem mais barata que as grandes do tipo Avis, Hertz) recomendou evitar a saída pelo centro de Atenas, por conta do trânsito. Se contornasse pelo porto, Pireus, chegaria mais rápido à estrada. Ok, a opção foi desconsiderar as indicações do GPS e seguir pela longa avenida Syngrou, a mesma do hotel. Mas cadê indicações do porto? Acabei no lado oposto, quase em Glyfada e nada de placas de Pireus. Só depois de voltar um bom trecho e quase ter que voltar para Atenas por falta de indicações é que a ficha caiu: Peiraias = Pireus 🙄 A reputação desta blogueira de ter bom senso de localização quase foi por água abaixo 😳  Enfim…com um certo atraso, passei pela feiosa periferia ateniense e caí na pequena estrada que seguia para Delfos.
Começava a pequena aventura pelo interior da Grécia, cruzando paisagens lindíssimas: regiões montanhosas áridas, intercalando trechos com oliveiras e outros com pinheiros.
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A estradinha cheia de curvas e caminhões búlgaros não era das mais fáceis, mas a paisagem compensava.
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O olho festava grudado na janela: passavam rápido as super vistas, as miniaturas de igrejas ortodoxas em mastros (talvez para proteger os viajantes), ciganos dançando na beira da estrada e um pastor com suas ovelhas. Enfim, me sentia realmente nos Bálcãs 😀
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Depois de muitas traduções apressadas, descobri que as placas vêm em alfabeto grego e, um pouco à frente, em alfabeto latino. Não fiz mais erros neste trecho da viagem, mas a confusão de Pireus gerou um atraso e o pôr-do-sol se aproximava rápido…
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Já na reta final, contornei as encostas do mitológico (como tudo na Grécia, aliás) Monte Parnaso: era consagrado a Apolo e aqui viviam as Musas. Alguns devem se lembrar do parnasianismo, nas aulas de literatura 😆 Vinda do calor de Atenas, via o termômetro despencar, passando por Arachova, cidadezinha que lota no inverno por ser a base para esqui na região. Mais um pouco e chegava a Delfos, a tempo de ver a paisagem da baía de Itea com um pouquinho de luz…
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Mais um fim de tarde magnífico, entre tantos outros que ainda viriam: pelo jeito finais de tarde são uma especialidade grega 😀 Não dava para desgrudar o olho daquelas montanhas entre o pôr-do-sol, o mar ao fundo, as luzes…
E enfim…Delfos. A cidade é minúscula, duas ruas paralelas na encosta da montanha, tomada na maior parte por hotéis, lojas e restaurantes. O padrão dos hotéis é bem parecido e a escolha foi o Varonos, um dos melhores colocados no Trip Advisor. Foi uma boa decisão: o hotel é simples e tem uma decoração, digamos…peculiar 🙄 Mas tinha um bom preço (50 euros), quarto confortável e limpo, internet de graça, uma linda vista da varanda e um atendimento ultra simpático.
Escolhi uma das indicações do hotel para o jantar: To Patriko Mas, uma casa de pedra do séc. XIX, aconchegante e com boa comida. Tinha também um menu mais variado, com carnes de caça: aproveitei e pedi o coelho, muito saboroso. Só não variei na sobremesa, já que isso também seria pedir demais…Acabei no tradicional (e delicioso!) iogurte com mel, que, junto com a baklava, forma o duo de sobremesas onipresente na Grécia.
Ao acordar bem cedo é que pude ver a versão com luz da paisagem da varandinha: um mar de oliveiras no vale aos meus pés, o mar e as montanhas ao fundo…Lindo, vocês não acham? 😉
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A decisão de dormir em Delfos e acordar cedinho para ir ao sítio tinha a ver com as inúmeras excursões que saem de Atenas para um bate-e-volta: a partir de um certo horário os ônibus chegariam e queria ter um pouco de sossego até lá.
E com razão Delfos é muito procurada: aqui está um dos principais sítios arqueológicos da Grécia, considerado patrimônio da humanidade pela Unesco e tido com um dos grandes locais sagrados da Grécia Antiga. Tendo sido criado por volta do séc. VIII a. C. pelo próprio Apolo, o Oráculo de Delfos era dedicado ao deus e considerado o umbigo do mundo.  Segundo a mitologia, era originalmente dedicado a Gaia, a mãe terra, tendo reputação como local de adoração ainda mais antiga…É fácil entender a escolha dos deuses: o santuário está cercado de natureza…os vales e montanhas pareciam ainda mais bonitos com a luz da manhã.
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Aqui era o ponto final da peregrinação para aqueles que desejavam ter suas dúvidas existenciais esclarecidas pela pitonisa, a sacerdotisa de Apolo. Ela se sentava junta a uma fenda na terra, de onde saíam vapores que a deixavam em transe: era neste estado que ela fazia suas previsões e respondia aos consulentes, Apolo falando através dela.
Suas respostas, apesar de traduzidas pelos sacerdotes, eram confusas, ambíguas ou em forma de charada, muitas vezes mal interpretadas, mas nada disso afetava o prestígio do santuário. E a riqueza também: as cidades-estado faziam tantas oferendas que foram construídas estruturas conhecidas como ‘tesouros’, para guardá-las. A grande maioria está em ruínas e o único  restaurado é o Tesouro de Atenas, provavelmente oferecido a Apolo como agradecimento pela vitória na Batalha de Maratona, contra os persas. 
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Os tesouros estão em toda parte, especialmente ao redor da Via Sacra, que ia da entrada até o Templo de Apolo, o coração do complexo.
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Apesar de ter apenas algumas de suas colunas restauradas, dá para se ter uma idéia da grandiosidade do templo, onde as pitonisas faziam suas profecias, envoltas em todo o ritual exigido para as consultas.
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Além do culto a Apolo, Delfos também se dedicava aos Jogos Píticos, que aconteciam aqui, de quatro em quatro anos, reunido competidores de toda a Grécia. No início, apenas competições de música e poesia faziam parte dos jogos (Apolo também era o deus da música) e para isso era usavam o teatro, uma das estruturas mais bem conservadas do sítio, um pouco acima do templo.
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Subindo a montanha mais um pouco, é possível visitar o estádio, criado para as competições atléticas, como corrida, pentatlo e luta. Como é também o ponto mais alto, a vista do sítio arqueológico e arredores é imbatível. Aqui é possível ver uma reconstrução possível do santuário, de 1894, por Albert Tournaire, arquiteto francês.
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Complementando a visita, passe pelo museu para ver todas as obras que foram desenterradas pelas escavações arqueológicas, desde o final do séc. XIX. Fica ao lado da entrada do sítio e possui lindos mosaicos expostos na sua área externa, além de estátuas, objetos de ouro, frizos retirados dos tesouros…
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Mas a principal obra é mesmo o condutor de carruagens, estátua em bronze que é praticamente o símbolo de Delfos.
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O complexo ainda continua um pouco a frente na estrada: o ginásio, com poucas estruturas estruturas visíveis, e o santuário de Atena Pronaia com o Tholos, construção circular que teve três colunas restauradas – é uma das imagens mais fotogênicas de Delfos.
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A manhã passou voando e já era hora de fazer check-out, almoçar e colocar de novo o pé na estrada, rumo a Meteora 😀
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