Fazer um post sobre curtir a serra bem no final do inverno? É, eu sou um pouco do contra…o friozinho pode ser delicioso para um relax nas alturas, mas os hotéis lotados e caros me fazem perder a vontade. Passada a loucura da temporada, as cidades da Mantiqueira ficam mais calmas e bonitas também: na primavera as hortênsias florecem, no verão dá até para arriscar um banho de rio ou cachoeira e no outono as folhas amareladas ficam lindas na paisagem.
E foi justamente no finalzinho do verão, começo de outono que nós resolvemos aproveitar um feriado para descansar na serra. A idéia era conhecer algum lugar novo, fora do roteiro mais tradicional…tinha algumas idéias há algum tempo e tiramos uma delas da manga: Passa Quatro, em Minas.
A cidade fica a 250 km de São Paulo, vindo pela Via Dutra e subindo a serra por Cachoeira Paulista e Cruzeiro. É uma típica cidade de interior, tranqüila, cheia de jardins e construções de estilo eclético, do começo do séc. XX. A nossa pousada, a Maria Manhã, fica afastada do centro, num vale em plena zona rural.

São poucos chalés espalhados por um jardim muito bem cuidado, em estilo rústico e muito confortáveis: novinhos, com camas grandes, lareira e vista, além de uma varanda muito convidativa, com rede. Eu sou uma mulher de vistas: este é sempre um dos fatores que eu mais levo em conta ao procurar um hotel 😀
Bem no meio de uma época de trabalho louco, tudo o que eu queria neste primeiro dia era descansar e foi exatamente isso o que fizemos: dormir até tarde, ler na rede, tomar sol e nadar…

À tarde preferimos ver a linda região ao redor da pousada a cavalo…Típica paisagem do interior de Minas: relevo de sobes e desces, riozinhos correndo no meio de taboas, vaquinhas pastando no morro, cerquinhas tortas e flores de São João. Ah, eu adoro isso 😉

No dia seguinte demos uma folguinha para a preguiça e fomos até a cachoeira da Gomeira…


…que é muito bonita, mas não perde nada para as paisagens por onde passamos para chegar até ela.


Voltamos para a cidade para almoçar e nos encontrar com a guia que iria nos mostrar o caminho para as corredeiras do Rio Verde, mas ela e o grupo se atrasaram no almoço e…nos perdemos dela. Queríamos uma ajuda nos caminhos e também caso tivéssemos problemas nas estradas de terra, mas resolvemos seguir em frente mesmo assim.
Bem, até conseguimos chegar ao ponto certo da estrada, mas quem diz que havia placas para indicar a trilha? Até tentamos, mas o paredão de descida era imenso, incompatível com os meus joelhos fora de forma. Pena, parecia um lugar lindíssimo, com várias piscinas naturais…mas a paisagem vista da estrada não decepciona: carneirinhos e quedas d’água, quer paisagem mais bucólica? :mrgreen:





Aproveitamos o final da tarde para passar pelo Floresta Nacional de Passa Quatro, uma bonita área de preservação com cachoeiras e lagos. E…de volta para a pousada onde assistimos, da nossa varanda, uma tempestade de raios que durou mais de meia hora, iluminando as montanhas já escuras. Varanda de onde se podia ver também um lindo amanhecer…

No nosso último dia deixamos a pousada e fomos para o centro de Passa Quatro, mais especificamente para a estação ferroviária. Infelizmente não é mais possível chegar até a cidade com o trem, mas ainda existe um pequeno trecho turístico operado pela ABPF – Associação Brasileira de Preservação Ferroviária, criada há 30 anos pelo meu sogro para preservar um pouco da história ferroviária do país.

Esse é apenas um dos trechos que a ABPF recuperou e colocou em operação locomotivas maria-fumaça restauradas nas suas oficinas: ainda há o percurso Anhumas-Jaguariúna, talvez o mais conhecido, um trechinho no Memorial do Imigrante, em São Paulo, entre outros. Este passeio que fizemos é conhecido também como Trem da Serra da Mantiqueira, saindo da estação de Passa Quatro, passando pela estação Manacá e tendo como ponto final a estação Coronel Fulgêncio.

Além da própria locomotiva e carros de passageiros restaurados, da paisagem pelo caminho…


…um dos grandes atrativos do passeio é o seu conteúdo histórico: o trem pára um pouco antes do Túnel da Mantiqueira, inaugurado no final do séc. XIX por D. Pedro II, na divisa entre os Estados de São Paulo e Minas Gerais. Ele foi cenário de combates agressivos da Revolução Constitucionalista de 32 (uma das frentes mais importantes foi o Vale do Paraíba), justamente por contrapor: de um lado os paulistas, constitucionalistas e do outro as tropas federais.

A antiga estação, ponto crucial de confrontos, está sendo restaurada e ainda hoje podem ser encontrados vestígios de trincheiras e balas, resultado dos acontecimentos da época.
Outro projeto é a recuperação de uma locomotiva mais forte que possa vencer o declive do túnel e voltar: o passeio então será feito até o outro lado da serra, com a visão do vale, já no Estado de São Paulo.

Muito bom saber que mais trechos ferroviários estão sendo recuperados, como o recente Ouro Preto – Mariana, que teve a ajuda das oficinas de restauração da ABPF. Acho que o Patrick ficaria contente com mais este pedacinho da história ferroviária trazido de volta à vida.
E de volta a Passa Quatro…A idéia era fotografar a linda estação e os casarões da cidade, mas a chuva deu as caras e não parecia querer ir embora. As fotos e o almoço em Itamonte, no Hotel São Gotardo, ficaram para a próxima…

_______
Outras viagens…

Para aqueles com espírito aventureiro (e com excelente condicionamento físico), ficam duas sugestões de travessias cuja base para subida é Passa Quatro:
– Travessia Marins-Itaguaré: um trekking/escalada de três dias passando por estes dois picos – seu ponto mais alto tem uma visão abrangente do Vale do Paraíba e regiões montanhosas próximas, como o Parque de Itatiaia.
– Travessia da Serra Fina: considerado um dos trekkings mais difíceis no Brasil, com duração média de 4 dias de caminhada, tem como uma das principais atrações a subida da Pedra da Mina, 4º maior pico do país.